A boa energia da Patagónia

Estava com dificuldade em sair do conforto que Bariloche me ofereceu. O hostel dava-me refeições, cama, banho quente e ainda me lavavam e engomavam a roupa.

A boa energia da Patagónia
A crónica de viagem de Diogo Campos

Era um luxo encontrar um voluntariado com todas estas condições, ainda por cima a energia do hostel e do staff era fantástica. Infelizmente um casal de russos já tinha reservado as próximas três semanas.

Tinha o desejo de voltar e perguntei ao gerente, um jovem com a minha idade que começou como voluntário há menos de um ano, se podia voltar depois do casal de russos e ele disse-me que seria um prazer.

Contei-lhe que nunca tinha cozinhado antes para tanta gente, tão pouco comida vegan e que apenas disse que sim porque o frio da Patagónia estava a congelar-me à noite quando dormia na tenda e estava a precisar de um banho quente e de comer bem.

patagonia 1

Convidou-me para ficar em sua casa alguns dias enquanto decidia o queria fazer. Pensei ir uma semana para a montanha mas o tempo iria piorar e acabei por passar apenas uma noite.

Fui sozinho com a minha mochila onde levava comida, roupa para a noite caso fizesse frio e a tenda; parecia pouca coisa mas ainda assim pesava cerca de dez quilos. Nunca fiz montanhismo, tal como nunca tinha cozinhado comida vegan para vinte pessoas, mas estava seguro que aguentaria.

O terreno era mais agreste do que pensava e houve momentos em que tive que fazer mini escaladas e descer ravinas cheias de pedras. A minha sorte foi ter encontrado dois franceses e ter feito parte do caminho com eles, mas o peso da mochila e o sol forte a uma altitude de dois mil metros não me permitiram aguentar o seu ritmo e acabei deixá-los ir para poder descansar um pouco.

montanhas

As paisagens eram impressionantes, a extensão infinita da cordilheira dos Andes com alguns picos brancos da neve e as lagoas no meio, que me faziam recordar os Açores, valiam pelas bolhas no pés e as dores que todo o meu corpo sentia.

No primeiro dia caminhei mais do que pensei, cerca de vinte quilómetros, e cheguei a um refúgio perto de uma lagoa pelas oito da noite. O cansaço era tanto que nem fome tinha e depois de montar a tenda deitei-me de imediato e só acordei passado doze horas. No dia seguinte fiquei a relaxar e enquanto cozinhava um arroz com patê dei um mergulho na lagoa de água gelada.

patagonia 2

O segundo dia foi mais fácil pois o caminho era mais acessível e quase sempre a descer. Fique mais uma noite em Bariloche e no dia seguinte fui para El Bolsón, uma cidade que fica a cento e poucos quilómetros mais a sul.

Na primeira noite, como não tinha onde ficar, montei a tenda numa quinta abandonada, mas nas duas noites seguintes fui para um hostel/quinta biológica que era praticamente auto-sustentável dos mesmos donos do hostel onde tinha cozinhado.

hostel

Tinha uma reserva com tudo pago, inclusivé toda a comida, devido a terem gostado do meu trabalho. Havia onze voluntários, todos jovens a viajar com pouco dinheiro, desde alemães, canadienses, italianos e argentinos, e pela noite tomávamos mate e falávamos das histórias de cada um.

Viajar quase sem dinheiro foi sem dúvida uma das melhores decisões da minha vida. Para a semana quero ver se chego à ponta mais a sul do continente americano (Terra do Fogo), sem gastar um cêntimo. Acompanhem a aventura em Puririy.

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Diogo Campos Diogo Campos

Diogo Campos é um sonhador de natureza. Tirou um Mestrado em Engenharia do Ambiente, já teve um negócio de sumos naturais e por vezes dedica-se à agricultura biológica. No ano de 2016 decidiu deixar tudo para trás e ir viajar apenas com bilhete de ida para a América do Sul, mas mais do que isso decidiu ir praticamente sem dinheiro. Neste momento está apenas dedicado à escrita e a viajar.