À boleia nas estradas do Brasil

O meu corpo fervilha e os pensamentos confundem-me entre o medo de partir e a ansiedade de que comece.

À boleia nas estradas do Brasil
A crónica de viagem de Diogo Campos

Estou numa paragem de autocarro, são 9h30 e às 13h00 vou encontrar-me, em Campinas, com o casal que conheci na passagem de ano e que me vai dar uma boleia de cerca de 400km para Curitiba, pelas estradas do Brasil.

Pelas estradas do Brasil rumo ao Uruguai

Além da boleia que durou 6h, onde falámos do Brasil no geral – desde “A voz do Brasil”, que é um programa de rádio obrigatório em todas as estações entre as 19h e as 20h sobre notícias de políticas, novas leis, etc; a diversidade das plantas; a influência da igreja evangélica; e, claro, do estado atual da política brasileira, além da boleia, ainda me ofereceram jantar e dormida.

O dia seguinte era o grande teste. Acordei sabendo que não havia volta a dar. Fui até à saída da cidade de autocarro. Andei um pouco e no meio de uma via rápida tirei o cartão que tinha escrito, de um lado “Sul” e do outro lado “Florianópolis”. Sentia-me confiante, apesar de ser a primeira vez que pedia boleia na estrada. Sorria e olhava nos olhos dos condutores. Sabia que tinha de ter paciência. Passou meia hora, uma hora, uma hora e meia… e nada! O que iria fazer se ninguém me desse boleia?

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Do nada um carro parou e disseram-me para entrar. Foram cerca de 80km, mas o mais importante foi a confiança que me trouxe: agora tinha a certeza que era possível deslocar-me de boleia! Surgiu a fome e fui falar com os restaurantes que ficavam perto do lugar onde me tinham deixado. Não sei se o mundo é mais generoso do que perigoso, ou se tive sorte, mas o responsável do restaurante ofereceu-me um belo almoço de buffet livre. Voltei para a estrada e numa hora já estava dentro de outro carro.

Ao todo foram 200km de boleia, desde Curitiba até Itajai. Era o momento de procurar algo para comer e não foi difícil. Para dormir é que não foi tão fácil, ainda falei com um hostel, mas nada feito, e dentro de uma cidade montar tenda podia ser perigoso.

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Acabei por ir para o hospital, onde havia água filtrada e casa de banho. Sentei-me e tentei descansar para no dia seguinte ter energia para continuar rumo ao Uruguai. No dia seguinte consegui atravessar dois estados e já estava à porta da última grande cidade antes da fronteira, Porto Alegre.

Depois da última boleia do dia, de quase 300km, num carro em que os bancos de trás tinham sido arrancados e mais parecia a garagem de um mecânico, deixaram-me no meio da auto-estrada a 2km das portagens, local onde montei a minha tenda e passei a noite.

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O dia seguinte foi o mais duro. Apesar de ter conseguido várias boleias, todas elas foram muito curtas e acabei por passar muito tempo à beira da estrada, sob um calor intenso, o que me deixou com os lábios rebentados. Os brasileiros estavam a ser muito generosos e de uma forma ou de outra sempre me ofereciam algo para comer; fossem os trabalhadores dos restaurantes, as pessoas que me davam boleia ou mesmo vendedores, que me davam fruta que já não estava em condições de se vender.

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Na última noite antes de atravessar a fronteira dormi num posto de gasolina, que ficava no meio do nada. O último dia foi fantástico e pela hora de almoço já estava no Uruguai, com dois brasileiros que além de me darem boleia me convidaram para ir até um concerto em Cabo Polónio, uma vila piscatória sem luz…a não ser das velas, e onde as estrelas nos engolem!

Em 3 dias fiz quase 1500km sem gastar um cêntimo, só a festa é que estragou o orçamento. Acompanhem esta aventura em Puririy, no Facebook.

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Diogo Campos Diogo Campos

Diogo Campos é um sonhador de natureza. Tirou um Mestrado em Engenharia do Ambiente, já teve um negócio de sumos naturais e por vezes dedica-se à agricultura biológica. No ano de 2016 decidiu deixar tudo para trás e ir viajar apenas com bilhete de ida para a América do Sul, mas mais do que isso decidiu ir praticamente sem dinheiro. Neste momento está apenas dedicado à escrita e a viajar.