Coulrofobia: porque tantas pessoas têm medo de palhaços?

Eles fazem parte do imaginário coletivo e, muitas vezes, provocam crises de histeria. Sabe quais são as razões que desencadeiam este medo? A psicologia explica.

Coulrofobia: porque tantas pessoas têm medo de palhaços?
Coisa de criança? Nem sempre

Ao longo do último semestre de 2016, uma onda de medo assombrou os norte-americanos e chamou a atenção de todo o mundo. Um movimento de palhaços mal intencionados varreu o país e mostrou a fragilidade de um povo que sofre de muitos receios coletivos. Foram cinco relatos feitos por vítimas de perseguições estranhas e o assunto tornou-se motivo de discussão. Entenda a coulrofobia, ou fobia a palhaços, e saiba como a psicologia explica o sentimento.

Coulrofobia: o fenómeno psicológico

Foi no estado norte-americano da Carolina do Sul que se concentraram os primeiros casos de palhaços que apareceram para perseguir cidadãos comuns, ameaçando a população com machados e facas e atraindo os mais pequenos para zonas escuras da cidade. Por enquanto, não há material que comprove os acontecimentos ou mesmo qualquer resquício de provas ou evidências consideradas como oficiais. Não há um nariz vermelho ou um fio de peruca colorida que tenha sido encontrado para dar credibilidade aos relatos, mas a verdade é que a série de acontecimentos provocou uma verdadeira crise de histeria coletiva.

As autoridades daquele país tratam os casos relatados como um fenómeno psicológico, provocado por uma ilusão criada e fortalecida pelo medo da população. Coulrofobia é o termo correto, utilizado em contexto psiquiátrico para definir o problema que atinge aqueles que sofrem com o medo de palhaços.

Há muito tempo que os palhaços fazem parte do imaginário popular, muitas vezes sendo associados aos filmes de terror das grandes produções norte-americanas. Na realidade, a fobia a palhaços pode parecer estranha para a maior parte das pessoas, mas não é, de todo, uma novidade.

O que causa o medo de palhaços?

A crise coletiva de ilusão tem tudo a ver com o medo crónico que muitas pessoas sentem quando ouvem falar em palhaços. Isso tem, certamente, origem em algum episódio ocorrido durante a infância.

Em Sheffield, Inglaterra, um estudo científico revelou que crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 4 e os  16 anos, comprovam a teoria: quase todos afirmaram que a presença de um palhaço é assustadora e não ajuda, por exemplo, na recuperação daqueles que estão a recuperar em quartos de hospitais. Lembrou do Ronald McDonald’s? Pois é. De acordo com o estudo inglês, o sucesso dele deveria ser um caso de estudo.

O desconhecido provoca receio

No estudo, os jovens relataram que o medo poderia ter origem na máscara usada pelos palhaços. Sem saber o que está por trás do disfarce, como poder confiar na figura à sua frente? Isso surge para comprovar que o ser humano precisa de reconhecer para sentir-se seguro e que a ambiguidade de um palhaço, geralmente, provoca mais receio do que imagens vistas abertamente como más.

Em síntese, todos vão compreender as razões que levam uma pessoa a fugir de um leão faminto, afinal ele é um risco real. Por outro lado, um palhaço pode ser visto por muitos como uma brincadeira inofensiva, enquanto que para outros, ele terá claramente uma imagem que provoca repulsa. É esta diferença de compreensões e a ambiguidade da sua imagem que estão na origem da fobia. É como se eles fossem vistos como imprevisíveis. Como confiar?

fobia

Palhaço é a profissão mais assustadora

Uma segunda pesquisa, publicada na revista científica New Ideas in Psychology, é considerada o primeiro estudo empírico já realizado sobre coisas tidas como “arrepiantes”. A principal conclusão tirada é a de que é preciso ser imprevisível para ser visto como algo assustador.  O estudo analisou mais de mil voluntários através de questionários e todos eles eram maiores de idade.

Numa primeira parte da experiência, cada participante tinha de selecionar as características mais arrepiantes, tendo em conta mais de 40 opções físicas e comportamentais. Em seguida, era preciso criar uma espécie de ranking com as profissões que despertavam mais medo. Na lista também podiam ser incluídos hobbies estranhos.

O resultado: os palhaços lideraram e conquistaram o topo da lista de profissões assustadoras. Em relação às características que ativam o sentimento de medo, comportamentos ambíguos são considerados mais arrepiantes do que aqueles que são vistos como abertamente estranhos.

O coulrofobia não é uma palhaçada

Por trás da maquilhagem, não é possível que saibamos diferenciar as emoções de um palhaço, assim com também não é fácil perceber se ele vai ou não pregar-nos um susto ou uma partida. O mais provável é que a felicidade fingida, quando combinada com as suas intenções ocultas, faça do palhaço uma personagem temida.

O medo que constrói esta fobia é real e, mais do que isso, é universal. Mas será que ele tem origem em imagens mentais interpretadas de forma errada? Serão essas aparições relatadas meros frutos da imaginação e do medo? Talvez sim, talvez não. A verdade é que há uma realidade inegável: a histeria que envolve a fobia a palhaços repete-se em ciclos e volta sempre a assombrar miúdos e graúdos.

Como tratar a fobia a palhaços

A coulrofobia não afeta a vida diária de quem sofre com o problema, uma vez que as personagens não fazem parte do dia-a-dia da maior parte das pessoas. Mas, ainda que não seja prejudicial a quem precisa manter uma rotina de vida normal, esta fobia pode ser bastante inconveniente e deve ser tratada.

O tratamento é semelhante ao adotado para desfazer outras fobias: é preciso, gradualmente, entrar em contacto com o objeto que provoca o medo para assim ajustar a forma como o paciente controla as suas emoções. Na realidade, os receios podem não desaparecer, mas a forma como o indivíduo reage ao estímulo negativo é que se altera. Uma das técnicas mais utilizadas é a dessensibilização sistemática, que é colocada em prática com a ajuda de um terapeuta habilitado e bem treinado para o efeito.

É possível perder o medo de palhaços, felizmente. Se acredita que sofre desse transtorno, e caso ele seja capaz de mexer com o bom funcionamento da sua vida pessoal, familiar e profissional, o ideal é procurar ajuda médica especializada. Uma boa sugestão é consultar psicólogos que trabalhem com a terapia cognitivo-comportamental, popularmente conhecida como TCC.

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