Esqueça o spread quando pedir um empréstimo

Não tenha receio de contratar um spread maior, desde que tenha uma TAER mais baixa. Vai poupar muitos milhares de euros.

Esqueça o spread quando pedir um empréstimo
O spread barato pode sair caro

Durante anos, andamos atrás do spread mais baixo possível porque isso era a garantia de um crédito à habitação mais barato. Mas já começamos a perceber que não é assim.

Por exemplo, uma consumidora que entrevistei recentemente vai poupar mais de 6 mil euros simplesmente porque escolheu um spread de 1.7 num banco em vez de um spread de 1.25 noutro. É estranho? Sim. Já explico.

Os bancos perceberam que só perguntamos pelo spread e adaptaram a estratégia: oferecem o spread mais baixo possível, mas em contrapartida fazem tudo para ganhar o dinheiro que perdem no spread em vários produtos e comissões que aceitamos de olhos fechados porque – lá está – baixam o spread.

O spread barato pode sair caro

O que conta é a TAER

Sim. A TAER. O que é isso? É a Taxa Anual Efetiva Revista. O legislador entendeu que os bancos devem ser obrigados a dar essas informações aos clientes antes de assinarem os contratos. Há uma coisa que eles têm de entregar ao futuro cliente: a FIN (Ficha de Informação Normalizada).

Nessa FIN, os bancos tem de dizer qual é o spread que vai praticar, mas também a TAE e a TAER. A TAE é a Taxa de Juro Efetiva, ou seja, o spread mais as comissões de abertura de dossier e afins, o seguro de vida, o seguro multirriscos e os impostos. Esse valor já nos vai dar uma ideia do que realmente vamos pagar ao fim do ano.

Imagine que paga uma mensalidade “agradável” porque tem um spread baixo, mas ao fim do ano tem de pagar de uma vez um seguro multirriscos mais caro do que conseguiria numa outra seguradora. Só aí – adicionando o que pagará a mais no seguro de vida – vai acabar por aumentar o dinheiro que vai gastar nesse ano no seu crédito que até agora – confesse – achava barato. Agora multiplique esses valores por 30 ou 40 anos. É por isso que estamos a avisar que o spread barato pode sair caro.

Mas há mais. Oferecem-lhe um spread, mas depois acenam-lhe com várias “cenouras”: se aderir a um seguro de saúde baixamos o spread em 0,2; se aderir a um PPR, baixamos mais 0,1; se aderir a um cartão de crédito baixamos mais 0,1, etc., etc., etc. Em cada uma dessas parcelas está a baixar o spread mas aumentar os seus custos anuais.

Encontrei casos em que ao aderir a vários produtos ficava a pagar mais ao fim do ano do que se mantivesse o spread original e não aderisse a produto nenhum.

O valor que nos permite medir esse “esforço” é a TAER. Essa linha também está na tal FIN. Claro que também tem de avaliar se precisa de algum desses produtos independentemente do crédito à habitação e se é mais barato que no “mercado livre”.

É a TAE ou a TAER (se aceitar produtos adicionais) que tem de comparar entre bancos, com o mesmo valor e prazo e Euribor. Não é o spread. Já percebeu porquê.

negociar credito

Deixe-me dar-lhe um exemplo. Recentemente fui almoçar a um restaurante no centro de Lisboa. A montra dizia Buffet livre 12 €. Para o restaurante que era, pareceu-me (muito) razoável. Disseram-nos que as bebidas eram à parte. Aceitámos. Almoçámos. Na altura de pagar a conta senti-me defraudado (sem razão, porque não perguntei o preço das bebidas). Cada bebida (água inclusive) foi cobrada a 3 euros e cada café custava 1,5 €. O que seria 12 euros mais um valor razoável pela bebida (esperava eu) transformou-se numa refeição de 16,50 €. Mal comparado, o spread era 12 €, a TAER era de 16,50 €. Creio que percebeu o ponto.

Saber isto exige mudarmos a nossa mentalidade quando precisarmos pedir simulações para um crédito para comprar casa. Conheço o caso de uma cliente bancária que decidiu ir ao banco que lhe interessava e disse: “A TAER ainda está muito alta. Não consegue baixá-la?”. E não é que baixaram?! Quando os bancos percebem que estão a falar com quem domina a coisa, tratam-nos de outra maneira. É triste mas é verdade.

Para comprar carro a taxa é outra

Se precisar de dinheiro para comprar carro, ou para crédito pessoal, então a sigla que deve procurar é outra: a TAEG. Tem o mesmo critério, mas muda apenas a letra.

A partir de 2018, a TAER vai passar a chamar-se também TAEG. Fica TAEG para todos os créditos (Habitação, Automóvel e Pessoal).

É essa taxa que tem de passar a fazer parte do seu vocabulário, se quiser encontrar o melhor crédito para si. Não vá na conversa do spread. É uma ilusão. Não tenha receio de contratar um spread maior, desde que tenha uma TAER mais baixa. Vai poupar muitos milhares de euros.

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Pedro Andersson Pedro Andersson

Pedro Andersson é jornalista e responsável pela rubrica Contas-poupança, no Jornal da Noite da SIC. Trata semanalmente de temas ligados às finanças pessoais, poupança e direitos dos consumidores. Trabalhou na Rádio TSF, até ser convidado para ser um dos jornalistas fundadores da SIC Notícias. Escreve também regularmente no Expresso e na Visão sobre temas de poupança.