Gota: tudo o que precisa de saber

Se não for tratada, a Gota condiciona uma grande incapacidade funcional e está associada a um mau prognóstico cardiovascular.

Gota: tudo o que precisa de saber
Em Portugal estima-se uma prevalência de 1,6%

A Gota é uma doença reumática inflamatória, comum e altamente incapacitante, quer pela dor provocada quer pelas deformidades associadas à progressiva destruição articular. É mais prevalente em homens, a partir dos 40 anos, sendo muito rara em mulheres antes da menopausa. Na criança está muitas vezes associada a alterações genéticas.

Quando os níveis de ácido úrico estão acima do seu limite de solubilidade no sangue, este deposita-se sob a forma de cristais de monourato de sódio, habitualmente nas zonas mais frias do organismo.

Como se manifesta a Gota

A Gota evolui inicialmente em períodos de crise de inflamação articular, intermitentes e intercalados com períodos sem sintomas. Começa por afetar apenas uma articulação, tipicamente o dedo grande do pé, tornozelos e joelhos. Mais rara e tardiamente pode atingir as mãos, punhos e cotovelos.

As crises caracterizam-se pelo início rápido, em poucas horas, de sinais inflamatórios exuberantes, como a dor, calor, vermelhidão e inchaço, na articulação envolvida. Cerca de 2/3 dos doentes consideram ter sido a pior dor que tiveram na vida. Mesmo sem tratamento, as crises desaparecem ao fim 1 a 2 semanas.

Com a progressão da doença, as crises tendem a atingir mais articulações, por vezes em simultâneo, e a ser mais frequentes e prolongadas, com períodos livres de sintomas cada vez mais curtos. Nesta fase, a que se chama Gota tofácea ou artrite gotosa crónica, as articulações estão permanentemente inflamadas, resultando na destruição da sua normal estrutura e incapacidade.

Os níveis prolongadamente elevados de ácido úrico no sangue predispõem ainda à formação de cálculos renais (“pedras nos rins”). Vários estudos apontam para uma maior incidência de doença coronária e enfarte do miocárdio em doentes com Gota.

Quais são as causas?

O excesso de ácido úrico tanto pode resultar de produção exagerada de ácido úrico como da incapacidade dos rins o removerem. A grande maioria dos casos não tem causa determinada e são consequência de uma combinação de factores, entre eles:

  • Idade avançada
  • Sexo masculino
  • História familiar
  • Obesidade
  • Medicamentos como aspirina, diuréticos e imunossupressores
  • Alimentos como carnes vermelhas, vísceras, marisco, salmão, truta e sardinhas
  • Bebidas alcoólicas, em particular cerveja e bebidas brancas

Como se trata?

Uma vez que os sintomas de artrite gotosa são idênticos aos de várias outras doenças, um diagnóstico correcto é fundamental. Depois, o tratamento divide-se em duas fases distintas. Se o tratamento for adequado, o prognóstico é muito favorável, sem sequelas.

Durante as crises são utilizados fármacos que permitam reduzir a inflamação e aliviar a dor, como os anti-inflamatórios não esteróides, colchicina, corticóides e infiltrações locais de corticóides. Após o desaparecimento da crise de artrite aguda, o objectivo é baixar o ácido úrico para prevenir futuras crises e evitar a destruição articular.

A prevenção faz-se essencialmente através da melhoria dos hábitos alimentares, adoptando uma dieta equilibrada, evitando o consumo exagerado de carnes jovens, marisco e bebidas alcoólicas (sobretudo cerveja). Perder peso ajuda também a diminuir os níveis de ácido úrico.

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Ricardo Ferreira Ricardo Ferreira

Médico, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, define-se com um autodidata, curioso e empreendedor, com um foco especial na área da biotecnologia. Estuda ainda Machine Learning, um ramo da Inteligência Artificial, e as suas aplicações na área da Saúde.