Obsessão amorosa: quando o amor se torna uma doença

Sabe reconhecer quando um sentimento deixa de ser saudável e se torna um problema? A psicologia admite: há casos de obsessão amorosa que são clínicos e precisam de tratamento.

Obsessão amorosa: quando o amor se torna uma doença
Há casos de amor que necessitam de intervenção médica

É correto dizer que para tudo existe um limite – ou deve existir – e o amor não é exceção. A obsessão amorosa existe e já é assumida pelos psicólogos como uma condição clínica que exige tratamento adequado.

O amor não é fácil, tampouco pode ser visto como um sentimento a ser vivido da mesma forma por diferentes indivíduos. Cada pessoa interage com o outro de acordo com as ferramentas que tem e com a sua capacidade individual de ver e experimentar o mundo. No entanto, apesar das distintas formas de amar, não restam dúvidas: existe uma linha ténue que separa um sentimento saudável de um sentimento fora dos padrões.

Obsessão amorosa: mais do que um sentimento, uma doença

Que o amor não é uma experiência fácil, já todos sabemos, mas agora os estudiosos dizem que, em alguns casos, pode mesmo ser prejudicial e a razão é patológica.

Albert Wakin, psicólogo da Universidade do Sagrado Coração, nos Estados Unidos, é a favor de todas as reflexões à volta da depressão pós-rompimento. Depois de muito estudar o tema, Wakin não tem receios e afirma: há casos de amor que necessitam de intervenção médica. Para o especialista, está na altura de a psicologia assumir que há casos de paixão crónica que precisam de ser vistos, analisados, diagnosticados e tratados com orientação médica.

A culpa é da paixão

“Paixão”. Como o próprio dicionário da língua portuguesa assume, é uma “impressão viva”, “perturbação ou movimento desordenado do ânimo”, “amor ardente”, “afeto violento”. Também, de acordo com a mesma fonte, é um “grande desgosto e pesar”.

Se a própria origem etimológica da palavra tem raízes no verbo “sofrer”, como contestar a conclusão do psicólogo norte americano? Que sejam negados desde já os argumentos que limitam a explicação à sua língua de origem. Em grego, por exemplo, a palavra paixão nasceu de “páthos”, ou patologia, para nós portugueses. Também para os gregos os casos de paixão devem ser vistos através da perspetiva da medicina.

A investigação

Uma colega de Wakin, noutros tempos instalada no mesmo departamento do psicólogo, também se mostrou intrigada com as questões que rodeiam o tema e com a origem da palavra que tão bem define o estado de devoção que caracteriza o amor. Em meados dos anos 70, Dorothy Tennov, dedicou-se a estudar o assunto, entrevistando para o efeito mais de 500 apaixonados crónicos. Até hoje, os seus esforços não tinham sido reconhecidos e, tanto a neurociência como a psicologia, recusaram a aceitar que a paixão pode ser crónica e clínica.

Foi a história da colega estudiosa que inspirou Wakin a procurar mais esclarecimentos sobre o assunto, refletindo sobre se a paixão poderia ser vista como um distúrbio reconhecido.

Desde o tempo de Dorothy e até aos dias de hoje, muita coisa mudou e foram feitas revelações surpreendentes. As investigadoras Helen Fisher e Lucy Brown publicaram um artigo científico em que afirmam terem descoberto que a paixão é uma droga, no sentido mais literal da palavra. Para as estudiosas, o sentimento ativa mecanismos de recompensa presentes no cérebro, deixando o indivíduo sob o forte efeito da dopamina, que nada mais é do que um mediador químico que provoca a sensação de euforia e pode causar dependência.

Para Helen e Lucy, é este o motivo que desencadeia uma relação de dependência e que faz que com o apaixonado só esteja inundado de felicidade quando está ao lado do ser amado. O resultado é que estar próximo de quem se ama torna-se um vício.

A química entra na discussão ao lado das pesquisadoras, para dizer que interromper uma relação que está no auge da paixão é semelhante a privar-se de uma droga da qual se está dependente.

Dorothy Tennov, afinal, estabeleceu uma teoria que não é descartável, apesar da pouca credibilidade que o seu estudo e livro alcançou na época. A cientista, que morreu em 2007, entregou todos os seus apontamentos ao filho que, por sua vez, os entregou a Wakin, que percebeu a urgência de resgatar as suas pesquisas.

Wakin diz que após “quatro ou seis meses de um relacionamento saudável, tudo fica mais calmo, mas numa relação que não é considerada normal, a necessidade da outra pessoa só se intensifica”. Funciona como uma bola de neve: a obsessão acaba por afastar o objeto de desejo e provocar o fim da relação, fazendo com que a situação do apaixonado crónico piore.

O psicólogo chegou mesmo a calcular o tempo que a pessoa com obsessão amorosa passa a pensar na pessoa que ama e concluiu que o valor final ronda os 95%.

A obsessão amorosa está cientificamente reconhecida

Agora, com as conclusões comprovadas através das pesquisas realizadas por Wakin, a ciência reconhece que o estado de paixão está relacionado com mecanismos químicos de recompensa que provocam um ciclo de vício no cérebro. A paixão obsessiva passou a ser documentada como uma patologia sistemática e Wakin conduz agora uma série de experiências sobre o assunto.

Para esclarecer mais sobre o misterioso tema, o estudioso tem recorrido a equipamentos com tecnologia de ressonância. O objetivo é alcançar respostas definitivas e encontrar formas de tratar o problema dos apaixonados que sofrem de obsessão amorosa.

A comunidade científica está cada vez mais perto de descobrir a razão pela qual a palavra paixão aparece relacionada com “dor” e “sofrimento”.

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