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Ortorexia: alimentação saudável ou obsessão?

A ortorexia é um distúrbio alimentar centrado numa obsessão por uma alimentação super rígida e apenas à base de alimentos saudáveis.

Ortorexia: alimentação saudável ou obsessão?
Distúrbio alimentar?

A alimentação é uma das atividades mais relevantes para todos nós e pode ser vivida de forma mais ou menos saudável. Recentemente, temos assistido ao surgimento de novos tipos de transtornos relacionados com a alimentação, como é o caso da ortorexia.

A alimentação não se prende apenas com questões biológicas, mas é também moldada pela cultura em que estamos inseridos e tem implicações económicas, psicológicas e sociais. Todos os dias sentimos um constante apelo à adoção de estilos de vida mais saudáveis, nomeadamente de uma alimentação que nos garanta uma aparência e forma física saudáveis e socialmente valorizadas.

Quando o culto pela forma física é exagerado, surgem os distúrbios e os desequilíbrios – que comprometem a nossa saúde física e psicológica.

Ortorexia: tudo o que precisa de saber


Ortorexia: o que é?

ortorexia

A ortorexia, também designada ortorexia nervosa, deriva da palavra grega “orthos”, que significa correto, e da palavra “orexia”, que significa apetite. Caracteriza-se pela obsessão por uma alimentação que se acredita ser a mais saudável.

Não consiste apenas na preocupação em comer saudável. Comer corretamente deixa de ser uma opção e passa a ser uma obsessão, daí que se discuta o carácter obsessivo-compulsivo do comportamento ortoréxico.

Pessoas com ortorexia rejeitam, de forma rígida, todos os alimentos que julgam não serem saudáveis, com o objetivo de atingir uma saúde ideal, prevenir o surgimento de doenças ou alcançar a imagem corporal desejada. O problema começa quando a preocupação com a alimentação passa a ser o centro da vida da pessoa, ocupando a maior parte do seu dia. A alimentação passa a ser um ritual.

Pessoas com ortorexia não poupam esforços na hora de ir às compras: percorrem longas distâncias, se necessário; pagam valores muito superiores aos dos alimentos comuns; dedicam grande parte do seu tempo a planear, comprar e a preparar refeições. Também a forma de preparar os alimentos e os materiais utilizados fazem parte do ritual obsessivo.

Frequentemente, recusam fazer refeições em restaurantes ou até em casa de amigos/familiares, pois desconhecem a qualidade dos alimentos servidos. Ou seja, para além dos potenciais prejuízos clínicos da ortorexia, existem também prejuízos sociais causados pelo isolamento.

É importante referir que a linha que separa o comportamento alimentar saudável do patológico não é fácil de definir. A simples preocupação com uma vida saudável é diferente de uma obsessão.

Ortorexia: é ou não um distúrbio?

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Apesar de ainda não ser reconhecida como uma perturbação do comportamento alimentar, a ortorexia tem merecido cada vez mais atenção por parte dos profissionais da área da saúde mental e nutrição.

Quando pensamos em distúrbios alimentares pensamos imediatamente na anorexia – imaginando aquelas pessoas excessivamente magras que se recusam veemente a comer, ou então na bulimia – imaginando as pessoas que têm momentos em que comem tudo e em seguida provocam o vómito.

A ortorexia consiste numa obsessão por uma dieta saudável, mas esta obsessão é tão forte que, caso um determinado alimento tenha ainda que “resquícios” de algum ingrediente menos saudável, ele é imediatamente eliminado do cardápio da pessoa.

Logo, não pode ser considerado um hábito bom para a saúde, embora ainda estejam a ser analisados casos que possam fortalecer o conceito de ortorexia, para determinar – ou não – se pode ser considerado um distúrbio.

Gorduras, lípidos, glúten e outros alimentos são considerados “maus” e, por isso, são imediatamente retirados da dieta diária. Uma pessoa que sofra desta perturbação pode passar vários dias a planear ao pormenor a ingestão de alimentos e a tendência é a de que estas restrições se tornem cada vez maiores e mais rígidas. Em alguns casos, chega-se ao ponto de abstinência por se considerar que quase nenhum alimento é suficientemente saudável para ser ingerido.

Sinais de alerta

Fique atento aos sinais de alerta que têm sido associados à ortorexia:

  • Apenas desejar comer alimentos saudáveis;
  • Sentir culpa e angústia quando não cumpre a alimentação estipulada;
  • Examinar cada pormenor do que se encontra em cada alimento: o conteúdo nutricional dos alimentos é analisado ao pormenor;
  • Demorar muito tempo no supermercado, pela forma detalhada com que são analisados todos os rótulos;
  • Pensar em informações nutricionais e alimentares uma boa parte do dia;
  • Considerar a alimentação o foco principal do seu dia;
  • Não conseguir comer uma refeição preparada por outra pessoa, com receio de que não seja adequada;
  • Sentir necessidade de preparar a sua própria refeição para poder controlar tudo o que ingere;
  • Observar e comentar a forma como outras pessoas preparam a comida;
  • Menor socialização e restrição de algumas atividades em prol de uma alimentação saudável;
  • Isolamento social;
  • Não confiar nas indicações dos profissionais de saúde quando contrariam o que julga ser a melhor alimentação.

Fatores de risco da ortorexia

É necessário ter muito cuidado com esta doença, porque o que pode começar como uma boa prática – a adoção de um estilo de alimentação saudável -, quando levado ao extremo, pode tornar-se ortorexia.

Como grupos de risco referem-se os adolescentes – por serem mais facilmente influenciáveis – e alguns grupos com dietas específicas e já de si restritivas – como os vegans, por exemplo.

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Consequências

A ortorexia pode trazer graves consequências à saúde física e mental de uma pessoa. Fisicamente, podem começar a surgir sintomas de malnutrição, desidratação e falta de vitaminas e minerais essenciais ao bom funcionamento do nosso organismo.

Além disso, e não menos grave, são os problemas de ordem psicológica / social que advém deste distúrbio: uma pessoa com ortorexia tende a isolar-se e a criar imagens mentais que não correspondem à realidade.

As relações interpessoais também podem ser gravemente afetadas, pois quem sofre de ortorexia, geralmente, rejeita qualquer alimento que não seja cozinhado por si, deixando assim de frequentar eventos sociais.

Outro dos problemas que traz é o facto de quem sofre desta compulsão estar constantemente a analisar e a comentar tudo o que as outras pessoas comem, gerando relações menos saudáveis.

Tratamento

Embora a ortorexia não seja ainda considerada, de forma consensual, uma perturbação do comportamento alimentar, especialistas de diferentes áreas da saúde mostram-se preocupados com esta obsessão e defendem que a ortorexia pode ter repercussões sérias para a saúde (física e mental).

Relativamente ao tratamento, tal como acontece nas perturbações alimentares, a ajuda de profissionais especializados pode ser fundamental. O acompanhamento por parte de profissionais das áreas de psicologia e nutrição parece ser a chave para se ultrapassar esta obsessão.

Comer de forma mais saudável tem efeitos positivos na nossa saúde, desde que não se torne no principal objetivo da nossa vida, nem interfira no nosso relacionamento com os outros, no nosso trabalho e no nosso dia a dia. O essencial é a moderação.

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Ana Graça Ana Graça

Mestre em Psicologia, pela Universidade do Minho, com a dissertação “A experiência de cuidar, estratégias de coping e autorrelato de saúde”. Especialização (Pós-Graduada) em Neuropsicologia Clínica, Intervenção Neuropsicológica e Neuropsicologia Geriátrica. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e Neuropsicologia. Além da Psicologia. é apaixonada por viagens, leitura, boa música, caminhadas ao ar livre e tudo o que traga mais felicidade!