Quilómetros adulterados: cuidado se comprar um carro usado

Uma enorme percentagem dos carros usados vendidos anualmente têm os quilómetros adulterados. Saiba que cuidados deve ter para poupar dinheiro e problemas.

Quilómetros adulterados: cuidado se comprar um carro usado
Como saber se o conta-quilómetros de um carro foi alterado

Já tinha ouvido falar em conta-quilómetros “martelados”, mas nunca pensei que fosse um problema tão grave em Portugal. Estou absolutamente convencido que uma enorme percentagem dos carros usados vendidos anualmente têm os quilómetros adulterados.

Como saber se o conta-quilómetros de um carro foi alterado

Apercebi-me disso depois da reportagem recente da rubrica “Contas-poupança” que faço semanalmente na SIC.

Carros usados comprados em Portugal

Descobri que é possível pedir uma Certidão no IMT (Instituto da Mobilidade e Transportes) com as quilometragens anotadas em cada uma de todas as inspeções obrigatórias de qualquer veículo em Portugal. Basta saber a matrícula. Não tem de ser o proprietário.

Se eu quiser saber o histórico do seu carro, posso fazê-lo perfeitamente (e nunca saberá). Esta informação vale ouro se estiver interessado em comprar um carro em segunda mão.

Pago 30 euros (ou 27 se fizer o pedido online, porque tem um desconto de 10%) e fico a saber se o conta-quilómetros andou para trás em algum ano desde que o carro passou a fazer inspeções.

Fiz a experiência com o primeiro carro que tive e que vendi há muitos anos. Fui presencialmente ao IMT e recebi a Certidão em casa. Se tivesse feito o pedido online seria muito mais rápido e receberia o documento por e-mail. Verifiquei que não só chumbou muitas vezes (embora não saiba a razão – pode ter sido por uns médios fundidos), como deu para ver que num dado ano mais recente passou de cerca de 160 mil km para 110 mil. Em apenas um mês, ficou 59 mil quilómetros mais “novo”.

Logo após a reportagem ter sido emitida, comecei a receber dezenas de mensagens de pessoas que confirmaram também que tinham sido enganadas em muitos milhares de quilómetros.

Carros usados importados

No caso de carros importados, há dois sites europeus em que pagando cerca de 10 euros pode também saber informações sobre o veículo antes de o comprar. São o www.autodna.com e o uk.vin-info.com. VIN é o “Vehicle Identification Number”, ou seja, o número do quadro do carro (está no Documento Único Automóvel).

Nestas páginas europeias pode ainda encontrar o número de proprietários que a viatura teve e os acidentes em que esteve envolvida e, em alguns casos, até tem as fotografias dos peritos da seguradora. Ora estas informações são importantíssimas caso esteja interessado em comprar um determinado carro usado, seja a um particular, seja num stand.

quilometros adulterados

Um inspector de um Centro de Inspeções contactou-me anonimamente dizendo que todos os dias apanha mais do que um carro com o conta-quilómetros adulterado.

Como há 200 centros em Portugal, se isso acontecer em todos, estamos a falar em mais de 50 mil casos novos todos os anos. É uma prática generalizada.

Só que não podem fazer nada porque não está nas competências deles. De acordo com a lei atual, as alterações nos conta-quilómetros não são consideradas falhas de segurança, logo não dá direito a reprovação. O incidente nem sequer é anotado na folha de inspeção. Em alguns centros anotam, mas unicamente para uso interno.

Após a reportagem, muitos dos que se aperceberam de que foram enganados confrontaram os vendedores (na maioria stands de automóveis) e partilharam na página do Contas-poupança que os vendedores optaram por receber de volta o carro e devolveram o dinheiro ou trocaram por outro carro mas sem os quilómetros alterados. Medo do tribunal?

Em todo o caso, estas informações são sobretudo úteis da próxima vez que pensar em comprar um carro em segunda mão. Não precisa comprar às cegas. É verdade que terá de gastar 30 euros ou 12 euros (se for um carro estrangeiro) mas acredito sinceramente que vale a pena esse “investimento” para garantir que não está a comprar um carro com mais 70, 80 ou 100 mil quilómetros do que o vendedor diz. Pode fazer a diferença não só no estado do veículo, como no preço.

Vários vendedores prejudicados pela concorrência desleal agradeceram a reportagem. Não é fácil convencer os clientes de que comprar um carro com 200 mil km pode ser um bom negócio. Parece que há um “contrato” nacional segundo o qual os carros com mais de 200 mil km já não prestam. E não é assim.

Claro que esta certidão ou relatórios dos sites internacionais não garantem totalmente a verdade dos conta-quilómetros. É que a primeira inspeção é só aos 4 anos. Um carro pode ter feito 150 mil km nos primeiros 4 anos e no mês antes da inspeção tirarem-lhe 80 ou 90 mil.

Aí só consegue saber alguma coisa se contactar a marca e pedir a quilometragem em cada uma das revisões ou se teve avarias ou acidentes. Recebi relatos de pessoas que descobriram assim que tinha havido “falcatrua”.

Outra coisa que pode falsear os resultados da Certidão do IMT ou das inspeções no estrangeiro é que quem comete estes crimes pode retirar 10 mil km (é só um exemplo, podem ser outros valores) antes de cada inspeção todos os anos.

Quem faz isto, fá-lo com toda a facilidade. Em 10 minutos adultera-se o conta-quilómetros. Basta ligar um pequeno computador ao carro e com um programa pirateado podem colocar os números que quiserem. Se quiser saber como é, tem dezenas de filmes no YouTube a explicar como é que fazem. É assustador.

Conselho de um vendedor honesto: “Se parece um negócio bom demais para ser verdade é porque provavelmente não é verdade”. Não se iluda. Tente confirmar sempre se os quilómetros são reais. Há de facto bons negócios, mas são raros. Peça a Certidão de Inspeções Técnicas do IMT ou os relatórios dos sites europeus se for um carro importado. Contacte a marca e peça informações. Antes de comprar o carro, obviamente. Depois pode ser tarde demais.

Com estes cuidados, pode poupar dinheiro e problemas.

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Pedro Andersson Pedro Andersson

Pedro Andersson é jornalista e responsável pela rubrica Contas-poupança, no Jornal da Noite da SIC. Trata semanalmente de temas ligados às finanças pessoais, poupança e direitos dos consumidores. Trabalhou na Rádio TSF, até ser convidado para ser um dos jornalistas fundadores da SIC Notícias. Escreve também regularmente no Expresso e na Visão sobre temas de poupança.

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