Sobreendividamento em escalada

As famílias portuguesas estão cada vez mais sobreendividadas e com mais responsabilidades de crédito. O desemprego e a instabilidade profissional contribuem para este crescimento.

Sobreendividamento em escalada
É alarmante a subida em espiral do sobreendividamento

O aumento do desemprego em Portugal tem vindo a contribuir para a escalada do sobreendividamento das famílias portuguesas para conseguirem pagar o que devem.

 

Trata-se de uma tendência alarmante e que tende a continuar a crescer ao longo do corrente ano. O elevado número de créditos contraídos é frequentemente explicado pelas dificuldades que as pessoas têm em fazer face ao crédito habitação. E com a escalada do desemprego, o drama social tende a avolumar-se. Também para quem tem emprego a situação pode degradar-se com a instabilidade das condições laborais, como a falta de pagamento de horas extraordinárias ou os salários em atraso.

 

Segundo a Associação de Defesa do Consumidor – DECO – só nos primeiros dois meses de 2010, mais de 500 famílias pediram ajuda. Em Fevereiro, 275 agregados estavam em dificuldades, o dobro do número alcançado em igual mês de 2008 e mais 8% que em Fevereiro de 2009, de acordo com os últimos dados do boletim estatístico do Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS) da DECO.

 

O desemprego, os problemas de saúde e as alterações no agregado familiar - como o divórcio -, estão no topo da lista das razões para que as famílias entrem em descontrolo financeiro. E são as famílias com rendimentos baixos, entre 500€ a 1500€, que mais pedem ajuda. Só em 2008, do total de pedidos de ajuda aceites pela DECO, 59% vieram de famílias com um escalão de rendimentos mais baixo.

 

Há dois anos, 60% das famílias ajudadas tinham entre 3 e 10 créditos para pagar. Actualmente as famílias sobreendividadas estão a pagar, em média, 5,4 créditos, mas há pessoas, 10,6% do total, que têm em mãos 15 empréstimos em pagamento para gerir, situações de sobreendividamento em espiral em que uma pessoa vê-se obrigada a contrair um crédito para pagar outro e depois a usar cartões de crédito.

 

Na análise dos pedidos de auxílio que chegaram à DECO em Fevereiro último, foi o desemprego que motivou um maior número de processos (36,4%). Em segundo lugar ficaram os motivos ligados a questões de saúde (19,5%). Em terceiro lugar, aparece a deterioração das condições laborais. As alterações no agregado familiar - como o divórcio ou separação - justificou 8,7% dos processos iniciados em Fevereiro. Recorde-se que o desemprego, a doença e o divórcio eram os motivos tradicionais para explicar o recurso excessivo ao crédito das famílias.

 

Lisboa é a região do País onde se concentram mais pedidos de ajuda ao sobreendividamento. No entanto, a DECO destaca que a região norte sofreu o maior crescimento homólogo – em Fevereiro de 2009 eram 73 casos, 94 casos em Fevereiro deste ano.

 

Prevenção e apoio ao sobreendividado

Os GAS têm como função apoiar, gratuitamente, os consumidores que pretendam recorrer ao crédito, acompanhar os que já se encontram em situação de sobreendividamento, renegociando os créditos e tentando impor aos consumidores mecanismos de autocontrolo dos seus gastos diários. A DECO apoia o sobreendividado negociando com as entidades financeiras, com vista a mediar uma renegociação do crédito, que poderá passar, por exemplo, pelo alargamento do prazo de pagamento.

 

Foi também criado um Observatório de publicidade aos serviços financeiros, em colaboração com a Universidade Autónoma de Lisboa – UAL. Analisa a publicidade veiculada através dos principais órgãos de comunicação social, distingue os que são claramente violadores dos interesses económicos dos consumidores e possibilita a denúncia pública e a denúncia junto do organismo com competência para a fiscalização da publicidade.

 

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