Postais do Camboja: uma cidade composta de mudança

Não há como escapar às despedidas quando longe de casa. O segredo é não esquecer que um olá faz tudo valer a pena. Há uma nova Siem Reap à minha espera.

Postais do Camboja: uma cidade composta de mudança
Um cheirinho a Siem Reap

Querida E.,

espero que este postal te encontre cheia de projectos felizes com os jovens do Velho Continente. Sei que continuas a encontrar luz em transformar a vida de tantos desta nossa geração, por vezes desesperada e tantas vezes inspirada.

Hoje escrevo-te sem nenhuma aventura em particular para partilhar. Escrevo-te sobre o meu quotidiano em Siem Reap.

Dia 15 disse até já aos meus pequeninos da terceira classe e infantário da Smiling Hearts, a escola que me deixou abraçar o desafio de ensinar Inglês a crianças. O sítio-janela que me permitiu ver, sem filtros, a realidade deste canto do mundo. Despedi-me com lágrimas nos olhos e desenhos nas mãos. Cartas de amor, de carinho, escritas por pessoas tão pequenas e, ainda assim, tão grandes.

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Fi-lo porque decidi abraçar outro projecto, desta vez ligado à defesa dos direitos das mulheres. Conheci esta semana a Directora da Rachna Satrei, Maly, uma mulher com um espírito imenso e ideias brilhantes que tem dedicado os seus dias a transformar aqueles de todas as que se vêem aprisionadas pelo género com que nasceram.

Mulheres que, privadas de educação, são obrigadas a trabalhar horas sem fim nos campos e em casa. Mulheres com uma força tremenda e espírito aberto, ainda que tantas vezes ensinadas a mantê-lo fechado. Fui recebida de braços abertos e convidada a fazer parte da verdadeira vida Khmer, em piqueniques em Angkor e reuniões de família.

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Estou feliz. Sei que estou no lugar certo, a fazer o que devia estar a fazer. É o tal plano que o Universo tinha reservado para mim.

Esta semana, acordei já três vezes antes do sol o fazer, primeiro para ir a uma aula de Yoga que me deixou tontamente feliz e depois para dar aulas aos meus três alunos de Português. Mudámos o horário e começamos agora às 6 da manhã, para lições cheias de energia e vontade.

Ser flexível é importante, sei-o bem, e ser flexível sem ter de o fazer com sacrifício é, provavelmente, uma das coisas que mais me tem permitido ser feliz, onde quer que esteja. Encontrar sempre o lado B das coisas, como poder ver o nascer do sol da minha varanda, dia sim dia sim.

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Nestes últimos dias, disse também muitas vezes olá e adeus em reencontros felizes e outras despedidas agridoces. Explorei a cidade com amigos que se fizeram à estrada por aqui e vi partir os voluntários com que partilhei momentos de pendurar na parede. Avizinham-se tempos de completa descoberta… outra vez. Novos amigos, novas aventuras, uma nova Siem Reap, porque, não tenho dúvidas, os sítios são feitos de pessoas.

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Espero ansiosamente pelo nosso reencontro. Por nos sentarmos perto da água, algures, e recordarmos juntas todos as pequenas coisas que partilhámos na Sardenha.

Um até já, E., com uma saudade imensa dos teus Gaumarjos.

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Isadora Freitas Isadora Freitas

Isadora Freitas é licenciada em Jornalismo e tirou o Mestrado Europeu em Direitos Humanos. Encontra-se atualmente no Camboja, onde ensina Português a guias turísticos e procura explorar esse canto do Mundo. Gosta de ler, escrever, fazer teatro e é apaixonada por rádio e fotografia. É apreciadora de pequenas coisas e gosta de contribuir para as grandes