Publicidade:

Ler em papel ou em ecrã: o que é melhor?

É diferente ler em papel ou em ecrã, bem sabemos. Mas qual prefere? Saiba que tem consequências, sobretudo para crianças e jovens em idade escolar.

Ler em papel ou em ecrã: o que é melhor?
A ciência explica a melhor opção

Num mundo digital, ler em papel ou em ecrã é uma questão que poucas vezes se coloca, visto que a preferência pela segunda hipótese sai, quase sempre, vencedora. No entanto, há estudos que indicam que ler em papel é mais eficaz do que em formato digital, em especial quando o tempo é pouco. Mas, as diferenças vão muito além disso.

Do tipo de conteúdo, ao suporte, passando pelo contexto, há questões que se levantam, algumas realmente alarmantes. Se nas leituras de ficção, o uso do papel ou do ecrã não chega a ser relevante, já na sala de aula a ausência do livro pode ter consequências desastrosas.

Ler em papel ou em ecrã é uma escolha que pode comprometer a nossa capacidade de entender textos complexos, de desenvolver empatia e de pensar de forma crítica. Isto representa um problema muito sério, em especial, quando falamos de crianças e jovens.

Talvez nunca tenha pensado nisto. Ou talvez sim. Ler no computador – ou noutro dispositivo eletrónico – como está a fazer neste momento, pode, em determinados casos, representar um retrocesso, ainda que isso lhe pareça um contrassenso.

Ler em papel ou em ecrã: diferenças e consequências


ler

De acordo com a neurocientista cognitiva americana Maryanne Wolf, autora do livro “O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era”, publicado em maio de 2019, existe uma perda da capacidade de concentração na leitura. Segundo a investigadora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), há uma razão clara para esta mudança da qual muitas pessoas têm consciência, mas não sabem como resolver.

O que está a acontecer, diz Wolf, é que se passa demasiado tempo nos ecrãs (telemóveis, tablets, computadores, entre outros) desde muito cedo e os hábitos digitais associados aos mesmos mudam radicalmente a forma como muitos de nós processamos a informação que lemos.

O facto de lermos constantemente através de ecrãs, em detrimento de papel, numa prática cada vez mais superficial de “passar os olhos” ou ler na diagonal, algo que fazemos em múltiplos textos e outros conteúdos online, está a destruir a nossa capacidade de entender argumentos complexos e de fazer uma análise crítica do que lemos.

Mas a autora vai ainda mais longe: esta superficialidade da leitura com recurso aos dispositivos eletrónicos pode mesmo impedir-nos de criar empatia por pontos de vista diferentes do nosso.

Tudo isto nada tem de positivo e pode ter um impacto relevante na nossa forma de ser e/ou estar, desde o desempenho no mercado de trabalho, passando pela tomada de decisões políticas, até à própria vida em sociedade.

Mas, o que é que acontece, concretamente, com a leitura no nosso cérebro? Qual o impacto da escolha de ler em papel ou em ecrã? A resposta está no chamado circuito da leitura.

O circuito da leitura

Ao contrário da visão e da linguagem oral, a habilidade de ler e interpretar letras e números não é inata. Por sua vez, a leitura resulta de um circuito que os seres humanos começaram a criar no cérebro há cerca de 6 mil anos. Um circuito cerebral cujo desenvolvimento se iniciou quando os nossos antepassados passaram a contar cabeças de gado e a criar símbolos para fazer os seus primeiros registos escritos, evoluindo até à atual e complexa capacidade de criar, processar e interpretar argumentos, subtilezas e emoções impressos nas páginas de livros, jornais e outras publicações.

A habilidade de ler é, portanto, algo que precisa de ser criado no cérebro e se desenvolve com o tempo. O nosso circuito de leitura vai refletir a linguagem que usamos, o nosso sistema de escrita, o contexto em que vivemos e o meio (ou meios) pelo qual lemos. Para isso contribuem a forma como lemos e o tempo que despendemos nessa prática.

O mundo digital a que estamos diariamente expostos e ligados, favorece hábitos de leitura pouco aprofundados, o que compromete a habilidade de entender argumentos complexos. O tempo insuficiente para o processamento cognitivo impede o processamento, interpretação e análise crítica daquilo que é lido.

Consequências reais

Apesar de há muito se falar dos riscos que o excesso de tempo passado com dispositivos tecnológicos pode representar para a saúde infantil (dos problemas de visão à obesidade, passando mesmo pela violência e isolamento, entre outros), é ainda recente a investigação científica nesse âmbito, nomeadamente no que diz respeito ao potencial impacto dos hábitos digitais sobre o poder de leitura e a concentração das crianças, agora expostas, no futuro.

Um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, concluiu que existe uma “superioridade do papel” em relação aos ecrãs. Os investigadores observaram que quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior. Este fator assume especial importância em crianças e jovens em contexto escolar.

De acordo com os resultados obtidos nesta investigação realizada no período 2000 – 2017 e que reuniu uma amostra de mais de 170 mil participantes de várias idades, é importante refletir sobre os métodos de ensino e as reais implicações dos dispositivos tecnológicos na leitura e, por consequência, na aprendizagem.

Ainda que seja difícil prever as reais consequências desta mudança de hábitos, o estudo levanta a possibilidade de as vantagens da leitura no meio impresso se perderem ao longo do tempo. Assim, algumas propostas políticas nacionais e internacionais no sentido de promover conteúdos digitais nas escolas comprometem qualquer esforço no sentido oposto.

Para Maryanne Wolf poderão perder-se, aos poucos, as capacidades de leitura desenvolvidas durante milénios. Esta visão alarmante recai essencialmente nas gerações mais jovens que, segundo a neurocientista, “estão a desenvolver uma impaciência cognitiva que não favorece a leitura crítica“.

Está a desenvolver-se uma ligação muito superficial, sem envolvimento com o que se lê, o que impede o entendimento real dos pensamentos, opiniões e/ou sentimentos de quem escreve. Daí a redução da capacidade de empatia ou de superar outros limites de conhecimento, a capacidade de entender o mundo que nos rodeia e de encontrar soluções mais complexas.

Dessa forma, prevêem-se pessoas mais suscetíveis a fake news (notícias falsas) e demagogos que criam falsas expectativas. Outra possível consequência passa pela incapacidade de pensar de forma crítica e de perceber diferentes pontos de vista, habilidades cada vez mais importantes no mercado de trabalho.

Proibir, não


ler

Os especialistas estão de acordo que não adianta querer evitar o inevitável. Lê-se cada vez mais online e com rapidez, uma tendência que não deverá mudar num futuro próximo. A preferência pela leitura através de ecrãs é um facto da atualidade presente no campo da educação.

Ainda que os estudos recentes indiquem que a leitura em papel tem benefícios superiores ao formato digital, não é realista recomendar que se evitem os dispositivos eletrónicos. Porém, abolir o suporte tradicional, como os livros, vai impedir que os leitores desenvolvam plenamente as suas capacidades de leitura e que as crianças desenvolvam essas habilidades.

A Internet trouxe inegáveis benefícios e progressos na democratização e rapidez de informação. Agora, é necessário aprender a gerir o tempo, selecionar o que pode ser lido online e encontrar um equilíbrio entre ler em papel ou em ecrã que não comprometa competências essenciais.

Como manter bons hábitos de leitura na era digital


No sentido de preservar uma leitura de qualidade, onde a concentração, a compreensão e a análise crítica estejam presentes, não há uma receita universal. No entanto, é possível e recomenda-se atenção aos nossos hábitos e, sobretudo, aos das crianças e jovens.

Alguma autodisciplina no sentido de limitar o tempo diário ligado a ecrãs, promovendo uma relação mais saudável com o digital, assim como ler livros em papel são alguns hábitos que todos podem (e devem) seguir.

Para crianças e jovens, ainda a desenvolver capacidades e competências, são recomendados alguns cuidados mais específicos:

  • Ensinar a evitar o multitasking. A realização de múltiplas tarefas em simultâneo online dá aos jovens a capacidade de lidar com múltiplos fluxos de atenção, mas cria dependência de dopamina (que recompensa o cérebro por buscar constantes estímulos) e desestimula a memória;
  • Proteger os tempos livres das crianças, ou seja, não deixar que todo o momento de ócio dê lugar ao uso de ecrãs. É nos momentos em que não há nada para fazer que nasce a criatividade;
  • Ler livros para as crianças, antes mesmo de elas começarem a falar. Isso estimula conexões neurológicas, a atenção recíproca entre pais e filhos, a experiência tátil dos livros e faz a introdução perfeita ao hábito de leitura. São muitos os especialistas que sugerem que crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas a ecrãs;
  • Não proibir, mas controlar o tempo de uso de ecrãs: entre os 2 e os 3 anos de idade, limitar a meia hora, no máximo, o tempo diário de contacto com ecrãs. Para crianças maiores, limitar o uso a 2 horas diárias;
  • Em especial no período entre os 2 e os 5 anos, promover atividades que impliquem movimento, criatividade e exploração do meio físico envolvente. Para isso, as crianças devem ter acesso a lápis de cor, livros e música, entre outros elementos que promovam a descoberta e o conhecimento;
  • Moderação.

Quando a questão é ler em papel ou em ecrã, o equilíbrio é, de facto, o ponto chave. Aprender a ser seletivo, variar, moderar e, assim, fazer o melhor uso do digital sem perder os benefícios do tradicional.

Veja também:

Elsa Santos Elsa Santos

Formada em comunicação, conta com uma vasta experiência na área. Do jornalismo ao marketing digital, a escrita é o elo comum. Apaixonada por histórias, tem desenvolvido, nos últimos anos, diversos projetos de storytelling, copywriting e locução. É mãe de duas crianças, o que não lhe dá superpoderes, mas a obriga a estar permanentemente ligada.

Saiba tudo sobre emprego