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Síndrome do sotaque estrangeiro: doença rara, mas acontece

E se de repente começasse a falar com um sotaque estrangeiro? Seria muito estranho certamente, mas a síndrome do sotaque estrangeiro é real.

Síndrome do sotaque estrangeiro: doença rara, mas acontece
É uma síndrome muito rara

Descrita pela primeira vez no século XX, a síndrome do sotaque estrangeiro está presente quando as pessoas desenvolvem, de forma súbita, uma alteração da fala do tipo disártrico, muito semelhante à de um sotaque estrangeiro. Apesar de ser uma condição rara é bastante peculiar, pelo que importa conhecê-la em maior detalhe.

Em que consiste a síndrome do sotaque estrangeiro?


síndrome do sotaque estrangeiro

Com cerca de apenas 70 casos descritos em todo o mundo, a síndrome do sotaque estrangeiro é uma condição bastante rara e pouco conhecida. O caso mais conhecido talvez seja o de uma jovem norueguesa, que após um traumatismo cranioencefálico, passou a apresentar um sotaque alemão.

Geralmente esta síndrome acontece como consequência de uma lesão no sistema nervoso central e tem como principal característica a presença de um sotaque estrangeiro na língua materna. Mais raramente, podem ainda ser encontrados outros sintomas, tais como alterações no ritmo e entonação prosódica, na estruturação semântica e sintaxe.

Dito de forma simples, os pacientes não adquirem subitamente uma nova língua, apenas apresentam uma distorção do planeamento articulatório e do processo de coordenação, apresentando, portanto, um falar incomum, que se assemelha a um sotaque estrangeiro.

Na maioria dos casos de síndrome do sotaque estrangeiro, as características presentes são as seguintes:

1. O sotaque é percebido pelo paciente e pelos ouvintes como estrangeiro;

2. O sotaque é diferente da língua nativa da paciente;

3. Há relação com uma lesão prévia no sistema nervoso central;

4. Não há relação prévia do paciente com a língua entoada pelo sotaque.

Quais as principais causas?


Esta síndrome tem sido encontrada em doentes neurológicos com diversas patologias que, de forma habitual, afetam o hemisfério cerebral dominante para as funções da linguagem. Estão documentados casos de síndrome do sotaque estrangeiro em pacientes com patologias como acidente vascular cerebral (causa mais comum), lesão traumática, neoplasia intracraniana (tumor cerebral), esclerose múltipla ou afasia progressiva primária (afasia progressiva primária).

No entanto, os doentes neurológicos parecem não ser os únicos afetados, na medida em que foram encontrados alguns casos de síndrome do sotaque estrangeiro em doentes psiquiátricos (em número muito menor), nomeadamente em doentes com doença bipolar e esquizofrenia.

Assim sendo, para além de diversas lesões neurológicas parecerem estar na origem desta síndrome, outras potenciais causas têm sido estudadas, nomeadamente fatores psicogénicos ligados a questões da personalidade, com vulnerabilidade a eventos de vida stressantes ou traumáticos, como é o caso do luto ou dos conflitos familiares.

Qual o tratamento disponível?


Os estudos relacionados com a síndrome do sotaque estrangeiro são, na sua maioria, relatos de casos individuais, o que reforça a raridade desta condição. Mais ainda, as causas e sintomas apresentados são muito variados, o que dificulta a formulação do diagnóstico e a definição de um protocolo de tratamento.

Tendo em conta que a informação que se encontra disponível relacionada com esta síndrome é escassa, habitualmente o tratamento destes casos passa pela combinação do tratamento da situação neurológica de base, com terapia da fala e, sempre que pertinente, tratamento de suporte (nomeadamente psicoterapia de suporte individual).

as causas e sintomas apresentados são muito variados

Em suma,


A síndrome do sotaque estrangeiro é um distúrbio muito raro em que a pessoa fala a sua língua nativa, com um sotaque percebido como não nativo pelos falantes da mesma língua. Habitualmente estas alterações são consequência de danos no sistema nervoso central que afetam as áreas cerebrais dominantes da linguagem, embora outras causas, tais como perturbações psiquiátricas, tenham sido encontradas ao longo dos anos. A extrema raridade desta condição dificulta o seu diagnóstico e tratamento.

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Ana Graça Ana Graça

Mestre em Psicologia, pela Universidade do Minho, com a dissertação “A experiência de cuidar, estratégias de coping e autorrelato de saúde”. Especialização (Pós-Graduada) em Neuropsicologia Clínica, Intervenção Neuropsicológica e Neuropsicologia Geriátrica. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e Neuropsicologia. Além da Psicologia. é apaixonada por viagens, leitura, boa música, caminhadas ao ar livre e tudo o que traga mais felicidade!