José Gonçalves
José Gonçalves
02 Ago, 2019 - 15:49
Rolls-Royce, a marca de que os sonhos são feitos

Rolls-Royce, a marca de que os sonhos são feitos

José Gonçalves

Nasceu sob o lema “pega no que de melhor existe e torna-o ainda melhor”, e a Rolls-Royce cumpre esse desígnio há 115 anos. Nenhuma outra marca entre os carros de luxo goza do mesmo prestígio.

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“Com a ambição comum de tornar extraordinário o futuro dos automóveis, Charles Rolls e Henry Royce uniram forças em 1904. Apesar de terem origens muito diferentes, os fundadores da Rolls Royce Motor Cars formaram uma parceria improvável – forjada na paixão partilhada pela engenharia e pelo desejo de criar o melhor carro do mundo”.

É nestes termos que o sítio da marca começa a contar a história de “Como Rolls conheceu Royce” e de como nasceu uma das mais lendárias marcas de carros da história, que está para os automóveis familiares como a Ferrari está para os desportivos: é «A» referência. Luxo, objeto de desejo e matéria de que os sonhos são feitos são dos primeiros epítetos que associamos à prestigiada marca Rolls-Royce.

A exclusividade da Rolls-Royce é muito mais do que um símbolo de status, é um estilo de vida.

Quando Rolls conheceu Royce

Frederick Henry Royce and Charles Stewart Rolls

Fonte: Rolls-Royce/ Divulgação

E tudo começou há mais de um século, mais precisamente, há 115 anos, quando Rolls conheceu Royce.

Nascido em Londres, em 1877, no seio de uma família da nobreza, Charles Stewart Rolls frequentou o colégio de Eton, antes de cursar engenharia mecânica na Universidade de Cambridge, onde foi o primeiro estudante a ter um automóvel. Tendo granjeado a reputação de ser hábil a lidar com motores, Rolls recebeu as alcunhas de «Dirty (sujo) Rolls» e «Petrolls».

Quando concluiu a universidade, Rolls era já um automobilista conceituado: em 1903, bateu o recorde do mundo de velocidade em terra, na Irlanda, guiando um Mors de 30cv a quase 134 km/h. No entanto, como o sistema de cronometragem não estava homologado, a federação britânica não reconheceu o recorde.

Entretanto, para financiar as suas atividades desportivas, Rolls criou, juntamente com um amigo, um dos primeiros concessionários de automóveis de Inglaterra, que importava e vendia automóveis da Peugeot e da belga Minerva.

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De vendedor de jornais a inventor

Em contraste com Rolls, que teve uma infância privilegiada, Frederick Henry Royce começou a trabalhar aos 11 anos. Nascido, em 1863, na cidade inglesa de Peterborough, Royce trabalhou como ardina e como entregador de telegramas, até que a sua sorte mudou.

Quando tinha 14 anos, uma tia pagou-lhe um curso de aprendizagem numa companhia ferroviária britânica, sob orientação de um dos mais conceituados engenheiros da altura. Royce aproveitou então todas as oportunidades para se instruir, passando as noites a estudar álgebra, francês e electrotecnia. Tinha um talento inato para a engenharia e conseguiu emprego na companhia de eletricidade.

Mas a verdadeira ambição de Royce era fazer da engenharia a sua ocupação a tempo inteiro, pelo que criou uma empresa com um amigo engenheiro, trabalhando longas horas a produzir campainhas de porta e dínamos. Foi por esta altura que patenteou melhoramentos na lâmpada com casquilho de baioneta que anda hoje é utilizada.

Pega no melhor que existe e torna-o ainda melhor

Mas foi só quando comprou um Decauville em segunda mão, um carro francês de dois cilindros, que Royce se começou a interessar por construir motores. Era um perfeccionista nato e tinha também uma capacidade de trabalho inata, o que mais tarde se transformaria no pilar da filosofia de Rolls-Royce: “pega no melhor que existe e torna-o ainda melhor”.

Tendo encontrado defeitos de construção no Decauville, Royce decidiu-se a fazer melhor e, em finais de 1903, tinha concebido e construído o seu primeiro motor a gasolina. Em abril de 1904, guiou o seu primeiro Royce de 10cv pela cidade.

Um acionista da empresa de Royce e amigo de Charles Rolls elogiou junto deste as qualidades do novo motor Royce de 10cv. Rolls há bastante que se sentia frustrado por vender apenas modelos importados, pelo que Edmunds marcou uma reunião entre ambos…

Um encontro que iria mudar para sempre a história do automóvel.

Charles Rolls e Henry Royce encontraram-se pela primeira vez no dia 4 de maio de 1904, em Manchester. Depois de ver o Royce de dois cilindros e 10cv, Rolls rapidamente concluiu que tinha encontrado aquilo que procurava. E, após dar uma volta com o carro, propôs logo um acordo para vender tantos quantos Royce fosse capaz de construir, sob o nome de Rolls-Royce. Dois anos depois, o Silver Ghost entrou na linha de montagem, na cidade inglesa de Derby.

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O hífen de Rolls-Royce

Mas, criar uma marca requer igualmente visão, pelo que, enquanto Rolls e Royce andavam ocupados a construir e vender automóveis, o sócio de Rolls, Claude Johnson, assumiu o cargo de Diretor Comercial e expandiu a reputação da nova empresa. Um génio da publicidade, Johnson teve um papel tão preponderante no sucesso da marca que ficou conhecido como «o hífen de Rolls-Royce».

“O melhor carro do mundo”

Silver Ghost

Fonte: Rolls-Royce/ Divulgação

Uma das primeiras publicidades criadas por Johnson para o carro de 40/50cv promovia-o assim: “O Rolls-Royce de seis cilindros – não um dos melhores, mas o melhor carro do mundo”. E assim lançou a frase que ficaria para sempre associada à Rolls-Royce. Durante as duas décadas seguintes, mais de 7 mil Silver Ghost foram produzidos e vendidos a magnatas, desde grandes industriais até à realeza.

A decisão de Johnson de promover uma série de campanhas de publicidade em que o superior conforto acústico e fiabilidade dos automóveis Rolls-Royce eram enaltecidos foi de uma eficácia incrível. Demonstrou as performances exclusivas da marca e criou uma enorme exposição global à sua engenharia de classe mundial. E assim nasceu uma lenda.

Recorde de mais de 23 mil km consecutivos a rodar

E em 1907, o Rolls-Royce Silver Ghost foi mesmo declarado “O Melhor Carro do Mundo”, depois de bater o recorde de rodagem consecutiva sem parar, ao todo, 23.128 km, percorrendo por 27 vezes a distância entre Londres e Glasgow, na Escócia, e demonstrando em simultâneo fidelidade e conforto sem rival.

Apesar de ter dado à marca o lendário título de Melhor Carro do Mundo, o Silver Ghost foi descontinuado em 1925, sendo substituído pelo New Phantom, mais tarde denominado Phantom I, modelo que foi fabricado tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos da América (EUA).

Depois da terra, o ar e o mar

Mas os anos 1920 também marcaram o arranque do contributo da Rolls-Royce para a engenharia aeronáutica. Depois da I Guerra Mundial e da abertura da primeira fábrica da marca no Massachussets (EUA), o motor «R» bateu um novo recorde de velocidade na aviação.

Desenvolvido para a participação do Reino Unido num concurso de aviação, em 1929, o Intercontinental Schneider Trophy, esteve na base do motor Merlin, que mais tarde viria a ser o propulsor do Spitfire e do Hurricane, dois dos mais famosos aviões de caça ingleses da II Guerra Mundial.

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Na década de 1930, a Rolls-Royce bateu mais recordes em terra e no mar e, no setor automóvel, «assistiu» à chegada do Phantom III, o primeiro carro da marca a incorporar um motor V12: em 1937, o Thunderbolt, um carro equipado com dois motores Rolls-Royce «R», bateu o recorde do mundo de velocidade em terra, ao atingir os 502,4 km/h; entretanto, no mar, o Miss England II, também equipado com motores «R», batia o recorde de velocidade, ao atingir os 191,5 km/h. O piloto morreria momentos depois, ao chocar com um tronco de árvore submerso.

Foi ainda nesta década, em 1931, que a Rolls-Royce comprou a Bentley, fundada por Walter Owen Bentley, em 1919.

Rolls-Royce: Uma longa relação com a família real britânica

familia real

Fonte: Rolls-Royce/ Divulgação

A década de 1940 trouxe novos desenvolvimentos à produção artesanal e ao design, sendo que também se começaram a utilizar materiais mais leves. Mas quando a então Princesa Isabel – hoje, Rainha Isabel II de Inglaterra – adquiriu o primeiro Phantom IV, em 1950, começou a longa relação que ainda hoje perdura entre a Rolls-Royce e a família real britânica.

Concebido exclusivamente para a realeza e para chefes de estado, o Phantom IV é um dos Rolls Royce mais raros do mundo, tendo sido apenas produzidas 18 unidades do modelo.

No cinema e no Rock

A década de 1960 tornou a Rolls Royce apelativa a uma nova espécie de clientes: atores de cinema, estrelas Rock e celebridades; e até foi imortalizado no filme “O Rolls-Royce Amarelo”, de 1964. E em 1965, por exemplo, John Lennon comprou um Phantom V branco, que depois mandou pintar em preto mate, antes de optar pela decoração colorida que faz dele um dos mais valiosos itens da história da memorabilia pop.

Separação da empresa

Os anos 1970 e 1980 foram conturbados para marca. Em 1971, a Rolls-Royce foi dividida e nacionalizada, após problemas no desenvolvimento do motor a jato RB211. Em 1973, o governo britânico vendeu a divisão de carros para que a Rolls-Royce Limited se concentrasse na produção de motores de avião. A divisão de carros passou a denominar-se Rolls-Royce Motors, e veio a ser adquirida pela empresa inglesa Vickers, em 1980. A Rolls-Royce Limited manteve-se nas mãos do estado britânico até 1987, quando foi reprivatizada, passando a ser a Rolls-Royce plc, que detém as divisões marítima, de aviação civil e militar, nuclear e de energia.

Batalha entre BMW e VW

Em 1998, a Vickers pôs a divisão de carros à venda e quando se pensava que a BMW teria a oferta vencedora (£340 M – cerca de €376 M ao câmbio atual), eis que a Volkswagen faz uma oferta maior à última hora (£430 M – cerca de €476 M, também ao câmbio atual), num processo algo obscuro, que levantou sérias suspeitas de que a VW teria tido conhecimento do valor da oferta da congénere alemã.

Especulações à parte, havia particularidades que a VW desconhecia e que a BMW conhecia. O contrato de fornecimento de motores V8 e V12 da marca bávara à Rolls-Royce terminaria dentro de um ano e a BMW informou a Vickers que, findo esse prazo, não forneceria nem mais um. A VW não tinha como resolver esse problema, pois não produzia motores sequer à altura de um Bentley, muito menos de um Rolls-Royce. E os motores ingleses V8 já não obedeciam às normas de emissões da época.

Ou seja, a VW ficava com a Rolls-Royce e com a Bentley, mas no prazo de 12 meses ficaria sem motores para os equipar e em tão pouco tempo não tinha de todo a possibilidade de desenvolver propulsores próprios. Para piorar a situação, apesar de deter as duas marcas e a estatueta «Espírito do Êxtase» (a mulher com asas de anjo) que a Rolls-Royce ostenta no capô, os direitos do logótipo da Rolls-Royce, os dois «R» negros sobrepostos, pertenciam à Rolls-Royce plc, que também passara a ser parceira da BMW nos motores de jatos de pequeno e médio porte, desde 1990.

Esta decidiu vender os direitos do «logo» à BMW por £40 M (cerca de €44,3 M ao câmbio atual). Resultado: a VW detinha as marcas, as linhas de produção, mas não tinha os motores nem o logótipo.
Solução: Rolls-Royce para BMW e Bentley para VW
As duas marcas alemãs entraram em negociações e chegaram ao acordo de Manching, em 1998: a Volkswagen ficava com a Bentley e a BMW com a Rolls-Royce. Com a divisão automóvel, já que a aeronáutica é controlada pela Vickers.

77% dos Rolls-Royce produzidos desde a fundação da marca estão em perfeito estado

Atualmente, a Rolls-Royce Motor Cars está sediada em Goodwood, na Inglaterra. Em 2014, a empresa bateu o seu recorde de vendas, comercializando 4.063 automóveis, mais 12% do que os 3.630 que tinha vendido em 2013. Com 127 concessionários em todo o mundo, a Rolls-Royce dominou o mercado dos carros com valor superior a 200 mil euros.

Em 2016, em nova e esmagadora demonstração da fiabilidade e da qualidade dos seus automóveis, a Rolls-Royce anunciou ter encomendado um estudo sobre o estado de todos os carros que produziu desde a fundação da marca, concluindo que 77% deles se encontravam em perfeito estado de conservação, mantendo as características essenciais.

Cada motor é feito inteiramente à mão

No dia em que adquiriu a Rolls-Royce Motor Cars, a BMW revelou que iria construir uma fábrica em Inglaterra e o local escolhido foi a cidade de Goodwood. Partindo de uma folha em branco, o projeto foi abordado sob o ângulo de uma das famosas citações de Henry Royce: “Esforça-te por atingir a perfeição em tudo o que faças”. Assim, a nova fábrica não só tinha de estar à altura dos elevados padrões da marca como deveria causar o menor impacto ambiental possível.

Foi inaugurada a 1 de janeiro de 2003 e, ali, todos os motores continuam a ser feitos inteiramente à mão, sempre na demonstração da excelência artesanal da marca. Em 2012, a linha de montagem foi alargada em 2.500 metros quadrados. Todo o edifício causa reduzido impacto ambiental e tem elevada eficiência térmica e energética, tendo sido construído com materiais sustentáveis.

Grandiosidade vai além da estética

Os processos de produção são igualmente o mais ecológicos possível: mais de 60% dos desperdícios – papelão, papel, plástico, pneus e poliestireno – são reciclados. As sobras de pele são reutilizadas nas indústrias da moda e do calçado, e a marca doa também as folhas de madeira excedentárias a uma instituição de caridade local, que faz com elas móveis e outros produtos como forma de angariação de fundos próprios.

Assim, com o design do edifício e com as suas preocupações ambientais, a Rolls-Royce reduziu em 29% a pegada energética na produção de cada motor em apenas cinco anos. Na fábrica de Goodwood pode ler-se: “Bem-vindos ao berço da Rolls-Royce Motor Cars, onde a grandiosidade vai além da estética”.

Sweptail, o carro mais caro do mundo

Sweptail

Fonte: Rolls-Royce/ Divulgação

Para além desta gama, há ainda a realçar o Rolls Royce Sweptail, outro marco na história da marca, que quando foi apresentado, em maio de 2017, no Concorso d’Eleganza Villa d’Este, se tonou no carro mais caro do mundo, com um preço anunciado de aproximadamente 12,8 milhões de dólares (quase € 11,5 M), destronando largamente o anterior, o Bugatti Chiron, que custa cerca de € 2,5 M. No entanto, o Sweptail já foi, este ano, destronado dessa posição por outro carro construído pela Bugatti, o La Voiture Noire.

Mas há motivos particulares para o preço tão avultado deste exclusivo Rolls-Royce: é que é mesmo único e feito à medida do gosto de um multimilionário. Este coupé de dois lugares, com um grande teto panorâmico em vidro, foi encomendado em 2013, demorou cerca de quatro anos a ser desenvolvido e foi construído totalmente à mão, sendo inspirado nas carroçarias da Rolls-Royce dos anos 1920 e 1930, que tinham as traseiras bastante inclinadas (swep tail). Giles Taylor, o diretor de design da Rolls-Royce Motor Cars, descreve-o como o equivalente automóvel à alta-costura.

Para uma marca acostumada a criar carros exclusivos através da sua divisão de personalização à medida, o tempo aplicado no desenvolvimento do Sweptail só por si demonstra o quão único este automóvel é. A Rolls-Royce, marca que se orgulha de ter construído alguns dos carros mais requintados que o mundo já viu, acabara de apresentar um modelo que superava tudo o que já havia feito na sua longa e ilustre história. Só isto revela muito mais do que os quase 13 milhões de dólares que custou.

Na apresentação à Comunicação Social no Concorso d’Eleganza at Villa d’Este, Torsten Muller-Otvos, CEO da Rolls-Royce Motor Cars, disse: “O Sweptail é um carro verdadeiramente magnífico. Exala por si só o romantismo das viagens e entra diretamente para o panteão dos grandes carros de turismo intercontinentais do mundo”.

Gama atual

A gama atual da Rolls-Royce é constituída pelo Phantom e Phantom EWB, pelo SUV Cullinan, Pelo Ghost, pelo coupé Wraith, pelo descapotável Dawn e pelo também coupé Black Badge. O preço do Phantom, por exemplo, começa um pouco abaixo dos € 450 mil, mas pode ultrapassar o milhão em função das personalizações solicitadas. Cristiano Ronaldo, que já tinha um Phantom, comprou este ano um Cullinan, o primeiro SUV da Rolls-Royce, cujo preço base ronda os 700 mil euros.

E assim se fabricam os sonhos, para quase todos, mas realidades para alguns.

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