Miguel Pinto
Miguel Pinto
20 Fev, 2026 - 16:00

Strada del Prosecco: a estrada do vinho mais antiga de Itália

Miguel Pinto

São 90 quilómetros por uma região vinícola deslumbrante no norte de Itália. Não perca a oportunidade de fazer a Strada del Prosecco.

Estradas relacionadas com o vinho há muitas. E depois há a Strada del Prosecco. A diferença é que esta não é apenas um percurso turístico desenhado para vender garrafas.

É um território vivo, inscrito desde 2019 na lista do Património Mundial da UNESCO, onde as colinas foram moldadas durante séculos pela mão do homem até se tornarem uma das paisagens vitivinícolas mais fotogénicas e cativantes da Europa.

Situada na província de Treviso, na região do Véneto, entre as cidades de Conegliano e Valdobbiadene, a Strada del Prosecco e Vini dei Colli Conegliano Valdobbiadene, criada em 1966, tem a honra de ser a mais antiga estrada do vinho oficialmente reconhecida em Itália.

O percurso principal tem cerca de 90 quilómetros e percorre 15 municípios, oferecendo uma sucessão de panoramas que alternam vinhedos geometricamente ordenados, pequenas igrejas românicas, aldeias de pedra e adegas familiares com séculos de história.

Para quem procura uma escapada fora dos circuitos saturados, com uma combinação genuína de natureza, cultura e gastronomia, este roteiro é uma das melhores respostas que o norte de Itália tem para dar.

A Strada del Prosecco e porque vale a pena

strada del prosecco

Muito antes de os roteiros enogastronómicos se tornarem tendência, as colinas entre Conegliano e Valdobbiadene já recebiam viajantes em busca do célebre espumante local.

A estrada foi oficialmente instituída em 1966 e, desde então, foi sendo refinada e expandida até ao formato atual, que combina o percurso principal com três itinerários temáticos alternativos.

O que torna este território verdadeiramente especial é a sua conformação geológica única.

Os chamados hogback, relevos estreitos com encostas íngremes, foram progressivamente transformados desde a Idade Média por agricultores e monges em terraços cultivados com fileiras de videiras perfeitamente alinhadas.

Prosecco DOCG: o que está no copo

Antes de partir, convém perceber o que se vai provar ao longo do caminho. O Prosecco produzido nesta zona específica tem a classificação mais elevada da hierarquia italiana do vinho, a DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita).

Produz-se exclusivamente em 15 municípios collinares, com uvas colhidas à mão em terrenos ricos e minerais.

Dentro desta designação, existe ainda uma distinção de prestígio máximo, o Cartizze DOCG, produzido numa área de apenas 107 hectares nas colinas entre San Pietro di Barbozza, Santo Stefano e Saccol, em pleno coração do território.

Roteiro de Conegliano a Valdobbiadene

O percurso descrito a seguir pode ser feito de carro, de moto ou de bicicleta. Para quem prefere explorar a pé, existe ainda o Cammino delle Colline del Prosecco, uma rota pedestre de 51 quilómetros dividida em quatro etapas, entre Vidor e Vittorio Veneto.

Ponto de partida: Conegliano

A porta de entrada natural da Strada del Prosecco é Conegliano, uma cidade que surpreende quem a visita pela primeira vez. O centro histórico concentra-se em torno da Contrada Grande, uma rua elegante com arcadas e fachadas afrescadas que dão ao conjunto um ar de cidade medieval bem conservada.

A subir em direção ao castelo, que domina a cidade de um promontório sobranceiro, passa-se pela Chiesina della Madonna della Neve e pelas antigas muralhas carraresas do século XIV. No topo, a vista sobre os vinhedos das colinas envolventes compensa qualquer esforço.

Para quem quer começar a visita com uma contextualização profunda, a paragem obrigatória é a Scuola Enologica di Conegliano, a escola de enologia mais antiga de Itália, fundada em 1876. Aqui nasceu grande parte do conhecimento que tornou o Prosecco no que é hoje.

Junto ao edifício principal, não se deve perder a Bottega del Vino oitocentista, classificada como monumento nacional, nem o Museo Enologico L. Manzoni, que documenta décadas de investigação vitivinícola.

Conegliano guarda ainda uma jóia artística de primeira ordem. A catedral do Duomo alberga uma pala de altar pintada por Cima da Conegliano, um dos grandes mestres da pintura veneziana do século XV, nascido precisamente nesta cidade.

San Pietro di Feletto: o silêncio das colinas

Vista da Toscana

A poucos quilómetros de Conegliano, já em pleno território collinare, encontra-se San Pietro di Feletto, uma pequena localidade que guarda outro tesouro arquitetónico de rara beleza.

Falamos da Pieve Románica de São Pedro, datada do século XII, que domina o vale a partir de um outeiro e conserva um precioso ciclo de frescos na sua fachada exterior.

Susegana e o Castelo de San Salvatore

Seguindo o percurso em direção a oeste, Susegana é uma paragem que poucos guias mencionam mas que merece atenção.

O Castelo de San Salvatore ergue-se sobre a localidade com uma presença majestosa. Apesar dos danos sofridos ao longo dos séculos, conserva um fascínio que justifica a desvio.

Nas proximidades, a Abadia de Sant’Eustachio, em Nervesa della Battaglia, é outro ponto de interesse, cujas ruínas rodeadas de natureza evocam os combates da Primeira Guerra Mundial que assolaram esta região.

Solighetto e a Villa Brandolini

O caminho continua por entre vinhedos e pequenas aldeias até chegar a Solighetto, onde se encontra a elegante Villa Brandolini, uma villa setecentista que alberga hoje a sede do Consórcio do Prosecco DOC Conegliano Valdobbiadene.

A alguns minutos, em Soligo, a Igreja de Santa Maria Nova, datada do século XIV, guarda frescos originais que merecem uma visita.

Col San Martino e vista para o vale

Col San Martino é uma das paragens favoritas dos visitantes mais atentos. Aqui encontram-se as Torri di Credazzo, antigas torres medievais que testemunham a presença longobarda na região, e a pequena Igreja de São Vigílio, situada numa colina e acessível apenas a pé por um caminho entre vinhedos.

A recompensa é uma panorâmica sobre o vale que dificilmente se esquece.

Follina, a abadia cisterciense

A meio caminho entre Conegliano e Valdobbiadene, Follina é talvez a paragem mais memorável do roteiro em termos de arquitectura.

A Abadia Cisterciense de Santa Maria, cujo claustro foi concluído em 1268, é um dos monumentos medievais mais bem conservados do Véneto.

A localidade tem ainda um outro atrativo peculiar: uma cerveja artesanal local que faz uma concorrência improvável ao Prosecco nas mesas dos restaurantes da zona.

Vista de Matera
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Cison di Valmarino: o burgo mais bonito

Se há uma aldeia ao longo da Strada del Prosecco que justifica por si só toda a viagem, essa aldeia é Cison di Valmarino.

Este burgo medieval, dominado pelo Castelo dos Brandolini, é um dos mais bem conservados e fotogénicos de toda a região. As suas ruas de pedra, as casas baixas e o ritmo lento da vida local criam uma atmosfera de autenticidade que se torna rara.

Cartizze, o coração nobre do Prosecco

A paragem mais aguardada de todo o roteiro é, sem dúvida, a área do Cartizze, os 107 hectares de vinhedos que produzem o Prosecco mais prestigioso e complexo desta denominação.

O Anello del Prosecco (um percurso circular de 10 quilómetros que atravessa os vinhedos do Cartizze) pode ser percorrido a pé ou de bicicleta de montanha ao longo de todo o ano, com preferência para os meses entre março e outubro.

O ponto de partida é San Pietro di Barbozza, onde existe também o VignArte, uma instalação permanente de esculturas em madeira espalhadas pelos vinhedos.i.

Valdobbiadene: o início de todas as degustações

O percurso principal da Strada del Prosecco termina em Valdobbiadene, a capital produtiva da DOCG e sede de inúmeras casas espumantistas.

A cidade em si é menos monumental do que Conegliano, mas compensa com uma densidade notável de adegas, enotecas e restaurantes onde a cultura do bom beber e do bom comer está profundamente enraizada.

Vittorio Veneto e as Grotte del Caglieron

aldeia na strada del rposecco

Para quem dispõe de mais tempo e quer explorar os arredores, duas visitas complementares valem o desvio.

Vittorio Veneto, na extremidade oriental das colinas do Prosecco, é uma cidade com forte memória histórica, já que foi aqui que se travou a batalha final da Primeira Guerra Mundial, em 1918.

As Grotte del Caglieron, perto de Fregona, são uma surpresa geológica. Trata-se de uma série de cavernas e galerias escavadas num afloramento de conglomerado, atravessadas por um ribeiro, que criam um cenário natural de grande beleza.

Como chegar

O ponto de partida mais conveniente é Treviso, servida pelo Aeroporto de Treviso (Antonio Canova) com ligações directas a várias cidades europeias.

De Treviso a Conegliano são cerca de 30 quilómetros por autoestrada (A27). Também é possível chegar de comboio, através da linha Veneza–Udine que passa por Conegliano.

Quando ir

A Strada del Prosecco pode ser percorrida em qualquer época do ano, mas há momentos mais espectaculares que outros.

  • Primavera (abril–maio): Os vinhedos acordam com folhagem nova, as temperaturas são amenas e os dias longos.
  • Outono (setembro–outubro): A época das vindimas transforma a paisagem e enche o ar de aromas. As colinas ficam com uma paleta de cores quentes que é pura fotografia.

O verão é igualmente agradável, embora mais concorrido. O inverno tem o seu charme próprio nas colinas desertas e nos fogos das adegas.

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