Miguel Pinto
Miguel Pinto
17 Nov, 2022 - 12:22

Vila Viçosa: viagem nostálgica pela flor do Alentejo

Miguel Pinto

Vila Viçosa é uma das mais belas vilas alentejanas. Terra que viu nascer Florbela Espanca e que segue cheia de encantos.

Escreveu Florbela d’Alma da Conceição Espanca: “ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens”. Chegou a ser muito maior que os homens, era uma poetisa das alturas, que imprimia palavras – de amor, sofrimento e saudade – no peito de quem as lia.

Nascida a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa, pegou na caneta para escrever o seu primeiro poema com apenas oito anos e viu ser publicado o seu primeiro livro – “Livro das Mágoas” – aos 25 anos.

Convidamo-lo a perder-se pelas ruas da memória de Florbela Espanca em Vila Viçosa, “Princesa do Alentejo“, poisada aos pés da Serra de Borba.

Vila Viçosa: perdidos por Florbela Espanca

Avenida principal de Vila Viçosa
Vila Viçosa é uma das mais belas vilas alentejanas

Vila Viçosa é uma fantástica vila alentejana, com uma vasta história e um património impressionante.  Foi lá que em 1894 nasceu Flor Bela Lobo, poetisa portuguesa que em 36 anos de vida tumultuosa e marcada por inquietudes, criou uma obra que ao longo do tempo haveria de intrigar muita gente e apaixonar outros tantos.

Atualmente existe na vila uma rua com o nome Florbela Espanca, onde se situa a casa onde morou e que agora é um núcleo museológico. Percorra o passeio até ao número 59, de paredes brancas e amarelas onde se encontra escrito um dos mais célebres versos da poetisa, celebrizado em música pelo Trovante: “E é amar-te, assim, perdidamente”.

Por sua vez, junto ao Cine-Teatro também com o seu nome, existe um monumento a Florbela Espanca, um busto com a assinatura do arquitecto Raul David, que assinala a vida atribulada de uma das mais notáveis filhas da terra.

Castelos e solares

São, contudo, mais os pontos neste “Vale Viçoso” que terão feito parte da rotina de Florbela Espanca e que merecem hoje a sua visita.

Encaixada na tradicional paisagem alentejana, com cores e texturas características, Vila Viçosa é sinónimo de tranquilidade e simpatia.

Espreite a praça central, onde as laranjeiras libertam um aroma inconfundível, e deixe-se envolver em conversas com as gentes que habitam a vila e personificam a palavra hospitalidade.

No centro, visite o castelo medieval, mandado edificar por D. Dinis na última década do século XIII e onde, no interior, irá encontrar o Solar da Padroeira de Portugal, ponto de paragem obrigatória.

É no cemitério ao lado da fortaleza que jaz, precisamente, o corpo de Florbela Espanca.

Paço Ducal: testemunho da história

Não pode, obviamente, faltar uma vista ao fabuloso Paço Ducal, um dos mais emblemáticos monumentos de Vila Viçosa. A sua edificação iniciou-se em 1501 por ordem de D. Jaime, quarto duque de Bragança, mas as obras que lhe conferiram a grandeza e características que hoje conhecemos prolongaram-se pelos séculos XVI e XVII.

Os 110 metros de comprimento da fachada de estilo maneirista, totalmente revestida a mármore da região, fazem deste magnífico palácio real um exemplar único na arquitectura civil portuguesa, onde estadiaram personalidades de grande projecção nacional e internacional.

De residência permanente da primeira família da nobreza nacional, o Paço Ducal passou, com a ascensão em 1640 da Casa de Bragança ao trono de Portugal, a ser apenas mais uma das habitações espalhadas pelo reino.

Nos reinados de D. Luís e D. Carlos as visitas frequentes ao Paço Ducal são retomadas, assistindo-se, ao longo do século XIX, a obras de requalificação que visavam oferecer maior conforto à família real durante as excursões venatórias anuais.

A implantação da República em 1910 levou ao encerramento do Paço Ducal de Vila Viçosa que, por vontade expressa em testamento por D. Manuel II, reabre portas nos anos 40 do século XX, após a criação da Fundação da Casa de Bragança.

Ao longo de toda a visita ao Palácio predominam os frescos e azulejos seiscentistas, os tectos em caixotões e pintados e as lareiras em mármore que distinguem as diversas salas que acolhem importantes colecções de pintura, escultura, mobiliário, tapeçarias, cerâmica e ourivesaria.

Vista geral da vila de Monsaraz
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O que comer

A gastronomia alentejana é quase intraduzível em palavras. Surge diante de nós carregada de sabores que nos remetem para as longas planícies que desfilam em frente aos nossos olhos.

Em qualquer lugar do Alentejo é possível entrar numa tasca ao calhas e comer de forma inesquecível. Vila Viçosa não foge à regra.

Suculentos secretos de porco preto, açordas, gaspacho, peixes do rio, ensopado de borrego, perdizes, cacholeiras, presuntos, sarapatéis ou, claro está, as deliciosas migas, são pratos que não terá grande dificuldade em encontrar.

Aqui ficam alguns espaços onde se poderá banquetear com o melhor que o Alentejo tem para oferecer.

Onde ficar

O alojamento também não será um problema para uma jornada bem passada em terras alentejanas. As propostas são direcionadas a todas as bolsas e gostos. A lista é vasta, pelo que aqui lhe deixamos apenas algumas sugestões onde ficar.

Florbela Espanca: uma vida de inconformidade

Poetisa Florbela Espanca

Filha ilegítima, reconhecida pelo pai somente após a sua morte,  Florbela Espanca viveu desde muito cedo em jeito de desafio às convenções da época.

Vestia calças, peça exclusiva do guarda-roupa masculino, falava de sensualidade quando esta era tabu, estudou Direito na Faculdade de Lisboa e casou três vezes, divorciando-se duas.

Era uma mulher que transformava as emoções que a preenchiam em palavras e essas palavras em fantásticas obras. Em 36 anos, foram mais de 200 os sonetos que escreveu e muitos os desgostos que a assolaram, desde amores fracassados, à morte violenta do irmão Apeles.

A 8 de dezembro de 1930, dia do seu aniversário, pousou a pena de vez. Vivia em Matosinhos, com o terceiro marido. Suicidou-se, fazendo “entrar a Morte, a Iluminada” e deixando um legado de valor imenso para todos os que procuram na poesia um reflexo genuíno da alma humana.

Um poema de Florbela a fechar

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! …

Sou aquela que passa e ninguém vê …
Sou a que chamam triste sem o ser …
Sou a que chora sem saber porquê …

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

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