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Postais do Camboja: Siem Reap e a fase dos porquês

Um passeio com duas metades de mim pelas ruas da – agora também minha – cidade fez-me voltar a ver Siem Reap como quem tudo vê pela primeira vez.

Postais do Camboja: Siem Reap e a fase dos porquês
Um cheirinho a Siem Reap

Queridas T.,

Como vocês tão bem sabem, consegui fazer com que os meus progenitores, também eles com raízes noutros cantos do mundo, viessem visitar este meu ninho. Contra todas as previsões, ganharam asas numa aventura de horas infindáveis e chegaram plenos de juventude com uma energia curiosa.

O primeiro abraço no aeroporto soube a muito mas tudo o que se seguiu fez desses dias alguns dos mais felizes que vivi por estas paragens. Fui turista no Camboja. Num constante viajar de tuktuk, em visitas a museus, num regresso aos templos de Angkor. Fui, também, local, ao levá-los a mercados longe de onde se passeiam todos os estrangeiros, à escola onde passo as tardes a ensinar Inglês, aos campos de arroz nos arredores de Siem Reap.

Percorro muitas vezes as ruas da Memória dos meus pais. De formas diferentes, em veículos distintos. As ruas do meu Pai são habitadas por factos, curiosidades e, claro, inevitavelmente, as aventuras atípicas de um jovem Português loiro de altura considerável. Ruas pintadas de azul onde o mar é o elemento comum. As ruas da minha mãe ficam algures mais a Sul. Num país quente, onde todas as noites são passadas sob as estrelas e os dias sob o sol.

É sempre uma delícia escutá-los, dar-lhes as mãos e percorrer essas ruas de História mas, desta vez, foram eles quem, de cabelos ao vento, partiram à descoberta da verdade dos meus pequenos contos partilhados por telefone. Confirmaram o caos do trânsito em Siem Reap, os sabores diferentes da citronela e do leite de coco, a beleza ímpar dos templos, o calor do sol de Fevereiro.

Nas malas, algures entre o vinho do Porto e os diferentes tipos de queijo, trouxeram também novidade, cuidadosamente embrulhada em papel reciclado. Repararam em pequenas coisas que eu, já imersa neste Mundo, me tenho esquecido de reparar. Em cabos de electricidade numa confusão imensa, famílias de quatro numa só mota, estradas que se vão desfigurando aos poucos, mil e um frutos que não se encontram por aí. Repararam no coração de quem por cá vive. Na generosidade e nos sorrisos com que nos brindam no mais singelo e no mais formal dos cenários.

Levei-os a Kok Dong e vi-os explorar as diferentes fases de preparação do arroz com mãos firmes e curiosas. Vi o meu pai mostrar aos pequenos de uma escola local onde fica o Camboja no mapa. Vi a minha mãe de mão dada com uma pequena Khmer à procura de peixes mergulhados em lama.

Postais do Camboja

Vi-os e vi crescer em mim uma certeza difícil de explicar. Aquela de que não trocaria esta experiência por nenhuma outra. Uma certeza que só partilhada se poderia concretizar e que, agora, dificilmente me irá fazer cair nas teias da inquietude de novo.

Fomos ao Museu da Guerra, onde se vêem muitas das armas utilizadas nos anos em que o Camboja se vestiu de roupas e Almas escuras. Não precisámos de quem nos guiasse. O meu Pai, com todo o seu saber acumulado de quem nunca cessa de aprender, soube-nos explicar cada arma, mina, tanque e helicóptero. É um espaço diferente, este, onde instrumentos que outrora serviram para imprimir terror repousam agora, em paz, por entre mangueiras e outros seres verdejantes.

Postais do Camboja

Discutimos História, discutimos Pol-Pot, os Estados Unidos e as suas intervenções envoltas em interesses. Discutimos motivações, frustrações, injustiças e partimos para o circo, onde, mais uma vez, soube estar a presenciar algo próximo de mágico.

Numa segunda-feira em que o termómetro marcava 32°C, rumámos com o Chantha, um dos meus alunos de Português, aos templos de Pre Rup, Banteay Srei e Beng Mealea. O segundo, também conhecido por templo cor-de-rosa ou templo das mulheres, é de uma beleza pouco súbtil, que enleva o espírito com os seus detalhes esculpidos em arenito de tons rosados. Construído no século X, é um dos mais antigos e, ainda assim, dos mais bem conservados, funcionando – para mim, mais do que qualquer outro templo por aqui – como uma espécie de portal para outras eras.

Postais do Camboja

Beng Mealea é a sua antítese. De proporções imensas, é um templo que a selva invadiu impetuosamente, fazendo ruir torres e galerias inteiras, e que nos faz reflectir no esplendor das acções do Homem, capaz de construir algo tão imponente, e da Natureza, que facilmente o destrói no simples acto de reivindicar o que é seu.

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Num outro desses dez dias, depois de caminharmos pela aldeia (agora não tão) flutuante de Kompong Phluk, onde as casas se erguem em estacas de uma altura notável, vimos o pôr do sol no Tonle Sap – eu na tentativa feliz de extinguir parte das minhas imensas Saudades do mar.

Postais do Camboja

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Siem Reap não é uma cidade que faz do espírito sereno. Não é Praga ou Amesterdão, onde o diferente continua a parecer-nos familiar. É uma cidade cheia de tudo, em que o mais pequeno passeio pelas ruas do centro resulta nas mais variadas exclamações e interrogações. São muitas as dúvidas que nos surgem. De repente, aqui, vemo-nos de volta à fase dos porquês. Essa fase tão inocente e, ainda assim, tão sábia, que nos torna humildes perante a imensidão de coisas que temos ainda para aprender. Porque é que os gatos têm todos o rabo cortado? Porque é que os monges caminham, na grande maioria, descalços? Porque é que os Cambojanos vestem camisolas de manga comprida com 35°C? Porque é que as vacas são tão magras?

É uma cidade que não cessa de impressionar quem a visita mas, também, quem a habita. Hoje, sorrio ao pensar que ficarei mais tempo do que havia planeado. Sorrio com a fragilidade dos planos que trago na algibeira e com a destreza com que, aos poucos, me vou desfazendo deles. Mais três meses de Siem Reap. Mais três meses de novidade.

Espero-vos bem, minhas T., plenas desses vossos risos que se ouvem para lá das portas.

Um até já, de quem não pode esperar por um reencontro na vossa capital.

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