Todos os anos, a 14 de fevereiro, Portugal enche-se de rosas vermelhas, chocolates embrulhados a vermelho e reservas de restaurante que desaparecem a uma velocidade suspeita. O Dia dos Namorados é, para uns, a data mais romântica do calendário e para outros, uma invenção do comércio disfarçada de tradição milenar. A verdade, como sempre, está algures no meio e é bem mais interessante do que parece.

São Valentim: o padre que desobedeceu ao imperador

A lenda do padre rebelde

O nome e a data do Dia dos Namorados derivam de São Valentim, um mártir cristão do século III. A documentação histórica sobre a sua vida é escassa e misturada com lendas, mas relatos tradicionais afirmam que Valentim desafiou ordens do imperador Cláudio II, que proibiu o casamento dos soldados, convicto de que homens solteiros combatiam melhor.

Valentim discordou em silêncio e continuou a casar jovens às escondidas. Quando foi descoberto, foi preso e executado a 14 de fevereiro. A lenda diz que, antes de morrer, terá enviado uma carta à filha do seu carcereiro, por quem se tinha apaixonado, assinada com as palavras que ainda hoje circulam em milhões de cartões: “do teu Valentim”.

Em 496 d.C., o Papa Gelásio I designou oficialmente o dia 14 de fevereiro como o dia de São Valentim. Ainda assim, até ao final da Idade Média, esta data tinha pouco a ver com o romance amoroso tal como o conhecemos hoje. Foi preciso um poeta inglês para mudar isso.

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A poesia que mudou tudo

Chaucer e os pássaros apaixonados

A associação do Dia dos Namorados ao amor romântico surgiu apenas no século XIV, sobretudo através da obra do poeta inglês Geoffrey Chaucer. Num poema intitulado The Parliament of Fowls (c. 1380), Chaucer liga explicitamente o dia de São Valentim à época em que “cada ave escolhe o seu parceiro”, sugerindo que a data era entendida como tempo de acasalamento entre as aves, uma metáfora que rapidamente foi adotada pelos círculos literários e cortes medievais europeias.

A partir daí, o dia ganhou contornos literários. Poetas escreviam para as suas amadas, nobres trocavam presentes, e a tradição foi-se solidificando na Europa. O Dia dos Namorados não nasceu de um único evento histórico claro, mas resulta da fusão de práticas pagãs de cortejo, do culto cristão de um mártir chamado Valentim e do imaginário cultural produzido por poetas medievais, que transformaram uma data litúrgica num símbolo duradouro do amor romântico.

Portugal e o amor: uma relação com história própria

Antes do 14 de Fevereiro

Portugal chegou ao Dia dos Namorados pelo caminho mais longo. Antes do cristianismo, o território que viria a ser Portugal celebrava já os rituais de Lupercalia enquanto parte da Lusitânia romana. Mais tarde, o conceito de amor cortês, popular na Europa medieval, moldou profundamente as tradições românticas portuguesas. Trovadores e poetas celebravam o amor idealizado através de versos e gestos elaborados. Essa influência ainda hoje se sente no fado, nos bordados e na forma como os portugueses expressam o que sentem.

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A Cantarinha de Guimarães: amor em barro

Enquanto o resto da Europa trocava cartões, o Minho tinha a sua própria linguagem amorosa. A Cantarinha dos Namorados é uma peça de artesanato em barro vermelho polvilhado de mica branca, originária das olarias de Guimarães. É composta por uma cantarinha maior em baixo, símbolo da abundância, uma mais pequena por cima, que representa os desafios da vida a dois, e um pássaro no topo.

Segundo a tradição, quando um rapaz se dispunha a fazer o pedido de casamento, oferecia primeiro à namorada uma cantarinha. Se a prenda fosse aceite, o pedido estava formalizado. Após o consentimento dos pais, a cantarinha servia para guardar as joias oferecidas pela família do noivo.

A Cantarinha dos Namorados de Guimarães foi recentemente incluída no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas, por despacho publicado em Diário da República, com a Oficina Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães como titular do registo.

O lenço dos namorados: amor bordado à mão

Do Minho veio também o lenço dos namorados, conhecido também por lenço de pedido, lenço de conversados ou lenço de comprometimento , feito em linho fino ou algodão, bordado com motivos ligados ao amor, à fidelidade e ao casamento: corações, pombas, cruzes, chaves, cântaros.

A sua origem é atribuída ao Minho, com os primeiros exemplares conhecidos a datarem de finais do século XIX. Era hábito as raparigas bordarem lenços para entregar aos seus amados; se o rapaz usasse o lenço em público, era sinal de que aceitava o sentimento.

Uma das características mais curiosas destes lenços são os erros ortográficos, explicados pela pronúncia minhota transcrita foneticamente por bordadeiras com domínio parcial da escrita. Com o tempo, esses erros tornaram-se parte da identidade da peça.

Dia dos Namorados no mundo

Embora em 1969 a Igreja Católica tenha removido São Valentim do seu calendário oficial de santos, a data continuou a ser celebrada em Portugal. O 14 de fevereiro chegou a Portugal filtrado por séculos de amor cortês, de cantarinha em barro e de lenços bordados com erros propositados e ficou.

Uma última curiosidade: no Brasil, o Dia dos Namorados celebra-se a 12 de junho, véspera de Santo António. Dois países, a mesma língua, o amor com quase quatro meses de diferença.

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