Share the post "Bitcoin já caiu mais de 50%: o que se passa com a criptomoeda?"
Fevereiro de 2026 entrou para os livros de história como um dos meses mais sombrios para os investidores em criptomoedas e, particularmente, na bitcoin.
Há poucos meses, a mais famosa criptomoeda celebrava máximos históricos acima dos 126 mil dólares, mergulhou numa espiral descendente que a deixou cotada próxima dos 60 mil dólares, uma evaporação superior a 50% do valor em pouco mais de 120 dias.
O mercado cripto global viu desaparecer dois biliões de dólares em capitalização, enquanto ethereum e solana (segunda e terceira maiores criptomoedas) acumulam perdas ainda mais pesadas, próximas dos 30%.
Bitcoin e a tempestade perfeita
O que transformou uma correção normal num colapso devastador foi a conjugação de múltiplos elementos negativos. No centro desta tempestade encontra-se a política monetária norte-americana e a escolha de Donald Trump para a liderança da Reserva Federal. Kevin Warsh, conhecido defensor de juros elevados e restrição monetária, foi apontado como sucessor de Jerome Powell.
A notícia funcionou como um catalisador que acelerou vendas já em curso. Para um ativo que floresce em ambientes de dinheiro fácil e taxas baixas, a perspetiva de anos com uma Fed mais agressiva representa uma ameaça existencial.
Durante meses, os fundos cotados em bolsa (ETFs) foram celebrados como a porta de entrada da bitcoin no mundo financeiro tradicional. Essa mesma porta tornou-se agora a via de fuga preferida dos grandes investidores.
Os números são eloquentes e mais de três mil milhões de dólares abandonaram os ETFs de bitcoin apenas em janeiro. Somados aos dois mil milhões de dezembro e aos sete mil milhões de novembro, o movimento de capital revela uma mudança profunda no apetite institucional pelo ativo.
Este êxodo continuado representa um rebalanceamento de carteiras e sinaliza uma reavaliação fundamental sobre o papel da bitcoin como investimento. Quando grandes gestoras como a Fidelity registam saídas diárias superiores a 150 milhões de dólares, o mercado recebe uma mensagem clara a dizer que a fase de euforia terminou.
Bitcoin: anatomia de um colapso

Os mercados de derivados revelam uma história brutal. O interesse aberto em futuros de bitcoin encolheu de 61 mil milhões para 49 mil milhões de dólares numa única semana, uma contração superior a 20% que expôs a fragilidade das posições alavancadas.
O que se seguiu foi textbook e à medida que os preços caíam, sistemas automáticos liquidavam posições endividadas, forçando mais vendas que provocavam novas quedas. Este ciclo vicioso destruiu mais de mil milhões de dólares em posições num único dia de negociação em fevereiro, amplificando dramaticamente um movimento que começou como correção técnica.
Silicon Valley arrasta a bitcoin
A narrativa da bitcoin como ativo descorrelacionado, capaz de se mover independentemente dos mercados tradicionais, desmoronou perante a evidência dos dados. Quando o Nasdaq vacilou sob o peso das preocupações com investimentos excessivos em inteligência artificial, a bitcoin seguiu o mesmo caminho.
Amazon a perder 9% do valor após anunciar gastos massivos em IA. Palantir a derreter 19%. Oracle numa queda de 30%. E a bitcoin? Acompanhou fielmente este movimento, provando que se comporta como qualquer outra ação tecnológica de alto risco, não como o porto seguro que os seus defensores prometiam.
Mineradores sufocados
A indústria de mineração enfrenta uma equação impossível. Com custos médios de produção próximos dos 87 mil dólares por bitcoin, mas preços de mercado significativamente abaixo deste patamar, as empresas do sector não têm escolha senão desligar equipamentos. O índice de preço de hash (que mede a rentabilidade da mineração) atingiu mínimos históricos.
Empresas como a Marathon Digital responderam transferindo cerca de 87 milhões de dólares em bitcoin para corretoras, num movimento amplamente interpretado como preparação para vendas forçadas. Quando os produtores se tornam vendedores líquidos, a pressão sobre os preços intensifica-se dramaticamente.
Mito do ouro digital destroçado pelos factos
Nos últimos 12 meses, enquanto a bitcoin mergulhava 28%, o ouro verdadeiro subia 72%. Esta divergência brutal expôs a maior falácia da narrativa cripto, ou seja, a bitcoin não é, nem nunca foi, o equivalente digital do ouro.
Em momentos de turbulência geopolítica e incerteza económica, precisamente quando uma verdadeira reserva de valor deveria brilhar, os investidores fugiram em massa da bitcoin para abraçar o metal precioso tradicional.
Ethereum e Solana com sangria ainda maior
O sofrimento não se limitou à bitcoin. As restantes criptomoedas principais registaram perdas proporcionalmente superiores, demonstrando que nenhum ativo digital ficou imune à tempestade. Ethereum e solana (segunda e terceira maiores por capitalização de mercado) viram as suas cotações derreterem quase 30% desde janeiro. A maior volatilidade destes ativos reflete mercados menos líquidos e maior sensibilidade aos movimentos de pânico.
O que os investidores portugueses devem reter

Esta turbulência oferece lições valiosas para quem investe ou pondera investir em criptoativos a partir de Portugal.
Primeiro, a gestão rigorosa de risco não é opcional, é absolutamente essencial. A volatilidade da bitcoin não diminuiu com a chegada de investidores institucionais. Um ativo capaz de perder metade do valor em quatro meses exige dimensionamento cuidadoso nas carteiras.
Segundo, a bitcoin não funciona como reserva de valor de curto prazo. Quem precisar do dinheiro nos próximos meses ou anos não deve expor-se significativamente a este ativo. A preservação de capital exige instrumentos bem mais estáveis.
Terceiro, o papel potencial da bitcoin numa carteira diversificada continua válido, mas apenas se o investidor compreender e aceitar a possibilidade de perdas substanciais.
Por fim, quem investe em criptoativos deve fazê-lo com capital que pode perder sem comprometer objetivos financeiros fundamentais. Esta não é retórica conservadora, é o reconhecimento da realidade demonstrada pela história recente.