A União Europeia prepara-se para abandonar a proibição total da venda de novos veículos com motores e combustão prevista para 2035, numa reviravolta significativa e que marca uma mudança de estratégia na política climática europeia.
A decisão surge depois de meses de intensa pressão da indústria automóvel e de vários Estados-membros, que alertaram para os riscos económicos e sociais de uma transição demasiado acelerada para a mobilidade eléctrica.
Até agora, a regulamentação europeia, aprovada em 2023, estabelecia que, a partir de 2035, todos os automóveis novos vendidos na União Europeia teriam de ter emissões zero de dióxido de carbono.
Na prática, isto significava o fim da comercialização de modelos novos equipados com motores de combustão interna alimentados por combustíveis fósseis, abrindo caminho apenas aos veículos 100% eléctricos.
Motores a combustão: a nova abordagem
Segundo Manfred Weber, presidente do Partido Popular Europeu (PPE), a maior força política no Parlamento Europeu, a meta passou de uma redução de 100% para 90% das emissões de CO2.
“Também não haverá uma meta de 100% a partir de 2040. Isto significa que a proibição tecnológica dos motores de combustão sai de cima da mesa”, afirmou Weber.
A nova estratégia da Comissão Europeia permitirá a continuidade dos motores de combustão, mas apenas em automóveis abastecidos com combustíveis renováveis e de baixas emissões, como biocombustíveis avançados e combustíveis sintéticos (e-fuels).
Apostolos Tzitzikostas, Comissário para o Turismo e Transportes Sustentáveis, confirmou que a abordagem será “aberta a todas as tecnologias”, procurando uma transição “economicamente viável e socialmente justa”.
As queixas dos construtores europeus
A pressão da indústria automóvel tem sido constante e multi-facetada. Os construtores europeus apresentaram uma série de argumentos que tornaram insustentável a manutenção da proibição total.
Ritmo de adopção insuficiente. Os veículos eléctricos representam apenas 18,3% das vendas nos primeiros dez meses de 2024, muito abaixo do necessário para cumprir as metas estabelecidas.
Segundo análises de mercado independentes, se a tendência actual se mantiver, a quota de mercado de automóveis eléctricos em 2035 será de apenas 63%, longe dos 100% pretendidos pela UE.
Infraestruturas inadequadas. A Associação de Construtores Automóveis Europeus (ACEA) alertou que as infraestruturas de carregamento permanecem insuficientes. Assim, os responsáveis acreditam que a meta de 2035 “já não é realista”.
Preços elevados. Os veículos eléctricos continuam demasiado caros para muitos consumidores europeus. Mesmo os modelos de entrada de gama a gasolina tornaram-se mais caros devido às exigências regulamentares adicionais, empurrando consumidores para o mercado de usados.
Risco de emprego. A indústria alertou para a ameaça aos milhões de postos de trabalho dependentes do sector automóvel. Carlos Tavares, antigo director-executivo da Stellantis, chegou a avisar de forma dramática sobre possíveis manifestações e agitação social.
Multas pesadas. O incumprimento das metas de emissões poderia resultar em multas na ordem dos 15 a 25 mil milhões de euros anuais para os fabricantes, com cada grama de CO2 acima do limite a custar 95 euros por veículo.
Concorrência chinesa. Os fabricantes europeus enfrentam uma concorrência feroz dos construtores chineses, que dominam o mercado de veículos eléctricos com modelos mais acessíveis e competitivos, enquanto as empresas europeias lidam com custos elevados de energia e mão-de-obra.
Neutralidade tecnológica. Vários construtores, incluindo o CEO da BMW, Oliver Zipse, criticaram a imposição de “datas arbitrárias” e defenderam uma abordagem neutra do ponto de vista tecnológico, que permita diversas soluções para alcançar os objectivos climáticos.
O que muda na prática

O recuo da UE ganhou força especial depois de o Chanceler alemão Friedrich Merz ter enviado uma carta à Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apelando à revisão da legislação.
Com as novas regras, prevê-se que os motores a combustão possam continuar após 2035, desde que funcionem com combustíveis neutros em carbono ou de baixas emissões.
Pretende-se também que os híbridos plug-in e veículos com extensor de autonomia possam ter continuidade, particularmente se funcionarem com combustíveis sintéticos.
Finalmente, ajusta-se a transição para a mobilidade de baixas emissões para algo mais gradual, dando tempo à indústria para se adaptar
Motores a combustão: incertezas e desafios
Apesar do recuo anunciado, permanecem dúvidas significativas. A principal questão reside na disponibilidade e viabilidade dos combustíveis alternativos.
Os combustíveis sintéticos e biocombustíveis avançados continuam limitados por custos elevados, baixa eficiência energética e reduzida disponibilidade.
Além disso, ainda não existe uma definição jurídica ou técnica clara do que pode ser considerado “neutralidade carbónica” ou “baixa emissão” no contexto destes combustíveis, o que poderá gerar controvérsias futuras.
Mas para Manfred Weber esta mudança representa já um sinal político claro: “Envia um sinal importante para toda a indústria automóvel e assegura dezenas de milhares de empregos”.