Share the post "7 competências em IA que os profissionais portugueses vão precisar"
O mercado de trabalho português está a atravessar uma transformação tecnológica sem precedentes. Segundo dados recolhidos no último trimestre de 2025, 62% dos inquiridos em território nacional utilizam regularmente a inteligência artificial generativa, um valor significativamente superior à média europeia de 52%. Este número representa um crescimento impressionante face aos 6% registados há apenas quatro anos, colocando Portugal na linha da frente da adoção destas tecnologias na Europa.
A urgência desta transformação é sublinhada por dados internacionais. O World Economic Forum estima que cerca de 44% das competências dos trabalhadores deverão mudar até 2027. Ao mesmo tempo, o LinkedIn Future of Work Report confirma que a literacia em inteligência artificial está entre as competências que mais rapidamente crescem a nível global.
Portugal aposta mil milhões na capacitação digital
O Governo português aprovou em dezembro de 2025 um investimento integrado de cerca de mil milhões de euros na Estratégia Digital Nacional para 2026. O Pacto de Competências Digitais, com um investimento anual de 80 milhões, tem como objetivo capacitar 2,8 milhões de portugueses até 2030. Esta aposta histórica não surge por acaso.
A literacia digital da população portuguesa é baixa quando comparada com os países líderes europeus, segundo reconheceu o próprio Ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias. Os números do Eurostat de 2023 confirmam este diagnóstico: apenas 56% da população portuguesa entre os 16 e os 74 anos possui competências digitais básicas. Mais preocupante ainda é a segunda maior disparidade da União Europeia entre os níveis de competências digitais da população com educação avançada e aqueles com pouca ou nenhuma educação formal.
“A integração da inteligência artificial no mundo do trabalho não é apenas uma questão tecnológica, mas também humana. As empresas e os profissionais têm de aprender a utilizar estas ferramentas para aumentar a eficiência, sem perder de vista competências como adaptabilidade, pensamento crítico e inteligência emocional, que
serão cada vez mais determinantes nesta transformação” – Mariana Delgado, Head of Qibit (Gi Group Holding), Portugal.
7 estratégias para reforçar competências em IA
1. Compreender os fundamentos da tecnologia
Antes de mergulhar em ferramentas específicas, é fundamental perceber os conceitos básicos. Inteligência artificial, machine learning e automação não são apenas buzzwords tecnológicas, mas realidades que já transformam setores tão diversos como a banca, a saúde e a logística. Conhecer estas bases permite aos profissionais contextualizar as mudanças no seu setor específico e antecipar oportunidades.
2. Experimentar ferramentas de IA no quotidiano
Na região EMEA, onde Portugal se inclui, os profissionais que utilizam IA gastam menos 20% de tempo em trabalhos de rotina, o que lhes proporciona cerca de quatro horas por semana para se dedicarem a trabalhos mais complexos. Esta estatística da Salesforce ilustra o potencial prático da tecnologia. Ferramentas de inteligência artificial generativa podem apoiar tarefas como análise de informação, organização de ideias ou criação de conteúdos. O segredo está em começar pequeno: automatizar uma tarefa repetitiva ou pedir ajuda na estruturação de um relatório.
3. Investir em formação estruturada
A Academia Portugal Digital oferece dezenas de cursos online gratuitos sobre IA, desde o básico até à criação de conteúdos automáticos. Estas formações, com uma taxa de esforço estimada entre três e quatro horas por curso, são indicadas para quem quer iniciar a jornada na utilização de ferramentas de IA de forma consciente e sustentável. As inscrições estão abertas até dezembro de 2026. Cursos online, certificações ou formações curtas permitem desenvolver competências técnicas cada vez mais valorizadas pelas empresas que procuram talentos.
4. Desenvolver capacidade de trabalhar com dados
A literacia de dados tornou-se indissociável da literacia em IA. Saber interpretar informação digital, compreender padrões em conjuntos de dados e trabalhar com ferramentas de análise será cada vez mais relevante em funções que vão muito além da área tecnológica. Um gestor de recursos humanos que compreende métricas de retenção de talento ou um marketeer que interpreta taxas de conversão estão a usar literacia de dados no seu dia-a-dia.
5. Acompanhar tendências do setor
Seguir relatórios internacionais, especialistas e publicações sobre tecnologia ajuda a antecipar mudanças no mercado de trabalho. A própria definição de literacia digital está a mudar, exigindo-se agora saber interagir com a IA, fazer boas perguntas e avaliar criticamente as respostas. Estar informado não significa acompanhar todas as novidades tecnológicas, mas sim compreender as que impactam diretamente o seu setor ou função.
6. Adaptar competências ao contexto profissional
À medida que algumas tarefas são automatizadas, cresce a importância de competências ligadas à análise crítica, tomada de decisão estratégica e gestão de processos complexos. Em Portugal, 84% dos profissionais afirma que as suas funções vão tornar-se mais especializadas como resultado do trabalho com ferramentas de IA. Esta especialização não acontece por acaso, exige preparação intencional e vontade de evoluir para além das tarefas rotineiras.
7. Reforçar competências humanas insubstituíveis
Pensamento crítico, criatividade, comunicação eficaz e inteligência emocional tornam-se ainda mais relevantes num contexto de crescente automação. Estas são as competências que a tecnologia ainda não consegue replicar e que distinguem profissionais capazes de colaborar com IA daqueles que simplesmente a utilizam. A capacidade de liderar equipas, gerir conflitos e manter um ambiente de trabalho saudável continua a ser diferenciadora.
O futuro já começou em Portugal
Portugal posicionou-se estrategicamente para liderar a vanguarda europeia em inteligência artificial. O ministro Adjunto e da Reforma do Estado previu que o investimento no setor em Portugal venha a ultrapassar os 16 mil milhões de euros nos próximos anos, nomeadamente com a construção de gigafábricas de IA. Esta aposta cria um ecossistema favorável para profissionais que desenvolvam competências na área.
A integração da inteligência artificial no mundo do trabalho não é apenas uma questão tecnológica, mas fundamentalmente humana. As empresas e os profissionais têm de aprender a utilizar estas ferramentas para aumentar a eficiência, sem perder de vista competências como adaptabilidade, pensamento crítico e inteligência emocional. São estas competências humanas, combinadas com literacia tecnológica, que serão determinantes nesta transformação.
O desafio está lançado: num mercado onde 44% das competências vão mudar nos próximos anos, a questão não é se devemos desenvolver literacia em IA, mas quando começamos.
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Governo de Portugal. (2025b, 4 de dezembro). Pacto de Competências Digitais [Comunicado de imprensa]. XXV Governo Constitucional. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/comunicado?i=pacto-de-competencias-digitais
Governo de Portugal. (2025c). Estratégia Digital Nacional – Plano de ação 2026-2027 [Comunicado de imprensa]. XXV Governo Constitucional. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/comunicado?i=estrategia-digital-nacional-plano-de-acao-2026-2027
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