Miguel Pinto
Miguel Pinto
11 Fev, 2026 - 19:00

Diques do Mondego: o que são, como funcionam e os perigos

Miguel Pinto

Os diques do Mondego tem vindo a ser muito falados por causa das tempestades que assolam Portugal. Afinal, como funcionam?

diques do mondego

Já rebentou um dos diques do rio Mondego, junto à A1, levando as águas a galgar terreno e a obrigar a Proteção Civil a trabalhos redobrados. Trata-se de uma infraestrutura fundamental para a proteção das populações ribeirinhas que, em muitos casos, têm décadas de existência, enfrentando agora testes extremos.

Os diques fluviais são estruturas de engenharia construídas ao longo das margens dos rios com o objetivo primordial de conter as águas e prevenir inundações nas zonas adjacentes. Funcionam como barreiras físicas que impedem o transbordo do rio durante períodos de caudal elevado, protegendo campos agrícolas, habitações e infra-estruturas críticas.

Em Portugal, e particularmente na bacia hidrográfica do Mondego, estas estruturas assumem um papel vital na salvaguarda de extensas áreas de leziria e de povoações que, sem esta proteção, ficariam regularmente submersas durante os meses de maior precipitação.

Como são constituídos os diques do Mondego

A construção de um dique fluvial envolve diversas componentes técnicas que, em conjunto, garantem a sua eficácia e resistência. Compreender esta composição ajuda a perceber tanto as suas capacidades como as suas vulnerabilidades.

Estrutura Base

A maioria dos diques no vale do Mondego apresenta uma estrutura tradicional:

Núcleo central – geralmente constituído por materiais terrosos compactados, como argila e silte, que formam o corpo principal da estrutura. Esta componente proporciona o volume e a massa necessários para resistir à pressão da água.

Revestimento exterior – as faces do dique, tanto do lado do rio como do lado protegido, são frequentemente revestidas com materiais que previnem a erosão. Pode incluir enrocamento (pedras de grandes dimensões), relva ou, em casos mais modernos, geotêxteis e outros materiais sintéticos.

Berma de coroamento – o topo do dique possui uma plataforma que permite a circulação para manutenção e fiscalização, servindo também como elemento estrutural de travamento.

Elementos complementares

Além da estrutura principal, os sistemas de diques modernos integram outras características técnicas:

  • Sistemas de drenagem – canais e tubagens que controlam a água que se infiltra através ou sob o dique.
  • Válvulas e comportas – mecanismos que permitem a gestão controlada das águas.
  • Dispositivos de monitorização – equipamentos que medem pressões, deformações e níveis freáticos.

Os diques do Mondego: perigo à espreita?

vista aérea dos diques do mondego

O rio Mondego, com os seus 227 quilómetros de extensão, é o maior rio inteiramente português e nasce na Serra da Estrela. Na sua bacia baixa, particularmente entre Coimbra e a Figueira da Foz, desenvolveu-se ao longo de décadas um complexo sistema de diques (com cerca de 30 quilómetros) destinado a proteger o Baixo Mondego.

Esta região é caracterizada por terrenos aluvionares férteis, tradicionalmente dedicados à agricultura, especialmente ao cultivo do arroz. Os diques permitem que estas terras produtivas se mantenham a salvo das cheias sazonais, mas também abrigam povoações e vias de comunicação essenciais.

Muitos destes diques foram construídos há várias décadas, alguns remontando ao início do século XX. Com o passar do tempo, factores como a falta de manutenção adequada, o envelhecimento dos materiais e alterações no regime hidrológico do rio têm vindo a comprometer a sua integridade estrutural.

Sinais de alerta a ter em conta

Reconhecer os indicadores de fragilização de um dique pode fazer a diferença entre a prevenção e a catástrofe. Os técnicos especializados procuram diversos sinais durante as inspeções:

Fendas e fissuras – aberturas visíveis no corpo do dique, especialmente se aumentarem de dimensão ou se estenderem verticalmente, indicam movimentação interna dos materiais.

Infiltrações e surgências – aparecimento de água no lado protegido do dique, mesmo quando o nível do rio ainda não atingiu o topo, sugere a existência de caminhos preferenciais através da estrutura.

Deformações – abatimentos, deslocamentos laterais ou inclinações anormais revelam perda de capacidade de suporte.

Erosão – perda de material nas faces do dique, criando sulcos ou cavidades, reduz a secção resistente e pode evoluir rapidamente.

Tocas de animais – galerias escavadas por mamíferos podem criar pontos fracos críticos na estrutura.

Durante estas cheias do Mondego, vários destes sinais foram reportados em diferentes troços, levando à evacuação preventiva de zonas consideradas em risco iminente.

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O que acontece em caso de rutura

A rutura de um dique fluvial constitui uma emergência de primeira ordem, com consequências graves. O processo de colapso e os seus efeitos variam consoante diversos factores, mas seguem padrões identificáveis.

Mecanismos de colapso

Galgamento (overtopping) – quando o nível da água ultrapassa o coroamento do dique, a corrente que passa por cima erode rapidamente a face posterior, podendo provocar o colapso total em questão de minutos ou horas.

Erosão interna (piping) – a água que se infiltra através do corpo do dique ou pela sua fundação pode criar canais que aumentam progressivamente, até que a estrutura perde resistência e colapsa abruptamente.

Deslizamento – o peso da água e a saturação dos materiais podem causar o deslizamento de secções do dique, especialmente quando os taludes são demasiado íngremes ou os materiais inadequados.

Liquefação – em solos saturados e sob determinadas condições, os materiais do dique podem perder subitamente a sua coesão e comportar-se como um líquido, levando ao colapso instantâneo.

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Consequências imediatas

Onda de inundação – a água que estava contida liberta-se violentamente através da brecha, criando uma onda que pode atingir alturas consideráveis e velocidades elevadas nos primeiros momentos.

Alargamento da brecha – o fluxo inicial tende a erodir as margens da abertura, alargando-a rapidamente e aumentando o volume de água que passa. Uma brecha que começa com poucos metros pode, em horas, atingir dezenas de metros de largura.

Inundação súbita – as áreas protegidas pelo dique são inundadas de forma muito mais rápida e inesperada do que numa cheia natural, não dando tempo para evacuação ou proteção de bens.

Os diques continuarão a ser elementos fundamentais da paisagem e da segurança do Baixo Mondego. Mas é fundamental garantir que cumprem a sua função protetora reconhecendo a sua importância, compreendendo as suas vulnerabilidades e agindo preventivamente.

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