Ekonomista
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06 Mar, 2026 - 09:30

51% das empresas de trabalho temporário concentram-se em Porto e Lisboa

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Setor do trabalho temporário cresce em Portugal: 58% das empresas têm menos de 5 anos, concentração em Lisboa e Porto.

O mercado do trabalho temporário em Portugal continua a expandir-se, com uma particularidade que salta à vista: mais de metade das empresas que operam neste setor estão sediadas em apenas dois distritos. Lisboa acolhe 38% destas empresas, enquanto o Porto representa 15%, o que significa que 51% de todas as empresas de trabalho temporário do país se concentram nestas duas cidades. Os dados, divulgados pela Iberinform em março de 2026, revelam um setor jovem, dinâmico e com indicadores financeiros em melhoria.

A distribuição geográfica não se fica por aqui. Setúbal surge em terceiro lugar com 10% das empresas, seguido de Braga com 9% e Santarém com 4%. Esta concentração nos principais centros urbanos não é casual: reflecte a procura por mão-de-obra temporária nas zonas de maior densidade empresarial e industrial do país.

Um setor jovem com risco controlado

A juventude é uma das marcas distintivas deste mercado. Segundo os dados do Insight View, 58% das empresas de trabalho temporário foram fundadas nos últimos cinco anos. Isto coloca o setor numa posição curiosa: apesar de ser dominado por empresas recentes, apresenta níveis de risco relativamente equilibrados. Apenas 14% das empresas possuem níveis de risco elevado ou máximo, enquanto 62% apresentam risco médio e 24% risco baixo.

A relação entre antiguidade e risco é clara. As empresas com mais anos de atividade tendem a apresentar menor risco de incumprimento, o que faz sentido: quem sobrevive aos primeiros anos de actividade demonstra capacidade de adaptação e gestão financeira sólida.

Micro empresas vs grandes empresas

Quando se olha para o número de empresas, o cenário é esmagadoramente favorável às micro e pequenas empresas, que representam cerca de 92% do total. As médias empresas correspondem a 6% e as grandes a apenas 2%. Mas atenção: o volume de negócios conta outra história.

São as grandes empresas que lideram a faturação do setor, seguidas pelas médias. Esta inversão não é surpreendente. Uma grande empresa de trabalho temporário pode gerir centenas ou milhares de trabalhadores, enquanto uma microempresa pode operar com uma dezena. A escala faz toda a diferença neste negócio.

A antiguidade também tem o seu peso na faturação. As empresas com mais de 25 anos, apesar de representarem apenas 5% do universo empresarial, controlam 42% do volume de negócios total. As empresas com 6 a 15 anos contribuem com 25%, e as que têm entre 16 e 25 anos representam 24%. As mais jovens, com menos de 5 anos, apesar de serem maioria em número, representam apenas 9% da faturação.

Gestão financeira em melhoria notável

Os indicadores financeiros do setor mostram uma evolução positiva que merece destaque. O prazo médio de recebimento de clientes desceu de 72 para 68 dias, uma redução de quatro dias que pode parecer modesta mas que, à escala do setor, representa milhões de euros em melhor gestão de tesouraria.

Mais impressionante ainda foi a redução no prazo médio de pagamento a fornecedores: caiu de 63 para 53 dias, uma descida de 10 dias que demonstra um esforço concentrado na optimização do fluxo de caixa. Estas melhorias em ambos os parâmetros sugerem que as empresas do setor estão a investir em processos de gestão financeira mais eficientes.

Crescimento assente no mercado interno

O volume de negócios do setor cresceu mais de 8% no último período económico, um número que à primeira vista parece excelente. Contudo, há um pormenor revelador: a taxa de exportação reduziu-se em quase 8 pontos percentuais. O que isto significa? Que todo o crescimento registado se deve ao aumento da procura no mercado interno português.

Este dado tem leituras possíveis. Por um lado, pode indicar que as empresas portuguesas estão a contratar mais trabalhadores temporários, o que pode reflectir dinamismo económico ou, alternativamente, uma tendência crescente para a flexibilização laboral. Por outro, sugere que as empresas de trabalho temporário portuguesas não estão a conseguir expandir-se para mercados externos ao ritmo que crescem internamente.

O setor do trabalho temporário em Portugal apresenta-se, assim, como um mercado em expansão, geograficamente concentrado, dominado por empresas jovens mas com gigantes estabelecidos a controlar a maior fatia da faturação, e com indicadores de gestão financeira em clara melhoria. A questão que fica no ar é se esta concentração geográfica e o foco no mercado interno são sustentáveis a longo prazo, ou se o setor precisará de diversificar tanto geograficamente como em termos de mercados de atuação.

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