Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
13 Fev, 2026 - 16:00

Evacuação em 5 minutos: como agir quando a catástrofe não avisa

Cláudia Pereira

Quando chega a ordem de evacuação, os minutos contam. Saiba como preparar um plano familiar, o que levar e os erros que podem custar caro.

Ter a mochila de emergência pronta é meio caminho. A outra metade, a que a maioria das pessoas nunca pensa, é saber o que fazer quando chega mesmo a hora de sair.

E essa hora raramente avisa com antecedência: o sismo acontece a meio da noite, o incêndio já está a 800 metros quando menos se espera e a ordem de evacuação chega por SMS enquanto está no trabalho e a família está em casa. É nesses momentos que o plano faz diferença entre reagir com clareza ou entrar em pânico e perder tempo precioso.

A Proteção Civil portuguesa e a Cruz Vermelha insistem nisto há anos, mas a mensagem raramente chega: preparar uma mochila de emergência não chega se não houver um plano. E o plano começa muito antes de qualquer situação real de emergência.

O plano que pode salvar a família

Defina o ponto de encontro

A primeira peça do plano é a mais simples e a mais esquecida: toda a família precisa de saber onde se encontrar se a emergência apanhar as pessoas em sítios diferentes. Em Lisboa, existem já 86 pontos de encontro de emergência identificados pela Câmara Municipal. Noutros municípios, essa informação está disponível nos sites das câmaras ou pode ser pedida à junta de freguesia.

O ponto de encontro deve ser num local ao ar livre, afastado de edifícios altos, postes de eletricidade e árvores. E todos os membros da família, incluindo as crianças em idade escolar, devem saber chegar lá sem ajuda.

Defina dois caminhos de saída

Em caso de incêndio ou inundação, a rota habitual pode estar cortada, por isso, ter um plano alternativo é fundamental. Percorra mentalmente e fisicamente a saída do prédio ou da casa pelo menos por dois percursos diferentes. Se viver num andar alto, saiba onde ficam as saídas de emergência. Pratique com os mais pequenos esses mesmos percursos para que todos os membros da família saibam exatamente o que fazer.

Tenha contactos em papel

Quando a rede de telemóvel colapsa, como ficou provado no apagão de abril de 2025, os contactos guardados no telefone tornam-se inúteis. Uma lista simples em papel com os números de familiares, vizinhos de confiança e dos serviços de emergência (112) deve estar na mochila de emergência e na carteira de cada adulto.

Os 5 minutos que definem tudo

Quando a ordem de evacuação chega, o erro mais comum é tentar levar demasiadas coisas. Quem trabalha em proteção civil descreve sempre a mesma cena: pessoas a perder minutos a procurar objetos dispensáveis enquanto o perigo se aproxima. A regra prática é tudo o que não cabe na mochila fica para trás. Bens materiais substituem-se, as pessoas não.

Por essa razão, as cópias do Cartão de Cidadão, boletins de vacinas e apólices de seguro devem estar já plastificadas e dentro da mochila, não numa gaveta que vai ser procurada debaixo de stress. O mesmo vale para a medicação de toma regular: uma reserva de sete dias na mochila evita o improviso numa farmácia que pode estar fechada. Saiba mais como preparar uma mochila de emergência para que consiga sair de casa em 5 minutos.

O que muda consoante o tipo de emergência

Nem todas as evacuações são iguais, o que se faz num sismo é diferente do que se faz numa inundação ou num incêndio florestal, e confundir os procedimentos pode ser perigoso.

Sismo

Durante o sismo, não saia. Proteja-se debaixo de uma mesa resistente ou junto a uma parede interior, longe de janelas. Só depois de as oscilações pararem, e apenas se o edifício mostrar sinais de dano estrutural, é que se evacua, pelas escadas, nunca pelo elevador, com a mochila já em mão.

Inundação

A principal regra é não atravessar água em movimento, seja a pé ou de carro. Apenas 15 centímetros de água corrente são suficientes para deitar abaixo um adulto. A evacuação deve ser feita para zonas altas, e a mochila deve ter os documentos em invólucro impermeável.

Incêndio florestal

Se estiver numa zona de risco, a evacuação deve ser antecipada, muito antes do fogo chegar. Quando as autoridades emitem avisos, é sinal para agir. Esperar para “ver como evolui” é o erro que aparece nos relatórios de vítimas. O carro deve estar sempre apontado para a saída, com o depósito relativamente cheio nos períodos de risco.

Os erros mais comuns numa evacuação real

Quem lida com emergências em campo documenta os mesmos padrões repetidamente. O primeiro é recusar a evacuação por não acreditar que a situação é grave, o chamado “viés da normalidade”, em que o cérebro recusa aceitar que algo fora do comum está a acontecer.

O segundo é voltar atrás para buscar algo. Quando a rota de saída está aberta, usa-se. Quando está fechada por fumo ou água, já não há segunda oportunidade.

O terceiro é depender exclusivamente do telemóvel. Rede saturada, bateria esgotada, ou simplesmente sem sinal, num cenário de catástrofe, o telemóvel é o primeiro ponto de falha. O rádio portátil a pilhas continua a ser o meio mais fiável para receber informação das autoridades quando tudo o resto falha.

O que fazer depois de evacuar

A evacuação não termina quando se sai de casa. O período imediatamente a seguir é crítico e pouco discutido.

O primeiro passo é informar alguém da saída, um familiar ou amigo fora da zona afetada, para que saibam onde se está. As autoridades montam centros de acolhimento temporário que são comunicados através da rádio (Antena 1 e Rádio Renascença são as emissoras de referência em emergência nacional). Dirigir-se a um desses centros dá acesso a água, alimentação, cuidados de saúde básicos e informação atualizada.

Se tiver animais de estimação, verifique antecipadamente quais os centros de acolhimento que os aceitam, nem todos têm essa capacidade, e descobrir isso em plena emergência complica tudo. E não se esqueça do kit de emergência para animais de estimação que também deve ter pronto com antecedência.

Praticar antes de precisar

A Comissão Europeia prevê, no âmbito da sua Estratégia de Preparação de 2025, que os simulacros de emergência familiar passem a ser incentivados de forma sistemática a partir de 2026. Países como a Suécia e o Japão já têm esta cultura instalada há décadas, com resultados documentados em termos de sobrevivência.

Fazer um simulacro familiar não precisa de ser um exercício dramático. Basta sentar com a família, definir o ponto de encontro, percorrer as rotas de saída e verificar que todos sabem onde está a mochila. Vinte minutos de conversa que valem muito mais do que qualquer lista de equipamento. Porque no momento em que a catástrofe chega, não há tempo para aprender. Só há tempo para lembrar.

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