Share the post "Famílias digitais 2026: IA, robots e realidade virtual mudam tudo em casa"
Histórias para adormecer narradas por inteligência artificial, robots que dobram a roupa e preparam o jantar, aniversários celebrados em realidade virtual com a família espalhada pelo mundo. Parece argumento de série de ficção científica, mas um estudo global da Kaspersky publicado em fevereiro de 2026 sugere que estamos mais perto deste cenário do que a maioria dos pais imagina.
A investigação revela que 81% dos inquiridos acreditam que a digitalização irá transformar profundamente os momentos de lazer partilhados em família na próxima década. Em Portugal, os dados do INE de 2025 confirmam esta tendência: 90,9% dos agregados familiares já têm acesso à internet em casa, e 38,7% da população entre os 16 e os 74 anos utiliza regularmente ferramentas de IA, percentagem que sobe para 81,5% entre os estudantes.
O futuro digital da família não chegará como uma ruptura súbita. Chegará aos poucos, ecrã por ecrã, robot por robot e convém estarmos preparados.
Quando a IA é quem conta histórias ao deitar
O ritual da história antes de dormir é um dos momentos mais antigos da parentalidade. Hoje, a IA começa a reclamar esse lugar. O estudo da Kaspersky aponta que 48% dos inquiridos prevêem que histórias narradas por IA se tornem habituais nos lares, percentagem que sobe para 53% entre os jovens adultos dos 18 aos 34 anos, a geração que já cresceu com os primeiros assistentes de voz.
As aplicações existem, funcionam e têm o seu apelo: personagens personalizáveis, enredos adaptados à idade e uma paciência inesgotável para repetir a mesma história pela décima vez. Para um pai ou mãe que acabou de chegar a casa depois de um dia longo, trata-se de uma ajuda real. Para a criança, é um contador de histórias sempre disponível que nunca se irrita.
Animais de estimação digitais: o novo melhor amigo da criança?
O conceito de animal de estimação virtual não é novo, quem se lembra do Tamagotchi sabe disso. Mas a realidade crescente é diferente: 31% das famílias antecipam que as crianças preferirão animais de estimação digitais a reais na próxima década. Estes “animais” respondem ao estado emocional da criança, lembram os seus gostos e criam laços que se assemelham, do ponto de vista neurológico, aos laços com animais reais.
Se isto parece absurdo, vale recordar que a geração que hoje tem 10 anos cresceu com personagens de videojogo por quem chora a sério quando morrem. A fronteira entre o real e o digital nunca foi tão ténue, o que levanta questões sérias sobre o desenvolvimento emocional das crianças que ainda precisam de resposta. Ensinar literacia digital às crianças desde cedo é hoje tão importante quanto ensiná-las a ler.
Aniversários em videochamada e férias em realidade virtual
A pandemia normalizou a videochamada de família. O estudo da Kaspersky sugere que esta mudança veio para ficar: 43% dos inquiridos prevêem que as celebrações familiares passem a acontecer habitualmente por videochamada, deixando de ser a exceção reservada para quando alguém emigrou ou adoeceu. Mais surpreendente: cerca de 26% conseguem imaginar férias de família realizadas inteiramente em realidade virtual.
Os robots que querem ser da família e o que isso implica
O dado mais revelador do estudo pode ser este: 43% dos participantes prevêem que os robots domésticos venham a ser encarados como membros da família. Já não falamos de aspiradores autónomos, mas sim de companheiros físicos com IA, capazes de apoiar nos estudos, interagir com as crianças e proporcionar companhia a idosos.
O mercado está a materializar esta tendência. A empresa 1X Technologies lançou em 2026 o robot Neo, humanoide capaz de dobrar roupa, organizar divisões e reconhecer comandos de voz. A Tesla e a Figure AI têm os seus próprios modelos em desenvolvimento, a LG apresentou o CLOiD e a Samsung voltou a apostar no Ballie, integrado com o Google Gemini.
É aqui que a cibersegurança entra com toda a pertinência. Aos olhos de um atacante informático, cada dispositivo ligado à rede representa um ponto de entrada potencial para a casa. O robot Neo da 1X, por exemplo, funciona parcialmente com controlo remoto por operador humano, o que significa, na prática, que um estranho pode observar o interior da sua habitação.
O lado que ninguém quer ouvir
Há, contudo, riscos que os pais devem conhecer. Quando uma criança interage com uma plataforma de IA, seja para ouvir histórias, aprender ou brincar, está a partilhar dados: voz, preferências, comportamentos. A Kaspersky recomenda verificar as políticas de privacidade dos serviços utilizados e usar o controlo parental digital para garantir que a tecnologia enriquece a infância dos filhos.
Como preparar a casa digital sem abrir mão da segurança
A questão não é travar a tecnologia, seria ingénuo e inútil tentar. A questão é adotá-la com consciência. Há três áreas onde as famílias portuguesas devem estar atentas nos próximos anos.
Privacidade das crianças online
Com a proliferação de aplicações de IA para crianças como histórias, jogos, tutores virtuais, os dados dos mais novos estão cada vez mais expostos. Os pais devem escolher serviços com políticas de privacidade claras, que não armazenem dados de voz e que sejam adequados à faixa etária. O tempo de ecrã deve ser monitorizado e limitado.
Segurança da casa inteligente
Alterar as passwords de fábrica é o primeiro passo e um dos mais ignorados. Em segundo lugar, criar uma rede Wi-Fi separada para dispositivos IoT impede que um aspirador comprometido sirva de trampolim para aceder ao portátil de trabalho. Saiba mais sobre como proteger os dispositivos IoT em casa e os erros mais comuns que facilitam a vida aos atacantes.
Literacia digital como projeto de família
Em Portugal, apenas 38,7% da população entre os 16 e os 74 anos utiliza ferramentas de IA, segundo o INE 2025. Esta diferença de literacia dentro das próprias famílias, onde os filhos dominam tecnologias que os pais mal conhecem, cria vulnerabilidades reais. Saber como ensinar crianças a usar a internet em segurança não é tarefa exclusiva das escolas: começa em casa, na conversa do dia a dia.
A tecnologia entra em casa. O que fazer a seguir?
O ritmo da tecnologia está a redesenhar os seus espaços partilhados, não está a fragmentar a família. Um avô que participa num aniversário através de holograma, uma criança que cuida de um animal de estimação virtual com um irmão do outro lado do mundo, podem ser formas genuínas de proximidade, se forem construídos com intenção e cuidado.
O que determina se uma casa inteligente se torna mais segura ou mais vulnerável, se a IA aproxima ou afasta as pessoas, é a forma como cada família decide usá-la. E isso começa, invariavelmente, por uma conversa à mesa do jantar, mesmo que o jantar tenha sido preparado por um robot!