Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
24 Mar, 2026 - 10:30

Hora do Planeta 2026: quando um gesto simbólico faz 20 anos

Cláudia Pereira

No dia 28 de março, Portugal apaga as luzes durante 60 minutos. Mas será que a Hora do Planeta serve mesmo para alguma coisa ou é só mais um gesto vazio?

Sábado, 28 de março, às 20h30 em ponto, começam a apagar-se luzes em todo o mundo. Monumentos ficam às escuras, cidades diminuem o brilho e milhões de pessoas desligam interruptores ao mesmo tempo. É a Hora do Planeta, uma iniciativa que completa duas décadas e continua a dividir opiniões.

A questão que muitos fazem é simples: desligar a luz durante 60 minutos uma vez por ano muda alguma coisa?

Um gesto que começou na Austrália e conquistou o mundo

Em 2007, Sydney viveu um momento inédito. 2,2 milhões de pessoas e mais de 2 mil empresas apagaram as luzes durante 60 minutos como alerta sobre a perda da natureza devido às alterações climáticas. O protesto funcionou e no ano seguinte 135 países aderiram à iniciativa.

Portugal juntou-se em 2008 e desde então participa todos os anos. Em 2026, 84 autarquias confirmaram a sua adesão, um número que mostra o crescimento da iniciativa no território nacional. Castelos, pontes, palácios e câmaras municipais ficam temporariamente às escuras.

Este ano tem um peso extra. São 20 anos de um movimento global que transformou um simples apagar de luzes numa das maiores mobilizações ambientais do planeta. Para assinalar a data, a WWF Portugal preparou uma programação especial que inclui a exposição “Lights Off, Nature On”, patente no Centro Colombo entre 27 de março e 2 de abril.

O problema do ativismo de sofá

A própria WWF não esconde: a Hora do Planeta não foi criada para poupar energia. Sessenta minutos sem luz não vão resolver a crise climática nem fazer baixar significativamente as emissões de carbono, mas o objetivo é a consciencialização.

Mas aqui entra o dilema. Há quem argumente que estas ações criam um falso sentido de dever cumprido. Apago a luz, tiro uma fotografia, publico nas redes sociais e fico com a sensação de que contribuí para salvar o planeta. No dia seguinte, tudo volta ao normal. É o que os críticos chamam de “slacktivism“, uma mistura de “preguiça” com “ativismo” que descreve gestos de baixo esforço que dão a ilusão de participação sem produzir mudança real.

A WWF defende-se. Segundo Ângela Morgado, diretora executiva da organização em Portugal, este é um convite para parar, desligar e dedicar tempo ao que verdadeiramente importa: o futuro do nosso planeta. Não se trata apenas de apagar luzes durante uma hora, mas de usar esse momento para refletir sobre hábitos diários.

Portugal e o contexto das tempestades

Este ano, a Hora do Planeta acontece num momento particularmente sensível para Portugal. O país tem vivido semanas marcadas por tempestades sucessivas e fenómenos meteorológicos extremos, um reflexo do novo normal climático que a ciência já confirma.

As inundações, os ventos fortes e os estragos deixados pelas tempestades recentes tornam mais evidente aquilo que os cientistas repetem há anos: as alterações climáticas não são uma ameaça futura, são uma realidade presente. Neste contexto, um gesto simbólico pode ganhar outro significado, pois, pode funcionar como um lembrete de que algo precisa de mudar.

O que se passa em Portugal na Hora do Planeta

De norte a sul, dezenas de municípios participam na iniciativa. Alguns limitam-se a apagar luzes de edifícios públicos. Outros organizam atividades complementares. Valongo, por exemplo, realizou ao longo da semana plantações de árvores e palestras sobre preservação ambiental. Oeiras preparou uma sessão de yoga gratuita no átrio do Edifício Atrium. Torres Vedras apela à participação através das redes sociais.

Empresas também aderem. El Corte Inglés, Auchan, Vulcano e KPMG já confirmaram a participação. O Teatro LU.CA e o Castelo de São Jorge juntam-se ao apagão.

A exposição no Colombo quer contar a história destes 20 anos através de painéis fotográficos e cubos visuais que mostram monumentos icónicos às escuras, momentos de mobilização cidadã e imagens da natureza que este movimento pretende proteger. Haverá também atividades educativas para famílias e um jogo de tabuleiro sobre restauro ecológico.

A Hora do Planeta serve para alguma coisa?

A resposta depende da perspetiva. Se a métrica for a poupança energética imediata, não, pois, sessenta minutos sem luz não compensam meses de consumo desenfreado. Mas se o objetivo for criar um momento coletivo de reflexão, então sim, pode servir.

A Hora do Planeta não vai salvar o mundo sozinha. Nenhum gesto simbólico o faz. Mas pode funcionar como gatilho. Pode ser o empurrão que falta para alguém repensar hábitos, exigir políticas mais ambiciosas ou simplesmente perceber que as escolhas individuais somam.

O risco está em ficar por aqui. Apagar a luz no dia 28 de março é fácil. O difícil é manter essa consciência nos outros 364 dias do ano. O verdadeiro desafio não é participar numa hora global de escuridão, mas garantir que essa hora não é apenas mais um momento bonito para as redes sociais.

A Hora do Planeta pode ser o início de uma mudança ou apenas mais um gesto vazio. A diferença está no que fazemos depois de as luzes voltarem a acender.

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