Share the post "Jogo online em Portugal travou em 2025: mercado amadurece e receitas desaceleram"
O mercado regulado de jogo online em Portugal está a crescer mais devagar. Os dados do quarto trimestre de 2025, divulgados pela APAJO (Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online), mostram um cenário de maturidade: o crescimento anual das receitas brutas foi de apenas 8,49%, o valor mais baixo desde que o setor arrancou há uma década. Para contextualizar, nos primeiros anos do mercado regulado, os aumentos ultrapassavam facilmente os dois dígitos robustos.
A travagem é evolução natural de um mercado que deixou de ser novidade e entrou numa fase de consolidação. O número de contas ativas recuou 0,64% face a 2024, e o registo de novas contas despencou 21,80%. Foram criadas 910 mil contas em 2025, menos 253 mil do que no ano anterior. Até face a 2023, os números ficaram abaixo.
Estado recebe 353 milhões apesar da desaceleração
O imposto especial de jogo online (IEJO) manteve a tendência de crescimento, embora também mais lenta, e atingiu um recorde de 353 milhões de euros em 2025. Representa um aumento de 5,47% comparado com 2024. Não é mau para os cofres públicos, mas a trajectória mostra claramente que o ritmo alucinante dos primeiros anos acabou.
As receitas brutas totais do jogo online fixaram-se em 1.206 milhões de euros. Dentro deste valor, os jogos de fortuna ou azar (slots, roleta, blackjack e companhia) geraram 759 milhões, com crescimento anual de 11,85%. Já as apostas desportivas à cota somaram 447 milhões de euros, subindo apenas 3,23%. Este último número é particularmente revelador: o volume de apostas desportivas até desceu 0,90% face ao ano anterior.
Casinos físicos também recuam
A desaceleração não se limita ao digital. Os casinos territoriais viram as suas receitas brutas recuarem 1,15% em 2025, e as salas de bingo perderam 1,56%. O padrão é consistente: depois de anos de crescimento pós-pandemia, o setor do jogo em Portugal está a estabilizar em todos os canais.
A indústria encara esta evolução como natural num setor que completa 10 anos e beneficiou do boom da digitalização do consumo. – Ricardo Domingues, presidente da APAJO
O elefante na sala: 40% jogam ilegalmente
Enquanto o mercado regulado desacelera, há um problema que não desaparece: quatro em cada dez portugueses que apostam online fazem-no em plataformas ilegais, segundo dados citados pela APAJO no final de 2025. São operadores sem licença do SRIJ (Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos), que não pagam impostos em Portugal, não cumprem regras de proteção ao jogador e movimentam dinheiro fora do radar das autoridades.
Domingues sublinha a necessidade de “dar um salto decisivo no combate ao jogo ilegal” e atualizar a oferta do mercado licenciado para acompanhar a procura. A mensagem é clara: se o mercado legal não evolui e se a fiscalização não aperta, os jogadores vão continuar a procurar alternativas noutros lugares.
Autoexclusões recuam pela primeira vez
Num indicador que merece atenção, o número de novas autoexclusões diminuiu 1,06% em 2025, a primeira queda desde que há registos. O total de contas autoexcluídas no quarto trimestre foi de 361 mil, com o menor crescimento homólogo de sempre (23,6%).
A APAJO esclarece que estes números são acumulados ao longo dos anos e refletem sobretudo o reforço dos mecanismos de proteção e a crescente utilização voluntária das ferramentas pelos utilizadores. Ainda assim, o recuo pode indicar tanto uma estabilização do comportamento de jogo como uma menor adesão às medidas de autocontrolo. Os dados não permitem concluir qual das hipóteses prevalece.
Mercado maduro pede estratégia nova
A mensagem final dos dados de 2025 é inequívoca: o mercado de jogo online em Portugal deixou de ser uma fronteira de crescimento exponencial. A fase de expansão acelerada terminou. O que vem a seguir depende de três factores críticos.
Primeiro, a capacidade dos operadores licenciados de inovar na oferta e manter os jogadores dentro do mercado regulado. Segundo, a eficácia das autoridades no combate às plataformas ilegais, que continuam a drenar uma fatia gigante do mercado. Terceiro, o equilíbrio entre geração de receita fiscal e proteção dos jogadores, num setor que historicamente oscila entre estas duas prioridades.
O sector contribui de forma relevante para a economia nacional e para o financiamento de áreas de interesse público, mas a estabilização das receitas e a queda no número de novos jogadores exigem repensar a estratégia. Dez anos depois do lançamento, o mercado regulado português demonstrou capacidade para oferecer um ambiente seguro e transparente. Agora precisa de provar que consegue competir com quem joga fora das regras.