Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
12 Fev, 2026 - 20:00

Mochila de emergência: o que levar quando há 5 minutos para sair

Cláudia Pereira

Kit de emergência para evacuação rápida: o que a ANEPC e a UE recomendam para sobreviver 72 horas sem luz, água ou rede móvel.

Quando o sismo acontece, quando o rio sobe depressa demais ou quando o incêndio está a dois quilómetros, não há tempo para pensar. Há tempo para pegar na mochila e sair. O problema é que, para a maioria dos portugueses, essa mochila não existe ou existe com coberturas de pó e comprimidos fora do prazo de validade.

O apagão de 28 de abril de 2025, que deixou Portugal e Espanha sem eletricidade , tornou urgente o que muitos adiavam. As prateleiras de lanternas e rádios a pilhas esvaziaram em horas. As filas nas bombas de gasolina lembraram, de forma bastante concreta, que a dependência de sistemas eletrónicos tem um custo quando esses sistemas deixam de funcionar.

A resposta, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e a Comissão Europeia, chama-se mochila de emergência e deve estar pronta antes de precisar dela.

A regra das 72 horas: de onde vem e o que significa

A Estratégia de Preparação da União Europeia, lançada em 2025, estabelece um princípio simples: cada cidadão europeu deve conseguir subsistir durante os primeiros três dias após uma emergência sem depender de qualquer apoio externo. Setenta e duas horas em que os serviços de saúde podem estar sobrecarregados, os supermercados fechados, a rede de telemóvel saturada e a água da torneira, simplesmente, ausente.

A UE prevê ainda integrar estes conteúdos nos currículos escolares a partir de 2026, o que diz muito sobre a seriedade com que Bruxelas encarou o tema depois de anos a adiar a conversa. Portugal subscreveu as recomendações, com a ANEPC a adaptar as orientações europeias à realidade nacional, que inclui risco sísmico, incêndios florestais e inundações costeiras, entre outros cenários plausíveis.

Em Lisboa, a Câmara Municipal foi mais longe e definiu já 86 Pontos de Encontro de Emergência com capacidade para mais de 600 mil pessoas. Saber onde fica o ponto de encontro mais próximo da sua casa é, em si mesmo, parte da preparação.

Veja também Kit de sobrevivência de 72 horas: preparado para o inesperado?

O que deve ter na mochila de emergência

A mochila deve ser leve, resistente e guardada num local que toda a família conheça, preferencialmente junto à saída de casa. O objetivo é poder agarrá-la e sair em menos de dois minutos.

Água e alimentação

A ANEPC recomenda pelo menos 3 litros de água por pessoa por dia, o que equivale a 9 litros para três dias. Garrafas pequenas pesam, mas são mais fáceis de distribuir e transportar. Para a alimentação, a lógica é simples: tudo o que não precise de ser cozinhado e não se estrague depressa como enlatados de atum, feijão ou salsichas, barras energéticas, frutos secos e biscoitos secos. Evite alimentos muito salgados porque aumentam a sede e o consumo de água, que pode escassear.

Saúde e primeiros socorros

O estojo básico deve incluir pensos, ligaduras, compressas, tesoura, pinça, desinfetante e paracetamol. A DECO recomenda ainda anti-inflamatórios como ibuprofeno, um antidiarreico, termómetro e soro fisiológico. Se algum membro da família toma medicação regular (para a tensão, diabetes ou outra condição crónica) guarde sempre uma reserva extra na mochila, suficiente para pelo menos uma semana. Não se esqueça das máscaras cirúrgicas, que voltaram a fazer sentido depois dos últimos anos.

Comunicação e iluminação

Num cenário de falha elétrica, o telemóvel é o primeiro a falhar e o rádio portátil a pilhas é o que resta. É através de emissoras rádio que as autoridades comunicam em situações de emergência nacional. Uma lanterna com pilhas sobresselentes e um powerbank carregado completam o essencial desta categoria.

Documentos e dinheiro físico

Cópias plastificadas do Cartão de Cidadão, boletim de vacinas e eventuais autorizações médicas devem ser incluídas na mochila. E, num pormenor que o apagão de 2025 tornou evidente para muita gente: dinheiro vivo, pois, os multibanco sem energia não funcionam.

Itens de conforto e sinalização

Um apito e colete refletivo servem para sinalizar a presença em ambientes com pouca visibilidade ou muito ruído. Cobertores térmicos isotérmicos, também conhecidos como mantas de sobrevivência, cabem no bolso de uma mochila e refletem até 90% do calor corporal. Uma muda de roupa quente, artigos básicos de higiene pessoal (toalhitas, sabão, papel higiénico) e, se houver animais de estimação em casa, ração e documentos veterinários completam o kit de emergência para os animais.

Adaptar o kit à sua família

Uma mochila não serve todos da mesma forma. Famílias com bebés precisam de leite em pó, fraldas e papas. Idosos com mobilidade reduzida podem necessitar de equipamentos específicos ou de uma mochila mais leve, distribuída entre vários elementos. Pessoas com doenças crónicas devem garantir stocks de insulina, anticoagulantes ou outros fármacos de toma obrigatória e conservar os que exigem frio numa bolsa térmica de emergência.

A ANEPC aconselha ainda que todos os membros da família saibam onde está a mochila, conheçam o ponto de encontro de emergência mais próximo e tenham memorizados ou escritos em papel os contactos essenciais de familiares e serviços de emergência, como o número europeu de emergência que é o 112.

Importância de manutenção regular da mochila de emergência

Montar a mochila uma vez não chega. A ANEPC e a Proteção Civil de Lisboa recomendam revisões semestrais para verificar prazos de validade de alimentos e medicamentos, o estado de pilhas e powerblanks e a adequação do kit às mudanças da família, por exemplo, um bebé que nasceu, uma medicação nova, uma pessoa que saiu de casa.

Guardar o kit num local seco, acessível e do conhecimento de todos os elementos do agregado é tão importante quanto o seu conteúdo. De nada serve a mochila perfeita num armazém que ninguém abre há dois anos.

Estar pronto não é paranoia, é literacia de segurança

O território português tem especificidades que justificam atenção adicional. O risco sísmico é real: a falha Açores-Gibraltar continua ativa e o precedente do terramoto de 1755 não é apenas história. Os verões trazem incêndios florestais que exigem evacuações rápidas em zonas rurais. E os invernos, como o de 2026 tem demonstrado, trazem inundações que afetam rios do Norte ao Sul do país, com o Tejo, o Mondego e o Vouga a figurar regularmente nos alertas da ANEPC.

A Tempestade Kristin, em fevereiro de 2026, voltou a ativar planos de emergência em dezenas de municípios e a colocar o plano da bacia do Tejo em nível vermelho. A mochila de emergência é, neste contexto, um argumento simples contra o improviso.

Preparar uma mochila de emergência é o equivalente a ter extintor em casa ou cinto de segurança no carro: não significa que espera que algo corra mal, significa que, se correr, está em melhor posição para responder.

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