O comboio de tempestades que tem atingido Portugal segue a todo o vapor. Agora é a depressão Nils, a 14ª tempestade nomeada da época 2025/2026, numa lista coordenada entre o IPMA e os serviços meteorológicos de Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo e Andorra.
O centro desta depressão deverá situar-se próximo do Canal da Mancha, o que significa que o impacto direto em Portugal será menos severo do que o provocado por Kristin ou Marta.
Ainda assim, a circulação associada ao sistema favorecerá a entrada de ar húmido e instável, com consequências concretas para o território continental.
O que está previsto para os próximos dias
- Chuva moderada a forte no Norte e Centro, com acumulados significativos em 24 horas, especialmente nas zonas montanhosas.
- Risco elevado de cheias e aumento de caudais em rios e ribeiras.
- Agitação marítima ao longo da costa ocidental, com ondas que poderão ultrapassar quatro a cinco metros.
- As bacias hidrográficas do Douro, Vouga e Mondego sob vigilância apertada.
- O vento não deverá atingir valores particularmente perigosos no continente.
Comboio de tempestades: de que estamos a falar?
O termo pode soar a imagem poética, mas a explicação é rigorosamente científica. Um comboio de tempestades é uma sucessão contínua de depressões atlânticas que se formam umas atrás das outras e percorrem sempre o mesmo corredor, de oeste para leste, em direção à Península Ibérica.
Basicamente, é um processo em que depressões vão passando sucessivamente, umas atrás das outras, circulando sempre no mesmo trajeto.
O resultado prático é que o país não tem tempo de recuperar entre um episódio de mau tempo e o seguinte. Quando os serviços de emergência ainda respondem às consequências de uma tempestade, a próxima já está a caminho.
Este fenómeno não é novo, mas a sua intensidade e duração no inverno de 2025/2026 é, segundo os especialistas, excecional e talvez o mais longo comboio de tempestades em muitos anos.
Por que está portugal na rota de tantas tempestades?

A resposta está numa combinação de fatores atmosféricos que “condições quase perfeitas” para a repetição e severidade dos fenómenos.
A corrente de jato, o fluxo de ventos de alta altitude que guia as depressões pelo Atlântico Norte, encontra-se posicionada mais a sul do habitual, apontando diretamente para a Península Ibérica.
O anticiclone dos Açores, que em condições normais funciona como um escudo natural e desvia as tempestades para norte, está enfraquecido e fora da sua localização habitual.
Isto abre o corredor para que entrem frentes atlânticas, depressões e tempestades de grande dimensão.
Soma-se a isto a persistência anómala de um anticiclone sobre a Escandinávia, que bloqueia o escoamento para leste e obriga as tempestades a “empilharem-se” sobre a Europa Ocidental.
O que é um rio atmosférico?
Para além do comboio de tempestades, outro conceito tem estado na boca dos meteorologistas nas últimas semanas, o rio atmosférico.
Trata-se de um processo que leva a que exista uma contínua alimentação de ar subtropical, húmido e com bastante vapor de água, que se junta à corrente de jato.
O resultado é um mecanismo que prolonga o temporal e potencia os impactos das depressões, ou seja, não é apenas chuva intensa, é um sistema que se auto-alimenta e raramente dura menos de uma semana.
No caso do inverno de 2025/2026, um rio atmosférico com origem nas Caraíbas foi identificado como um dos elementos que contribuiu para a catástrofe..
O que é um comboio de tempestades? É uma sequência de depressões
atlânticas que se sucedem no mesmo corredor atmosférico, de oeste
para leste, sem que o território tenha tempo de recuperar entre cada episódio.
O que é um rio atmosférico? É um fluxo contínuo de ar subtropical
húmido e carregado de vapor de água que alimenta e prolonga os
episódios de precipitação, potenciando os impactos das depressões.
A depressão Nils vai ser tão grave como a Kristin? Não. O impacto
previsto de Nils em Portugal é menos severo. O risco principal não é o
vento, mas a chuva persistente num território já saturado, que aumenta
o perigo de cheias e deslizamentos.
Porque é que o IPMA não vai nomear a depressão Nils? Porque os
critérios de nomeação exigem a emissão de aviso laranja de vento.
Uma vez que Nils não deverá atingir esses valores no continente
português, o IPMA não procederá à sua nomeação, embora Espanha
ou França possam fazê-lo.
As tempestades e o rasto de destruição

O “comboio de tempestades” que tem varrido Portugal desde o final de janeiro inclui algumas das mais destrutivas das últimas décadas.
Ingrid (22 e 23 de janeiro) abriu o ciclo com chuva intensa, vento forte e queda de neve em cotas relativamente baixas, levando o IPMA a emitir avisos laranja e vermelho. Registou-se uma vítima mortal.
Joseph chegou pouco depois, mantendo a instabilidade e provocando danos em Espanha e Portugal.
Kristin foi a mais devastadora. Com rajadas de vento que chegaram a ultrapassar os 200 km/hora e precipitação persistente, provocou quedas de árvores, estradas cortadas, casas danificadas e longos cortes no fornecimento de eletricidade, com as regiões de Leiria e do oeste entre as mais afetadas.
Foi, segundo os especialistas, um fenómeno insólito e singular em Portugal, agravado pela presença de um sting jet, um jacto descendente de vento raro na costa portuguesa. Causou 11 vítimas mortais.
Leonardo prolongou a instabilidade em inícios de fevereiro, com o IPMA a prever chuva duas a três vezes acima da média em algumas regiões e a registar mais duas mortes.
Marta chegou no fim de semana de 7 e 8 de fevereiro (mesmo durante a segunda volta das eleições presidenciais portuguesas), provocando mais uma vítima mortal e obrigando ao adiamento do ato eleitoral em alguns concelhos severamente afetados, como Golegã, Arruda dos Vinhos e Alcácer do Sal.
No total, este comboio de tempestades já causou 15 mortes , centenas de desalojados, milhares de ocorrências registadas pela Proteção Civil e danos significativos em infra-estruturas. O país encontra-se em estado de calamidade até 15 de fevereiro.