Miguel Pinto
Miguel Pinto
20 Mar, 2026 - 14:30

Um litro de água radioativa por dia: passeio às Termas de Radium

Miguel Pinto

Ali pelos lados da Serra da Pena, perto de Sortelha, há umas ruínas que contam histórias de antanho. Viagem às Termas de Radium.

Termas de radium

Quem viaja na estrada que liga Caria a Sortelha, no distrito da Guarda, depara-se de repente com uma visão que desafia a expectativa. Entre os rochedos graníticos da Serra da Pena, ergue-se uma estrutura monumental que, à distância, se confunde facilmente com um castelo.

Não tem placa a anunciá-la, não há bilheteira nem guia turístico. Há apenas o silêncio da serra, os pinheiros, e aquele edifício imponente a olhar o vale com a sobranceria de quem já viu muito.

Bem-vindo às Termas de Radium, ou Hotel da Serra da Pena, como também é conhecido. Um dos lugares abandonados mais fascinantes e mais carregados de história de todo o Portugal.

Da descoberta do rádio ao hotel no meio da serra

Para perceber as Termas de Radium, é preciso recuar ao final do século XIX e ao entusiasmo quase ingénuo que a ciência da época trazia consigo.

Quando Marie e Pierre Curie descobriram o rádio, em 1898, este elemento químico rapidamente se tornou uma sensação no campo da medicina.

Acreditava-se que o seu uso tinha propriedades terapêuticas e que as águas com rádio podiam curar doenças de pele, problemas ósseos, circulatórios e renais.

Na Serra da Pena, a natureza oferecia algo raro. Analisadas as águas das nascentes da região envolvente, descobriu-se terem urânio dissolvido e serem das mais radioativas do mundo, facto que até foi divulgado num congresso internacional que teve lugar em Lyon em 1927.

E foi aqui que entrou a lenda. A história das Termas de Água de Radium tem um mito na sua origem.

Um conde espanhol, chamado D. Rodrigo, terá vindo caçar por aquelas bandas entre 1910 e 1920. Os locais diziam que as águas da serra eram milagrosas. O conde levou algumas garrafas para tratar uma doença de pele da filha, com resultados tão surpreendentes que decidiu construir ali um hotel termal.

Em 1922 foi obtido o alvará para a exploração de três nascentes junto às minas, onde foi atestada a presença de elementos radioativos

Quatro anos depois, o jornal regional “A Serra” falou pela primeira vez no hotel, que teria capacidade para 150 pessoas.

Luxo, ciência e um litro de água radioativa por dia

fachada das termas de radium

Nos anos 20 e 30 do século passado, o Hotel da Serra da Pena era um destino de eleição para quem procurava saúde, ou pelo menos acreditava que a procurava.

O Hotel da Serra da Pena, hoje em ruínas, chegou a ter 90 quartos e capacidade para 150 hóspedes. As instalações incluíam banhos termais, aplicações de lamas, lavagens do cólon e até tratamentos com compressas elétricas, práticas comuns na época. Os clientes eram ainda aconselhados a beber um litro por dia de água radioativa.

Construído num estilo neo-mourisco e medieval, em granito sólido, o hotel foi desenhado para acolher os hóspedes com um chef internacional na cozinha e jardins plantados com milhares de arbustos e árvores.

A fama das “Águas Rádium, dá saúde, vigor e força” rapidamente se espalhou. A empresa inglesa que explorava o local exportava garrafas para o estrangeiro, nomeadamente para Londres. As nascentes tinham até nomes que misturavam ciência com orgulho nacional. As três nascentes principais, Chão da Pena, Favacal e Malhada, eram também conhecidas como Curie 1, 2 e 3. Outras duas nascentes, Lusitânia e Milagrosa, serviam a unidade de engarrafamento.

O fim: quando a ciência mudou de ideias

O que a ciência dá, a ciência também tira. E foi exatamente isso que aconteceu com as Termas de Radium. Com o avanço da ciência e a descoberta dos perigos da radioatividade, as termas entraram em declínio. O complexo foi encerrado em 1945, e o hotel passou por mãos espanholas, inglesas e francesas antes de ser definitivamente abandonado.

A saída foi humilhante. Num texto de opinião publicado no jornal “Capeia Arraiana”, um cronista recorda a pilhagem ao Hotel Serra da Pena em 1954 ou 1955: “O gerente, como não lhe pagavam e adivinhava a falência que se avizinhava, resolveu pagar-se por suas próprias mãos. Arrancou tudo o que era metal, torneiras, chuveiros, tubagens, apetrechos da enorme cozinha do hotel e das termas. Levou tudo em camiões e despachou a carga para Lisboa.”

Em 1985, o complexo termal foi leiloado em Lisboa. Atualmente é propriedade de um português que tem, há vários anos, um projeto para transformar o espaço num hotel de luxo com campo de golfe, mas o projeto permanece por concretizar.

Ruínas que não perderam a grandiosidade

Setenta anos de abandono têm um peso enorme, mas não apagaram a magnificência deste lugar. Algumas das suas paredes, construídas com grandes paralelepípedos de granito, continuam de pé. No alto, em destaque, ainda há colunas rematadas por pináculos e frisos recortados a evocar ameias.

Numa torre de que já só restam três lados, as janelas são duplas, arcos de volta inteira com uma coluna a separá-las. Noutras paredes, são ogivais.

Todo o complexo é um jogo de volumes diferentes, cada edifício com o seu próprio formato e características e o efeito final é harmonioso, mesmo faltando-lhe já muitos dos seus elementos essenciais.

No meio da vegetação desalinhada ainda se vêem pedaços de chão com mosaicos decorados com padrões geométricos, cores sóbrias acinzentadas pelo tempo e pela humidade.

É possível subir as escadas exteriores da entrada principal, que já não conduzem a lado nenhum porque essa parte do hotel cedeu, mas oferecem uma vista única sobre o conjunto do edifício.

Alguns quartos no andar inferior ainda são acessíveis e apresentam características arquitetónicas interessantes e pinturas murais parcialmente apagadas.

Como chegar às Termas de Radium

vista das termas

Chegar às Termas Radium é simples e os acessos são bons. Saindo da A23, são apenas mais uns 15 minutos. Se vier da aldeia de Sortelha, são menos de 10 minutos de viagem. Em qualquer das estradas de acesso, o edifício identifica-se facilmente ao longe.

Na estrada de acesso surge um caminho de terra. É possível estacionar no início desse caminho, onde cabe um ou dois carros, ou avançar uns 110 metros até um largo antes de o caminho começar a subir.

Mas não se recomenda ir de carro além desse ponto. Daqui são cerca de 600 metros a pé até ao edifício principal. À beira da estrada, um penedo com uma seta indica o caminho que conduz às ruínas, parcialmente escondidas entre a vegetação.

A entrada é livre e o local não tem horários definidos. Mas é preferível visitar de dia e com calçado adequado, pois o terreno é irregular.

Veja também