Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
06 Mar, 2026 - 18:30

Presidente da Assembleia da República: o segundo cargo mais importante do Estado Português

Cláudia Pereira

Descubra quem é o Presidente da Assembleia da República, as suas funções políticas e por que razão este cargo é considerado o segundo na hierarquia do Estado português.

O Presidente da Assembleia da República ocupa o segundo posto mais importante na hierarquia protocolar do Estado português. Esta posição coloca-o imediatamente a seguir ao Presidente da República e à frente do próprio Primeiro-Ministro na ordem de precedência oficial, um facto que surpreende muitos cidadãos que desconhecem o peso institucional deste cargo.

O cargo existe desde a instauração da República em 1910, embora tenha passado por várias designações ao longo da história. Durante o Estado Novo chamava-se Presidente da Assembleia Nacional, e após o 25 de Abril de 1974 ganhou a designação atual, refletindo o caráter democrático das novas instituições. Ao longo de quase 50 anos de democracia, apenas 15 pessoas ocuparam esta posição.

O que faz o Presidente da Assembleia da República

A função principal passa por dirigir os trabalhos parlamentares e garantir o funcionamento regular do órgão legislativo. Cabe-lhe presidir às sessões plenárias, assegurar o cumprimento do regimento interno e moderar os debates entre os deputados das diferentes bancadas partidárias.

Esta figura representa o Parlamento nas relações com outros órgãos de soberania e perante o exterior. Quando recebe visitas de Estado ou delegações estrangeiras, é o Presidente da Assembleia quem fala em nome dos 230 deputados eleitos pelos portugueses.

Uma das responsabilidades menos conhecidas é a substituição do Presidente da República. Sempre que o Chefe de Estado se ausenta do país ou fica temporariamente impedido, é o Presidente da Assembleia quem assume interinamente as funções presidenciais. Esta competência explica por que razão o cargo ocupa o segundo lugar na hierarquia constitucional, independentemente de quem o ocupe.

Presidentes da Assembleia da República

1. Vasco da Gama Fernandes (1976-1980)

2. Teófilo Carvalho dos Santos (1980-1983)

3. Leonardo Ribeiro de Almeida (1983-1985)

4. Francisco de Oliveira Dias (1985-1987)

5. Manuel Tito de Morais (1987-1988)

6. Fernando Amaral (1988-1990)

7. Manuel Tito de Morais (1990-1991)

8. Vítor Crespo (1991-1996)

9. António Barbosa de Melo (1996-1999)

10. António Almeida Santos (1999-2002)

11. João Bosco Mota Amaral (2002-2005)

12. Jaime Gama (2005-2011)

13. Maria da Assunção Esteves (2011-2015)

14. Eduardo Ferro Rodrigues (2015-2022)

15. Augusto Santos Silva (2022-2024)

16. José Pedro Aguiar-Branco (2024-presente)

Como se elege o Presidente da Assembleia

A eleição acontece sempre no início de cada legislatura, logo após as eleições legislativas. Os 230 deputados escolhem um dos seus pares através de votação secreta, sendo necessária maioria absoluta na primeira volta. Se nenhum candidato alcançar essa maioria, realiza-se uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados. Caso nenhum seja eleito nesta segunda volta, o processo é reaberto.

Tradicionalmente, o cargo tem sido ocupado por um deputado do partido mais votado nas eleições, mas não existe qualquer obrigação constitucional nesse sentido. A prática política portuguesa desenvolveu este costume ao longo das décadas de democracia, criando uma convenção não escrita que contribui para a estabilidade institucional.

O mandato dura enquanto durar a legislatura, tipicamente quatro anos, mas pode ser interrompido por dissolução da Assembleia ou renúncia do titular. Ao longo da história democrática portuguesa, alguns presidentes cumpriram mandatos curtos devido a eleições antecipadas, enquanto outros permaneceram no cargo por períodos mais longos que abrangeram múltiplas legislaturas.

Os poderes pouco conhecidos

Para além de presidir aos debates, este cargo tem poderes específicos que moldam o quotidiano político português. O Presidente da Assembleia pode chamar à atenção qualquer deputado que perturbe os trabalhos, retirar-lhe a palavra por comportamento inadequado e até aplicar sanções disciplinares em casos graves.

Compete-lhe também fixar a ordem de trabalhos em articulação com a Conferência de Líderes Parlamentares. Esta prerrogativa torna-o num verdadeiro gestor da agenda legislativa nacional, decidindo quando se debatem os diversos projetos e propostas de lei que chegam ao Parlamento.

O Presidente nomeia os funcionários da Assembleia, gere o orçamento do Parlamento e autoriza as despesas necessárias ao funcionamento da instituição. Administra um dos maiores orçamentos entre os órgãos de soberania e coordena mais de mil funcionários que garantem o funcionamento diário do Parlamento.

Veja também Assembleia da República: como funciona o Parlamento onde se decide o futuro de Portugal

O papel na fiscalização constitucional

Sempre que a Assembleia aprova uma lei, o Presidente tem de a enviar ao Presidente da República para promulgação. Antes disso, verifica se o diploma cumpre os requisitos formais e pode solicitar fiscalização preventiva ao Tribunal Constitucional se considerar que existem dúvidas sobre a constitucionalidade das normas aprovadas.

Esta competência transforma-o num primeiro filtro de legalidade antes de as normas entrarem em vigor. Embora raramente utilizada, a faculdade de pedir fiscalização preventiva representa um importante contrapeso no sistema de separação de poderes que caracteriza a democracia portuguesa.

Representação internacional

O Presidente da Assembleia representa o Parlamento português em organizações interparlamentares como a União Interparlamentar ou a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Participa em cimeiras internacionais, recebe homólogos estrangeiros e promove a diplomacia parlamentar que complementa a ação do Governo nas relações externas.

Estas funções de representação externa têm ganhado relevância crescente. Os contactos entre parlamentos nacionais facilitam a cooperação internacional e permitem trocar experiências sobre desafios legislativos comuns, desde questões ambientais até à regulação de novas tecnologias.

Quem pode ser Presidente da Assembleia

Qualquer deputado em pleno exercício de funções pode candidatar-se ao cargo, desde que não esteja suspenso ou impedido por razões disciplinares. Na prática, os candidatos são sempre figuras experientes com várias legislaturas de experiência parlamentar e reconhecimento entre os diferentes partidos.

O perfil típico combina experiência parlamentar, capacidade negocial e reconhecimento transversal das bancadas. Muitos presidentes têm no currículo passagens pelo Governo como ministros ou secretários de Estado, o que lhes confere conhecimento profundo do funcionamento das instituições.

A neutralidade política torna-se essencial após a eleição. Embora conserve a filiação partidária, o Presidente deve conduzir os trabalhos com imparcialidade, tratando todas as bancadas de forma equitativa. Esta exigência de isenção cria tensões ocasionais, especialmente em momentos de maior polarização política ou quando o partido do Presidente está envolvido em polémicas.

A remuneração e regalias do cargo

O Presidente da Assembleia da República aufere um vencimento mensal bruto de 9.374,55 euros (valores de 2025), que corresponde a 80% do vencimento do Presidente da República. Este valor inclui o salário base e as despesas de representação, que equivalem a 40% do vencimento. O vencimento aproxima-se dos valores pagos aos membros do Governo, situando-se na faixa dos vencimentos mais elevados da função pública.

O Presidente usufrui de residência oficial no Edifício Novo de São Bento, inaugurado em 1999 e projetado pelo arquiteto Fernando Távora. Este edifício, situado junto ao Palácio de São Bento, dispõe ainda de gabinetes de trabalho, salas de reuniões e um anfiteatro. O cargo inclui motorista, assessores e um gabinete com vários funcionários que apoiam a atividade diária. Estas regalias justificam-se pela representatividade do cargo e pelas exigências de disponibilidade total que o trabalho parlamentar impõe.

Após deixar o cargo, mantém o estatuto de antigo Presidente da Assembleia, uma distinção honorífica que lhe confere precedência protocolar em cerimónias oficiais, conforme estabelecido na Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português. Não existe, contudo, qualquer pensão especial ou benefício financeiro adicional para além da reforma normal a que tenha direito como deputado.

Como acompanhar a política portuguesa

O Presidente da Assembleia da República é muito mais do que a segunda figura protocolar do Estado. É quem garante o funcionamento regular da democracia portuguesa, modera debates em momentos de tensão e assegura que todas as vozes políticas têm espaço no hemiciclo. Num país onde as maiorias absolutas são raras, este cargo torna-se essencial para a estabilidade institucional.

Compreender como funcionam as instituições é fundamental para uma cidadania informada. Saber quem tem poder e como o exerce ajuda a acompanhar melhor as decisões que moldam o país.

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