Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
05 Fev, 2026 - 12:00

Presidente vs Primeiro-Ministro: quem tem poder real em Portugal?

Cláudia Pereira

Descubra as diferenças de poder entre Presidente e Primeiro-Ministro em Portugal. Quem decide o quê? Explicamos os papéis de cada um de forma clara e prática.

Portugal tem dois líderes no topo da pirâmide política, mas só um manda verdadeiramente no dia a dia do país. O Presidente da República vive em Belém e parece ser a figura máxima, mas quem governa de facto é o Primeiro-Ministro, instalado em São Bento. Esta dualidade confunde muitas pessoas, especialmente quando surgem crises políticas ou decisões importantes que envolvem ambos.

A confusão é compreensível, pois, vemos o Presidente a receber chefes de Estado estrangeiros, a fazer discursos solenes e a representar Portugal no mundo. Mas quando olhamos para as medidas concretas que afetam o nosso quotidiano, como impostos, salários, saúde ou educação, quem decide é o Governo liderado pelo Primeiro-Ministro. Então, onde está realmente o poder?

O Primeiro-Ministro: quem governa no quotidiano

O Primeiro-Ministro é o chefe do Governo e é ele quem manda na administração do país. Após as eleições legislativas, o partido ou coligação com mais deputados na Assembleia da República forma governo, e o seu líder torna-se Primeiro-Ministro.

O poder executivo está nas mãos do Primeiro-Ministro e da sua equipa de ministros. São eles que elaboram o Orçamento do Estado, definem políticas públicas, gerem a saúde, educação, segurança, economia e tudo o que mexe diretamente com a vida das pessoas. Quando há uma greve de professores, uma reforma da saúde ou mudanças nos impostos, a responsabilidade é do Governo.

O Chefe do Governo responde perante a Assembleia da República. Se os deputados deixarem de confiar nele, podem aprovar uma moção de censura e derrubar o Governo. Esta dependência do parlamento torna o cargo simultaneamente poderoso e frágil. Tem os meios para governar, mas precisa de apoio parlamentar para sobreviver.

Na prática, o Primeiro-Ministro decide sobre legislação, aplicação de fundos europeus, negociações com sindicatos e patrões, política fiscal e tudo o que envolve gestão corrente. É o verdadeiro motor do país, aquele que faz a máquina funcionar todos os dias.

O Presidente da República: o árbitro do sistema

O Presidente é eleito diretamente pelos portugueses para um mandato de cinco anos, renovável uma vez. O papel do Presidente parece mais simbólico do que executivo, mas tem poderes que podem abalar o sistema político. É o comandante supremo das Forças Armadas, representa Portugal internacionalmente e tem competências que funcionam como travões e contrapesos ao poder do Governo.

Um dos poderes mais relevantes é o de dissolver a Assembleia da República e marcar eleições antecipadas. O Presidente também pode vetar leis aprovadas no parlamento. Quando discorda de uma lei, pode devolvê-la à Assembleia ou enviá-la ao Tribunal Constitucional para verificar se respeita a Constituição. Contudo, se os deputados insistirem e voltarem a aprovar a lei, o Presidente é obrigado a promulgá-la. É um poder de atraso, não de bloqueio definitivo.

Além disso, o Presidente nomeia o Primeiro-Ministro, embora esta seja uma escolha condicionada. Normalmente nomeia o líder do partido mais votado nas legislativas, mas em situações de parlamento fragmentado pode ter margem para escolher quem consegue formar governo com apoio parlamentar.

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Governo vs Presidência: quando os poderes colidem

A relação entre Presidente e Primeiro-Ministro oscila entre cooperação e tensão, dependendo das personalidades e das circunstâncias políticas. Quando pertencem ao mesmo espectro político, a coabitação tende a ser pacífica. Quando são de campos opostos, surgem conflitos que testam os limites constitucionais.

Os conflitos mais comuns surgem em três áreas. Primeiro, quando o Presidente veta legislação importante para o Governo, obrigando a negociações e ajustes. Segundo, quando usa discursos e intervenções públicas para criticar indiretamente políticas governamentais. Terceiro, nas nomeações para cargos que exigem acordo entre ambos, como embaixadores ou altos cargos militares.

Política externa e defesa: terreno partilhado

A política externa é uma área onde os poderes se cruzam de forma mais evidente. O Presidente representa Portugal no estrangeiro, participa em cimeiras europeias em certos casos e ratifica tratados internacionais. Mas é o Governo que define a política externa, negocia acordos e gere as relações diplomáticas.

Na prática, funciona assim: o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sob tutela do Primeiro-Ministro, define estratégias e negocia tratados. O Presidente ratifica esses acordos e representa o país em visitas de Estado e ocasiões solenes.

Na defesa, o Presidente é comandante supremo das Forças Armadas, mas as decisões operacionais cabem ao Governo através do Ministro da Defesa. Em situações de conflito, como o envio de tropas para missões internacionais, é necessária autorização da Assembleia da República, o que adiciona outra camada de controlo.

Os poderes excecionais em tempos de crise

Durante crises, como a pandemia de COVID-19 entre 2020 e 2022, os papéis de Presidente e Primeiro-Ministro ganharam novos contornos. O Presidente declarou sucessivos estados de emergência, mas eram propostos pelo Governo e autorizados pela Assembleia. Esta cadeia de responsabilidades mostrou como o sistema funciona em situações extremas.

Esta divisão mantém-se em qualquer crise. O Presidente pode alertar, pressionar e usar a sua influência pública, mas não pode governar diretamente nem impor medidas concretas. O poder executivo mantém-se sempre nas mãos do Primeiro-Ministro.

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Quem manda afinal?

A resposta simples é que o Primeiro-Ministro governa e o Presidente modera. O primeiro tem o poder quotidiano de decidir políticas e aplicá-las. O segundo funciona como árbitro, guardião da Constituição da República Portuguesa e representante simbólico da unidade nacional.

Portugal adota um sistema semipresidencialista, um híbrido entre o presidencialismo puro e o parlamentarismo. Não é como os Estados Unidos, onde o Presidente governa diretamente, nem como Espanha, onde o Rei tem funções puramente protocolares. O nosso sistema coloca o poder executivo no Governo, mas dá ao Presidente ferramentas para intervir em momentos decisivos.

Na prática, isto significa que quem quer ver mudanças concretas no país deve olhar para São Bento, não para Belém. Mas quem quer estabilidade institucional e equilíbrio de poderes deve prestar atenção a ambos. O Presidente pode não governar, mas pode condicionar, atrasar ou até inviabilizar um Governo.

Como isto afeta os portugueses

Para o cidadão comum, esta divisão de poderes pode parecer um jogo de elites distante da realidade quotidiana. Mas tem consequências práticas. Quando um Governo propõe uma lei importante e o Presidente a veta, isso atrasa mudanças que podem afetar milhares de pessoas.

A estabilidade política depende desta engrenagem funcionar. Eleições antecipadas convocadas pelo Presidente podem mudar completamente o rumo do país, como aconteceu em 2024.

Quando os portugueses votam estão a escolher dois tipos de poder. Nas legislativas, elegem quem vai governar concretamente. Nas presidenciais, elegem quem vai moderar, representar e intervir em momentos críticos. Ambos os votos contam, mas para coisas diferentes.

As eleições presidenciais de 2026 são uma oportunidade para escolher que tipo de Presidente queremos para os próximos cinco anos. Um Presidente mais interventivo ou mais discreto? Alguém que pressiona o Governo ou que lhe dá espaço? O voto em Belém define o equilíbrio de poderes que teremos até 2031. Não desperdice esta oportunidade de influenciar o rumo do país.

Compreender esta diferença é essencial para exigir responsabilidades certas às pessoas certas. Se o problema é na saúde, a pressão deve ir para o Governo. Se é sobre dissolver a Assembleia ou representação internacional, o interlocutor é o Presidente. Confundir os papéis é atirar as queixas ao sítio errado.

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