Desde que os portugueses começaram a escolher livremente o seu Presidente, cinco figuras distintas ocuparam Belém. Do general que travou o golpe à esquerda radical ao professor que nunca escondeu a sua paixão pelos selfies, Portugal teve líderes para todos os gostos.
A história da Presidência da República portuguesa após 1976 é também a história da consolidação democrática em Portugal. Foram precisos 50 anos de ditadura e uma revolução para que os portugueses voltassem a escolher o seu chefe de Estado por voto direto.
António Ramalho Eanes: o general que abriu as portas da democracia
Nascido em Alcains em 1935, António Ramalho Eanes tornou-se o primeiro Presidente da República eleito democraticamente após o 25 de Abril. A ironia não passou despercebida: depois de décadas de ditadura militar, os portugueses elegeram um general para inaugurar a democracia. Mas não era um general qualquer.
Eanes ganhou fama nacional ao liderar as operações militares que neutralizaram a tentativa de golpe de 25 de novembro de 1975, quando a ala mais radical da esquerda tentou tomar o poder. O tenente-coronel surgiu na televisão ao lado do Presidente Costa Gomes, e os portugueses viram nele um homem capaz de trazer estabilidade ao país sem trair os ideais democráticos de Abril.
Nas eleições presidenciais de 1976, venceu com quase 62% dos votos. Tinha apenas 41 anos e tornava-se o Presidente mais jovem de sempre. Durante os seus dois mandatos, entre 1976 e 1986, Eanes trabalhou para devolver os militares aos quartéis e consolidar as instituições democráticas. A sua missão era garantir que as escolhas do povo, expressas em eleições livres, fossem respeitadas.
O relacionamento com os governos civis foi tenso, especialmente com Mário Soares. Eanes chegou a fundar o seu próprio partido, o PRD, que teve sucesso inicial mas acabou por se dissolver. Em 2000, recusou a promoção a marechal por razões éticas. Anos mais tarde, doutorou-se em Ciência Política pela Universidade de Navarra. Hoje, aos 90 anos, continua como Conselheiro de Estado.
Mário Soares: o advogado que sonhou com a Europa
Se Eanes foi o primeiro presidente militar da democracia, Mário Soares foi o primeiro civil. Nascido em 1924 numa família republicana, Soares passou boa parte da vida a combater a ditadura. Foi preso 12 vezes, deportado para São Tomé e exilado em França. Quando o 25 de Abril aconteceu, foi um dos primeiros a regressar, no famoso comboio da liberdade.
Cofundador do Partido Socialista em 1973, Soares foi ministro dos Negócios Estrangeiros logo após a revolução e primeiro-ministro por três vezes entre 1976 e 1985. Foi durante os seus governos que Portugal pediu formalmente a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1977. Para Soares, a Europa não era uma opção política mas um destino inevitável de Portugal.
A campanha presidencial de 1986 foi memorável. As sondagens davam-no como derrotado, mas Soares nunca desistiu. À segunda volta, derrotou Freitas do Amaral por escassos 3%. A vitória foi celebrada como um triunfo da democracia civil sobre o poder militar. Em 1991, foi reeleito com 70% dos votos, numa das maiores vitórias da história das presidenciais portuguesas.
Durante os seus dois mandatos, Soares inventou um novo estilo presidencial. Criou as presidências abertas, levando o poder aos portugueses em vez de esperar que eles fossem a Belém. Percorreu o país de norte a sul, ouviu as pessoas, abraçou crianças e tornou-se genuinamente o presidente de todos os portugueses. A relação com Cavaco Silva, que governou durante quase toda a sua presidência, foi marcada por tensões. Mas Portugal prosperou e, em 1986, finalmente entrou na Europa.
Soares morreu em janeiro de 2017, aos 92 anos. O país parou para lhe prestar homenagem. Tinha sido mais do que um presidente: fora um dos arquitetos da democracia portuguesa.
Jorge Sampaio: o estudante que se tornou estadista
Jorge Sampaio nasceu em 1939 e, ainda estudante na Faculdade de Direito, foi uma das figuras centrais dos movimentos estudantis que nos anos 60 lutaram contra a ditadura. Era conhecido pela sua coragem e frontalidade. Quando terminou o curso, dedicou-se a defender presos políticos como advogado.
Após o 25 de Abril, foi deputado e secretário-geral do PS. Em 1989, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, cargo que exerceu até se candidatar à Presidência. Quando concorreu a Belém em 1996, teve como adversário Aníbal Cavaco Silva, que tinha acabado de deixar o cargo de primeiro-ministro após uma década de governo com maioria absoluta.
Sampaio venceu com 53,8% dos votos e foi reeleito em 2001 com 55,5%. Durante os seus mandatos, entre 1996 e 2006, manteve um estilo presidencial próximo das pessoas mas menos mediático que o de Soares. Preocupou-se com causas sociais, defendeu os direitos humanos e promoveu o diálogo intercultural.
O primeiro mandato foi marcado pela coabitação com os governos de António Guterres. O segundo arrancou com novo governo de Durão Barroso, substituído por Santana Lopes, cujo executivo Sampaio acabou por dissolver antecipadamente em 2004, abrindo caminho ao regresso de um governo socialista liderado por José Sócrates.
Depois de deixar Belém, Sampaio manteve-se ativo em causas humanitárias e foi representante especial da ONU para a Tuberculose. Morreu em setembro de 2021, aos 81 anos, deixando a memória de um presidente discreto mas firme nas suas convicções.
Cavaco Silva: do Governo à presidência
Aníbal Cavaco Silva é um caso único na democracia portuguesa: foi primeiro-ministro durante uma década e depois Presidente da República durante outra. Nascido em Boliqueime, no Algarve, em 1939, Cavaco fez doutoramento em Economia em Inglaterra e trabalhou no Banco de Portugal antes de entrar na política.
Como primeiro-ministro entre 1985 e 1995, liderou o país durante um período de crescimento económico e modernização. Foi o responsável pela entrada de Portugal no euro. Mas perdeu as presidenciais de 1996 para Jorge Sampaio. Dez anos depois, em 2006, voltou a candidatar-se e desta vez venceu.
Eleito com 50,5% dos votos, Cavaco Silva foi o primeiro presidente de direita desde Ramalho Eanes. Em 2011, foi reeleito na primeira volta com 52,9%, tornando-se o segundo presidente a vencer sem segunda volta desde 1976. Os seus mandatos, entre 2006 e 2016, foram marcados pela crise financeira internacional e pelo período da troika.
Cavaco Silva teve uma presidência discreta mas interventiva nos momentos de crise. Nomeou governos, resistiu a dissoluções da Assembleia e protagonizou episódios que geraram polémica, como a forma como geriu a crise política de 2015, que acabou por levar à formação do governo de coligação de esquerda liderado por António Costa.
Deixou Belém em março de 2016, completando dois mandatos e fechando um ciclo de 20 anos em que esteve no centro do poder político português, primeiro como primeiro-ministro, depois como Presidente.
Marcelo Rebelo de Sousa: o professor que conquistou os portugueses
Marcelo Rebelo de Sousa nasceu em Lisboa em 1948 e já era uma figura pública conhecida muito antes de chegar a Belém. Professor de Direito, comentador político, apresentador de televisão, deputado, líder do PSD. Marcelo fez de tudo e falou com toda a gente.
Quando se candidatou às presidenciais de 2016, partia como favorito. Venceu logo à primeira volta com 52% dos votos, tornando-se o segundo presidente a consegui-lo desde 1976, depois de Cavaco Silva. Mas foi o estilo que trouxe para Belém que o tornou único.
Marcelo inventou a presidência das selfies e dos abraços. Saltou para piscinas para salvar banhistas, ajudou pessoas em dificuldades, passou o Natal com sem-abrigo e esteve presente em todo o lado. Durante a pandemia de COVID-19, visitou hospitais, falou com médicos e enfermeiros e manteve os portugueses informados. Alguns criticaram o excesso de protagonismo, mas a popularidade manteve-se elevada.
Em 2021, foi reeleito com uma vitória esmagadora na primeira volta: 60,6% dos votos. Só Mário Soares, em 1991, tinha conseguido melhor resultado. O segundo mandato foi marcado pela estabilidade política e pelo crescimento económico, mas também por crises como os incêndios florestais e a guerra na Ucrânia.
Marcelo deixará Belém em março de 2026, após completar os dois mandatos permitidos pela Constituição. Será recordado como um dos presidentes mais populares e comunicativos da história portuguesa, amado por uns, criticado por outros, mas indiferente a ninguém.
2026: uma nova página da História por escrever
Na primeira volta das eleições presidenciais de 18 de janeiro de 2026, os portugueses voltaram às urnas para escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. António José Seguro, apoiado pelo PS, venceu com 31,11% dos votos, seguido de André Ventura, do Chega, com 23,52%. João Cotrim de Figueiredo ficou em terceiro lugar com cerca de 16%, enquanto Henrique Gouveia e Melo, que chegou a liderar nas sondagens, obteve 12,32%. Pela segunda vez na história da democracia portuguesa, haverá uma segunda volta.
No dia 8 de fevereiro, Seguro e Ventura defrontam-se numa eleição que promete mobilizar ainda mais os portugueses. As expetativas são altas e o debate político nunca esteve tão intenso. Alguns veem na disputa uma escolha entre continuidade democrática e rutura com o sistema. Outros preferem falar em projetos diferentes para o futuro do país. Cada eleitor terá a sua leitura, e é isso que torna a democracia tão valiosa.
O sexto Presidente eleito da democracia portuguesa tomará posse a 9 de março de 2026, exatamente 50 anos depois de Ramalho Eanes ter inaugurado este ciclo. Meio século de eleições livres, de alternância democrática e de escolhas que foram sempre respeitadas. Por isso, o apelo é simples: vote de forma consciente, informe-se bem e participe neste momento histórico.
Mantenha-se informado sobre política, economia e os temas que movem Portugal. Subscreva a newsletter do Ekonomista e informação que o ajuda a compreender melhor o país e o mundo. Porque votar de forma consciente começa com estar bem informado.