A pergunta não é nova, mas a resposta mudou há pouco mais de um ano. O salário do Presidente da República em Portugal subiu em 2025 depois de ter acabado o corte de 5% que vigorava desde os tempos da troika. Em 2026 mantém-se o valor de 11.718 euros mensais brutos, que representa um aumento de 650 euros face a 2024. No entanto, este valor não vai todo parar à conta bancária do inquilino de Belém.
O que sobra depois dos descontos
Como qualquer trabalhador português, o Presidente da República também desconta para o IRS, Segurança Social e ADSE. Depois de fazer as contas todas, o salário líquido fica próximo dos 6.000 euros mensais. Sim, o ordenado bruto é cortado praticamente a meio.
Para chegar aos tais 11.718 euros, juntam-se duas componentes. A primeira é o salário base de 8.370 euros. A segunda são as despesas de representação, que somam 3.348 euros e correspondem a 40% do salário base. Estas despesas existem porque o cargo implica compromissos oficiais, receções e eventos que têm custos associados.
O fim dos cortes que vinham da crise
Durante mais de uma década, os políticos portugueses viram os seus salários cortados em 5%, o Presidente da República inclusive. Esta medida tinha sido implementada em 2010, durante o período de assistência financeira internacional, e manteve-se mesmo depois da saída da troika.
O Orçamento do Estado para 2025 pôs fim a este corte. Além disso, aplicou-se também a atualização geral da função pública de 2,15%. Foi esta combinação que levou ao aumento de 650 euros implementado no início de 2025 e que se mantém em vigor em 2026.
As regalias que vêm com o cargo
O Presidente da República tem acesso a benefícios que vão muito além do salário mensal. O mais visível é a residência oficial no Palácio de Belém, um monumento nacional no coração de Lisboa com mais de cinco séculos de história.
A maioria dos presidentes recentes, não viveram permanentemente no palácio. Usaram Belém apenas como local de trabalho e para as funções oficiais. O último presidente a residir efetivamente no palácio foi Ramalho Eanes, que deixou o cargo em 1986.
Mesmo assim, o Presidente tem à disposição o Palácio da Cidadela de Cascais como residência de verão e o Paço dos Duques de Bragança em Guimarães como residência oficial no norte do país. São espaços com toda a estrutura necessária para hospedar chefes de Estado e realizar reuniões oficiais.
O transporte também está assegurado. O Presidente é conduzido em viaturas blindadas, normalmente Mercedes ou BMW de topo de gama, com matrícula especial e bandeira presidencial.
A segurança é outro capítulo. O Presidente tem proteção permanente da Guarda Nacional Republicana, com um esquadrão dedicado apenas a garantir a sua segurança e a realizar cerimónias oficiais como o Render da Guarda que acontece mensalmente em frente ao Palácio de Belém.
O que acontece depois do mandato
Quando um Presidente termina o mandato, não fica de mãos a abanar. Os ex-presidentes têm direito a uma pensão vitalícia equivalente a 80% do salário do Presidente em funções. Ou seja, quem já esteve em Belém recebe atualmente cerca de 9.374 euros brutos por mês.
Além da pensão, mantêm o carro oficial com motorista e combustível pago pelo Estado. Têm também direito a um gabinete de trabalho com um assessor e um secretário, ambos nomeados à sua escolha e pagos pelo público.
A segurança não desaparece. Os ex-presidentes continuam com proteção policial à porta de casa e passaporte diplomático para as viagens ao estrangeiro. Podem ainda usar e portar arma de defesa, um privilégio que poucos cargos mantêm após o fim de funções.
Neste momento existem dois ex-presidentes vivos em Portugal, cada um com estes benefícios ativos. É uma forma de reconhecer o serviço prestado, embora também levante questões sobre os custos que o país suporta a longo prazo.
Como funciona a tabela salarial dos políticos
O ordenado do Presidente da República serve de referência para calcular todos os outros salários políticos em Portugal. É como se fosse o topo da pirâmide.
O presidente da Assembleia da República recebe 80% do salário presidencial, o que dá cerca de 9.375 euros brutos mensais. Já o primeiro-ministro ganha 75% desse valor base, ficando com 8.769 euros. Os ministros auferem 7.617 euros e os secretários de Estado 6.780 euros.
Quanto aos deputados, o cenário muda consoante trabalhem em exclusividade ou não. Em regime de exclusividade, recebem 4.604 euros mensais. Fora deste regime, o valor desce.
Comparação com outros salários em Portugal
Para ter uma noção da dimensão, o salário médio bruto em Portugal ronda os 1.528 euros mensais, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. O salário mínimo nacional passou para 920 euros em 2026.
Mas há quem ganhe bem mais do que o Presidente da República. Gestores de empresas públicas como a Caixa Geral de Depósitos ou a TAP auferem salários que podem ultrapassar os 30.000 euros mensais, chegando em alguns casos a valores superiores a 40.000 euros por mês.
Os gestores das empresas cotadas em bolsa também estão noutro patamar. Mesmo o líder com o salário mais baixo do PSI-20 auferia acima de 21.000 euros mensais.
E lá fora, como é que se compara
Na União Europeia, os ordenados políticos costumam ser mais generosos. A presidente da Comissão Europeia recebe 38.300 euros mensais. António Costa, agora presidente do Conselho Europeu, aufere um valor semelhante. Os comissários europeus ganham 30.500 euros e os deputados do Parlamento Europeu ficam com 21.400 euros.
Alguns especialistas defendem que os salários ainda são baixos face à responsabilidade dos cargos, mas o tema continua a ser sensível num país onde o salário médio é bem mais modesto.
No final do dia, o Presidente da República ganha 11.718 euros brutos por mês em 2026. Pode parecer muito ou pouco, dependendo da perspetiva de cada um. O que importa é que a informação está disponível e pode ser discutida de forma informada.
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