Há poucas semanas, encher o depósito era uma tarefa rotineira. Hoje, com a guerra no Irão a agitar os mercados energéticos mundiais, essa rotina pode estar prestes a mudar e a palavra racionamento já surge em muitas conversas.
A palavra “racionamento” começou a circular nos corredores dos governos europeus e nos relatórios das grandes agências de análise. Mas até que ponto é real essa ameaça? Em que circunstâncias pode acontecer? E o que significa, na prática, para as famílias portuguesas?
O que se passa é que com o bloqueio do Estreito de Ormuz, a Europa viu-se repentinamente a competir com os compradores asiáticos por cargas alternativas num mercado global já tenso.
Pode haver racionamento? Condições necessárias
O racionamento de combustível, isto é, a limitação administrativa da quantidade que cada pessoa ou empresa pode adquirir, não é o cenário base para Portugal neste momento, mas deixou de ser ficção científica. Há um conjunto de condições que, se se verificarem em simultâneo, podem forçar os governos a essa medida extrema.
Prolongamento do bloqueio do Estreito de Ormuz
Se o conflito se arrastar por meses e a navegação pelo estreito continuar a ser impossível ou extremamente arriscada, os stocks globais de petróleo e GNL começam a diminuir de forma estrutural. As reservas estratégicas existem, mas têm limites.
Ataques a infra-estruturas energéticas críticas
Já houve um ataque iraniano à Zona da Indústria de Petróleo de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos. Se ataques semelhantes atingirem refinarias, terminais de GNL ou plataformas de produção na Arábia Saudita ou no Kuwait, a oferta global contrai de forma abrupta e duradoura.
Escassez física de abastecimento na Europa
Analistas britânicos já alertaram para a possibilidade de o Reino Unido enfrentar uma “escassez significativa de fornecimento” de petróleo e gás nos próximos dois meses se a guerra continuar. Uma situação análoga em países do Sul da Europa (com stocks mais baixos e menor diversificação de fornecedores) poderia precipitar medidas de racionamento.
Corrida aos postos de combustível
O comportamento dos consumidores pode ser, ele próprio, um catalisador da crise. Se o pânico se instalar, como aconteceu em vários países europeus em 2022, as filas nos postos esgotam os stocks locais em dias. A antecipação de escassez cria a própria escassez. Este é um cenário que as autoridades temem e para o qual já existem planos de contingência.
O que está a acontecer no resto da Europa

A resposta europeia ao choque tem sido descoordenada e esse é, em si mesmo, um problema. Cada país está a agir por conta própria, criando assimetrias competitivas que afetam toda a indústria do continente.
Espanha aprovou o pacote mais ambicioso, com um Real Decreto-Lei de 5.046 milhões de euros que reduziu o IVA de todas as formas de energia de 21% para 10%, congelou o preço do butano e criou uma bonificação de 20 cêntimos por litro para transportadores, agricultores e pescadores. Assim, a gasolina ficou cerca de 30 cêntimos mais barata por litro.
A Alemanha optou por regular os postos de combustível em vez de subsidiar diretamente. Uma lei obriga os postos a só poderem aumentar os preços uma vez por dia, ao meio-dia. Os preços da gasolina subiram quase 18% em duas semanas, de cerca de 1,82 euros para 2,16 euros por litro.
Itália pondera usar o IVA adicional arrecadado com a subida dos combustíveis para compensar os consumidores e prevê sancionar empresas que aproveitem a crise para inflar margens de lucro.
França não avançou ainda com apoios diretos. E o BCE encontra-se numa posição cada vez mais incómoda, com crescimento a estagnar e inflação a reanimar, simultaneamente, o pesadelo da estagflação.
Portugal mais protegido, mas não imune
Há uma boa notícia para Portugal, já que não importamos a maior parte do seu petróleo diretamente dos países do Golfo Pérsico.
Segundo dados de 2024 da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), uma parte significativa do crude que abastece as refinarias portuguesas tem origem em países do continente americano. Isto significa que Portugal não depende diretamente da rota do Estreito de Ormuz, mas, o preço do petróleo é definido em mercados globais.
Não importa de onde vem o crude que chega a Sines. sSe o mercado internacional estiver em stress, Portugal paga o mesmo preço elevado que todos os outros. O gasóleo simples aumentou cerca de 25 cêntimos por litro já na segunda semana de março.
O governo reagiu com um desconto no ISP aplicado ao gasóleo, mas admitiu que as medidas teriam de ser recalibradas semana a semana, ao sabor da evolução dos mercados.
O gasóleo merece atenção especial. A Europa é estruturalmente deficitária na refinação deste combustível e, depois do embargo ao petróleo russo em 2022, passou a depender ainda mais de importações de regiões agora envolvidas no conflito.
Consequências reais para os consumidores
Mesmo sem chegar ao racionamento formal, o impacto no dia a dia dos portugueses já é concreto e vai aprofundar-se nas próximas semanas.
Nos combustíveis, os preços já atingiram níveis comparáveis aos de junho e julho de 2022, nos primeiros meses da guerra na Ucrânia. O gasóleo, o combustível dos camiões, dos barcos e de muita da frota agrícola, é o mais afetado. Uma garrafa de butano de 13 quilos pode ultrapassar os 37 euros nas próximas semanas, face aos cerca de 34 euros atuais.
Na eletricidade, o preço do gás natural impacta diretamente o custo de produção de eletricidade. Uma subida forte e prolongada do gás arrasta consigo as faturas da luz, especialmente para as famílias que não têm contratos de longo prazo fixados.
No supermercado, a guerra na Ucrânia já mostrou como um conflito geopolítico se traduz em inflação alimentar, não só pelos cereais, mas pela energia usada no transporte, na produção agrícola e nos fertilizantes. Os preços dos alimentos devem subir nas próximas semanas, com algum atraso face à subida da energia.
Nos transportes, os fretes marítimos e os custos de aviação já estão a disparar. A companhia SunExpress, por exemplo, anunciou uma sobretaxa de combustível de 10 euros por passageiro por segmento de voo a partir de maio. Estas sobretaxas tendem a generalizar-se.
Na indústria, os impactos de médio prazo serão muito severos para a indústria portuguesa, que é duplamente atingida, pelo preço do petróleo que processa e pelo custo de transporte e de matérias-primas derivadas do petróleo. .
Racionamento: o que pode acontecer a seguir
O cenário mais otimista é uma resolução diplomática rápida e um cessar-fogo poderia aliviar a pressão nos mercados em semanas.
Os preços já recuaram ligeiramente com os sinais diplomáticos dos últimos dias.
O Brent desceu para perto dos 96 dólares depois de Trump anunciar a suspensão temporária dos ataques, embora as forças armadas iranianas tenham avisado que os preços não voltarão aos níveis anteriores à guerra até que a estabilidade da região seja garantida.
O cenário intermédio, o mais provável, é um conflito que se arrasta por meses, com períodos de escalada e de desanuviamento, mantendo os preços da energia elevados mas sem colapso total da oferta.
Neste caso, Portugal e a Europa viveriam um período prolongado de inflação energética, travagem do crescimento e pressão sobre os orçamentos das famílias e das empresas.
O cenário mais sombrio (ataques maciços às infraestruturas do Golfo, bloqueio total e prolongado do Estreito de Ormuz) poderia efetivamente levar alguns países europeus a impor racionamento.
A Grã-Bretanha já estuda essa possibilidade. Portugal teria de ativar o seu plano de crise energética, que inclui medidas de contingência coordenadas com a União Europeia.
O que pode fazer agora
Independentemente de como o conflito evolui, há decisões práticas que qualquer consumidor pode tomar.
Se conduz habitualmente, use o Portal Preços dos Combustíveis Online para comparar preços por tipo de combustível e localização.
As diferenças entre postos podem ser relevantes. Abasteça com regularidade e evite esperar pelo limite, não por pânico, mas por prudência.
Reduza consumos desnecessários de energia em casa. Com a fatura do gás e da eletricidade sob pressão, pequenas medidas (termostato ajustado, equipamentos em modo de poupança) fazem diferença no orçamento familiar.
E, acima de tudo, evite o comportamento de pânico. Fazer fila nos postos de combustível por antecipação pode transformar um problema de preços num problema de abastecimento e nesse caso, toda a gente sai a perder.