Share the post "Nostalgia? Renault faz vénia ao passado e carrega o futuro"
Primeiro uma constatação quase doméstica e que é a de que há objetos que não compramos com a cabeça. Compramos com a pele. E a Renault percebeu isso com os seus mais recentes lançamentos.
Apela aos sentidos, ao cheiro da garagem do avô, a cassete esquecida no porta-luvas, a fotografia desbotada do Twingo de Erasmus.
Por isso, a marca francesa, em vez de enterrar o passado, deu-lhe corrente, com os 4 E-Tech, 5 E-Tech, Twingo E-Tech.
Três ícones, três maneiras distintas de usar a memória como rampa de lançamento .
Renault 5: o regresso triunfal
Comecemos pelo Renault 5 E-Tech. O miúdo traquina dos anos 70 reaparece elétrico e com maneiras de anfitrião. Olha-nos com faróis “olhudos”, acende o “5” no capot para mostrar carga e piscadela, e arranca com aquele binário imediato que nos endireita o humor mesmo antes do café.
Por baixo do charme vive engenharia séria, a partir da plataforma AmpR Small, potências 70/90/110 kW, bateria 40 ou 52 kWh (até 312 km com 40 kWh ou 400 km WLTP com 52 kWh, conforme versão) e carga DC até 100 kW.
O pacote fez estragos bons e o 5 tornou-se rapidamente líder de segmento e até somou o título de Carro do Ano 2025 na Europa. Nostalgia? Sim. Mas com homologações, vendas e troféus a sustentá-la.

Renault 4: o renascer da icónica “catrel”
Depois, chegou o Renault 4 E-Tech. O velho “catrel” das carteiras dos carteiros, dos bombeiros e dos agricultores regressa não como peça de museu, mas como crossover prático e doce de usar.
A marca apresentou-o ao mundo com aquele sorriso retro na frente (grelha de contorno iluminado, faróis redondos) e um interior modular que volta a colocar o “leva-tudo” no centro da conversa.
Aliás, em 2025, Portugal serviu de palco aos ensaios internacionais na Ericeira, e as encomendas abriram com três versões e duas baterias, destacando-se a de 40 kWh para até 308 km WLTP numa proposta de preço assertiva. É a mitologia do 4L, mas com porta USB, One-Pedal e app no telemóvel.

Twingo volta a coaxar
E o Twingo E-Tech? Aqui a Renault joga a carta do sorriso urbano. Primeiro protótipo em 2024, depois interior revelado no início de 2025, com bancos versáteis, aquele espírito de “mini loft” sobre rodas e um posicionamento claro para chegar ao mercado em 2026.
Fiel ao génio da primeira geração, espaço onde não parecia haver espaço, o Twingo elétrico é a lembrança de que a cidade precisa de carros com graça e cérebro, não só de fichas técnicas brilhantes.

Renault: design não esquece a memória
O truque comum a todos estes modelos? O design como tradução da memória. No 5, o “5” luminoso e os faróis-em-expressão. No 4, a frente vertical e a postura de “vai a todo o lado”. No Twingo, a cara simpática e o interior em modo Lego.
Não são decalques, são códigos emocionais reescritos na gramática elétrica. A nostalgia funciona aqui como legenda, explica o novo com palavras antigas. E quando a tecnologia assusta (ansiedade de autonomia, menus infinitos, cabos e tomadas), o familiar consola.
Mas falemos de condução, que a emoção também se mede ao volante. O 5 E-Tech é leve no sentir (menos massa que muitos rivais), com traseira multi-link a dar compostura sem matar o jogo de ancas.
Em cidade é coreografia, raio de viragem curto, binário logo ali, silêncio que nos devolve a cidade.
O 4 E-Tech, maior e com vocação de crossover, puxa pela modularidade e conforto, aquele “anda-tudo” que foi, desde sempre, a assinatura do 4L, só que agora com torque limpo e regeneração que, em descidas de serra, parece bruxedo (é física, mas deixa-nos sorrir).
O Twingo, quando chegar, promete o mesmo que o original cumpria: virar nos próprios sapatos, estacionar onde ninguém dizia ser possível e transformar um recado de cinco minutos num momento simpático. (Quem nunca?)
Marketing longe do mais do mesmo
Marketing? Claro que é e ainda bem. A Renault não usa a nostalgia como camuflagem para “mais do mesmo”. Usa-a como ponte de confiança numa transição que, por vezes, soa a imposição.
A estratégia agrega histórias pessoais a provas objetivas, com o 5 com encomendas por camadas de bateria e versões bem definidas, o 4 com gama estruturada e posicionamento de preço e o Twingo com calendário e narrativa de produto claríssima.
E há pormenores que mostram método. O 5 trouxe de volta o som assinável (trabalho com Jean-Michel Jarre) para que a segurança dos peões também tivesse estética.
O 4 revisita colaborações e imaginário de aventura (até com um concept Savane 4×4 a acenar ao fora-de-estrada de fim-de-semana).
O Twingo reaprende com o seu próprio mito, de interior simples, funcional, quase lúdico. São camadas de lembrança aplicadas com régua, porque emoção sem engenharia vira pastiche, e engenharia sem emoção vira eletrodoméstico.
Goste-se ou não, a Renault não vende passado, vende continuidade. Diz que é possível trocar combustível por kilowatts sem abdicar de pertença. Que a infância, a faculdade, a primeira viagem a dois cabem num conector CCS e não perdem cor por isso.
A nostalgia bem usada não é truque, é ferramenta de acolhimento. O 4 E-Tech, o 5 E-Tech e o Twingo E-Tech provam-no com desapego e rigor. São três carros que conversam com o ontem para tornar o amanhã menos tímido.