Miguel Pinto
Miguel Pinto
23 Jan, 2026 - 16:30

Um século depois, a Route 66 ainda vale (e bem) uma viagem

Miguel Pinto

A Route 66 celebra 100 anos. Descubra como está esta estrada mítica dos EUA, que troços ainda existem e porque continua a fascinar.

pormenor da Route 66

Em 1926, os Estados Unidos decidiram ligar o país de uma forma nova, contínua e ambiciosa. Nascia oficialmente a Route 66, uma estrada com cerca de 3.940 quilómetros que unia Chicago a Santa Monica, atravessando oito estados, desertos, planícies, pequenas cidades e a ideia muito concreta de progresso.

Cem anos depois, a Route 66 já não é uma via funcional no sentido clássico. Está fragmentada, substituída por auto-estradas mais rápidas. Mas continua viva. Talvez até mais do que nunca.

O centenário da sua instituição não celebra uma estrada perfeita. Celebra uma estrada imperfeita, usada, esquecida em partes, mas ainda carregada de significado.

Um símbolo da mobilidade americana, da migração interna, do sonho de partir sem saber muito bem o que vem a seguir.

Route 66: a estrada que ajudou a moldar um país

route 66 no arizona

A Route 66 surgiu num momento decisivo. Facilitou o transporte de mercadorias, ligou economias regionais e tornou-se essencial durante a Grande Depressão, quando milhares de famílias se deslocaram para oeste em busca de trabalho e sobrevivência.

Mais tarde, na era dourada do automóvel, transformou-se numa artéria turística, cheia de motéis, diners, bombas de gasolina e letreiros de néon.

Não era apenas uma estrada. Era um corredor de oportunidades. E também de desilusões, claro. A Route 66 sempre teve esse duplo papel.

O que resta hoje da Route 66

Tecnicamente, a Route 66 deixou de existir como estrada federal em 1985. Foi desclassificada, trocada por interstates mais eficientes.

O que existe hoje são troços preservados, estradas locais que mantêm o traçado original, muitas vezes paralelas às grandes autoestradas modernas.

Em alguns estados, a sinalização histórica foi recuperada. Noutros, resiste por iniciativa local, quase teimosamente.

No Arizona, encontram-se alguns dos segmentos mais bem conservados, atravessando paisagens áridas que parecem feitas para fotografia lenta. No New Mexico, pequenas localidades continuam a viver da mística da estrada.

Já no Illinois, o início da rota é hoje mais simbólico do que funcional, marcado por placas, murais e memória.

A Route 66 de hoje não se percorre de uma vez. Percorre-se aos pedaços. E isso, curiosamente, faz parte do encanto.

Lugares icónicos que ainda podem ser visitados

cadillac ranch no route 66

Apesar do abandono em vários troços, há locais que se tornaram quase peregrinações obrigatórias na Route 66.

O Cadillac Ranch, no Texas, continua a desafiar o conceito de monumento, com carros cravados no solo e grafitis que mudam diariamente. O Winslow, imortalizado numa canção dos Eagles, vive até hoje dessa referência pop.

Motéis clássicos, como o Wigwam Motel, mantêm-se abertos, oferecendo uma experiência que mistura kitsch, nostalgia e funcionalidade básica.

E depois há os diners. Muitos. Alguns renovados, outros parados no tempo, onde o café ainda é servido em chávenas grossas e o balcão parece resistir por pura força de vontade.

Curiosidades que ajudam a explicar o mito

A Route 66 nunca foi a estrada mais rápida. Nem a mais direta. E talvez por isso tenha durado tanto no imaginário coletivo.

Foi apelidada de The Mother Road por John Steinbeck, que a descreveu como rota de esperança e fuga. Foi celebrada em canções, filmes e séries, tornando-se parte da cultura popular global.

Escritores como Jack Kerouac ou músicos como Bruce Springsteen sempre viram nesta estrada uma parte do espírito americano.

Outro detalhe curioso é que, atualmente, grande parte da sua sobrevivência atual deve-se a associações locais e voluntários que lutaram pela preservação do nome, da sinalética e da história.

Não houve um grande plano federal de salvamento. Houve insistência local. Persistência quase artesanal.

Fazer um coast to coast usando a Route 66

diner na route 66

Fazer um coast to coast nos Estados Unidos usando a Route 66 não é um exercício de eficiência. É, assumidamente, uma escolha narrativa.

A melhor forma de o fazer passa por aceitar desde logo que a Route 66 não é contínua e que o percurso ideal combina troços históricos com autoestradas modernas. Alternar entre ambos não é trair o espírito da estrada. É respeitá-lo.

O percurso clássico começa na costa leste, muitas vezes em Nova Iorque ou Washington, seguindo em direção a Chicago, ponto de partida simbólico da Route 66. A partir daí, o trajeto ganha outra cadência.

Recomenda-se seguir os segmentos históricos sempre que possível, mesmo quando isso implica sair da via rápida, atravessar pequenas localidades ou conduzir por estradas secundárias onde o tempo parece menos apressado.

Outro detalhe importante é o meio de transporte. O carro continua a ser a opção mais prática e flexível, sobretudo para quem quer explorar troços menos óbvios.

A mota oferece uma experiência mais intensa, quase física, mas exige preparação e resistência. Já as campervans permitem maior autonomia, embora nem todos os segmentos históricos sejam ideais para veículos maiores.

Quanto ao tempo disponível, duas semanas são o mínimo razoável para um coast to coast com significado.

Uma estrada menos útil, mas mais simbólica

Hoje, a Route 66 já não serve o país como serviu. Não é essencial para o transporte. Não dita o ritmo económico. Mas ganhou outra função.

Tornou-se um arquivo a céu aberto do século XX americano, um museu disperso, visitável de carro, moto ou até bicicleta.

O centenário da sua criação chega num momento curioso em que num mundo obcecado com rapidez, eficiência e GPS, a Route 66 continua a convidar ao desvio, à paragem inesperada, ao erro de percurso.

Não promete chegar depressa. Promete chegar com histórias. E talvez seja por isso que, cem anos depois, continua a fascinar.

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