Miguel Pinto
Miguel Pinto
25 Fev, 2026 - 13:30

Salários baixos, casas caras: país cresce, portugueses empobrecem

Miguel Pinto

O relatório da Pordata é claro. Não obstante o crescimento económico, os portugueses perdem poder de compra e as casas estão cada vez mais caras.

poder de compra não permite comprar casas

Um novo estudo revela que os portugueses têm um dos rendimentos mais baixos da União Europeia, mas enfrentam uma das maiores subidas nos preços da habitação de todo o continente, com casas caras e inacessíveis.

Os dados são revelados pela Pordata, que lançou a plataforma interativa, intitulada “Retratos da Europa”, a assinalar os 40 anos da adesão de Portugal.

Este projeto faz um retrato comparativo dos 27 Estados-membros da União Europeia em quatro grandes temas: população, economia, custo de vida e rendimentos, e energia e ambiente. E as conclusões sobre Portugal são, no mínimo, inquietantes.

Poder de compra: Portugal nos mais pobres da UE

Embora Portugal tenha um custo de vida abaixo da média europeia, sendo o 17.º país da UE onde o cabaz de bens essenciais é mais barato, o poder de compra da população é o sexto mais baixo entre os 27 Estados-membros.

Na prática, isto significa que os preços são relativamente acessíveis em comparação com o resto da Europa, mas os salários são ainda mais baixos do que o custo de vida sugere.

O rendimento médio anual em Portugal em 2023, de 1.053,9 euros, permitiria comprar o equivalente a 11 cabazes de bens essenciais, muito abaixo dos 24 cabazes que um luxemburguês conseguiria adquirir com o seu rendimento médio.

É uma fotografia clara de uma economia que cresce, mas cujos frutos não chegam de forma equitativa ao bolso dos trabalhadores.

Habitação: a segunda maior subida de preços

Programa Mais Habitação: senhorios

Se o baixo poder de compra já é preocupante por si só, a situação agrava-se de forma significativa quando se analisa o mercado habitacional, com as casas caras até limites pouco vistos.

Portugal é o segundo país da UE com o maior aumento nos preços da habitação desde 2020, com uma subida de 24,1%, apenas ultrapassado pela Grécia, que registou um aumento de 29%.

Para contextualizar, o custo da habitação aumentou em 16 dos 27 países da UE, e foi na Finlândia que se registou a maior redução: em 2024, as casas custavam menos 16,3% do que em 2020.

Portugal move-se, portanto, na direção exatamente oposta à de países como a Finlândia e fá-lo com uma velocidade que poucos conseguem acompanhar, especialmente os que auferem salários portugueses.

A contradição: salários baixos, casas caras

A grande questão que estes dados levantam é como é possível que um país com um dos menores poderes de compra da Europa seja também um dos que mais viu os preços da habitação disparar?

Os baixos salários estarão a raiz do problema, já que as estruturas empresariais não conseguem alavancar a produtividade de maneira a conseguirem pagar melhor e os nossos setores de atividade principais não estão ligados a salários altos.

Do lado da habitação, as casas caras resultam de o país se ter tornado uma terra atrativa para as classes médias mundiais, elevando os preços a patamares inacessíveis para os salários pagos em Portugal.

Em termos simples, Portugal tornou-se apetecível para quem vem de fora, turistas, nómadas digitais, investidores estrangeiros e reformados com pensões europeias ou norte-americanas.

Esse afluxo de procura, com poder de compra muito superior ao dos portugueses, empurrou os preços da habitação para valores que o salário médio nacional simplesmente não consegue acompanhar.

Encargos com habitação fora do poder de compra

poder de compra em portugal

Há um pormenor técnico que torna a situação ainda mais grave do que os números aparentam. Os dados do Eurostat, em que se baseia o estudo da Pordata, não consideram o custo dos europeus com a habitação.

A justificação é que há países onde a maioria das pessoas vive em casa própria e outros onde existe mais tendência para arrendar, o que tornaria a comparação injusta.

Ou seja, o sexto menor poder de compra da UE é calculado sem incluir aquilo que é, para a maioria das famílias portuguesas, a maior fatia do orçamento mensal, a prestação da casa ou a renda.

Crescimento económico não resolve tudo

Nem tudo é negativo nos dados apresentados pela Pordata. Entre 2020 e 2024, o PIB per capita nacional cresceu 40% em valor nominal e 10% em valor real, representando o sexto maior crescimento em toda a União Europeia.

Portugal cresce, e cresce de forma expressiva. O problema está na distribuição desse crescimento e na estrutura económica que o sustenta.

A produtividade do trabalho em Portugal é a 19.ª mais baixa a nível europeu, sendo que cada trabalhador contribuiu cerca de 47,7 mil euros para o PIB em 2024, muito abaixo dos 194,4 mil euros na Irlanda.

O que é necessário mudar?

O caminho passa por uma mudança estrutural profunda, apostar em setores com maior valor acrescentado e melhorar os níveis de qualificação da população ativa.

Portugal é o país com piores índices de escolarização dos 27, embora entre os mais jovens já se posicione a meio da tabela, e criar as condições para que o crescimento económico se traduza efetivamente em melhores salários e maior poder de compra.

Quanto à habitação, a discussão política em torno das casas caras está em curso. No âmbito do debate parlamentar sobre o pacote fiscal da habitação do Governo, foram pedidos pareceres a especialistas que concordam que medidas como a redução do IVA para 6% na construção podem estimular a oferta.

Mas também alertam para o risco de os benefícios fiscais acabarem apenas a engordar as margens dos promotores, sem impacto real nos preços finais.

Menos poder de compra, habitação mais cara: perguntas frequentes

Qual é a posição de Portugal em termos de poder de compra
na União Europeia? Portugal tem o sexto menor poder de compra
dos 27 países da União Europeia, de acordo com os dados do Eurostat
compilados pela Pordata em 2026. O rendimento médio anual em 2023
era de 1.053,9 euros.

Em quanto subiram os preços da habitação em Portugal? Entre 2020 e 2024,
os preços da habitação em Portugal aumentaram 24,1%, tornando o país
o segundo da UE com a maior subida neste período. Só a Grécia registou um aumento superior.

Porque é que os preços da habitação sobem tanto em Portugal
se os salários são baixos? Portugal tornou-se atrativo para as classes médias mundiais. Esta procura externa, com um poder de compra muito superior
ao dos portugueses, empurra os preços para valores que o salário
médio nacional não consegue acompanhar.

O custo de vida em Portugal é alto comparado com o resto da Europa? Não
de forma isolada. Portugal é o 17.º país da UE onde o cabaz de bens essenciais
é mais barato, ou seja, o custo de vida está abaixo da média europeia. O
problema é que os salários são proporcionalmente ainda mais baixos do
que os preços.

A habitação é incluída no cálculo do poder de compra do Eurostat? Não.
Os dados do Eurostat que medem o poder de compra não incluem os
encargos com habitação.

Portugal está a crescer economicamente? Sim. Entre 2020 e 2024, o PIB
per capita cresceu 10% em termos reais, representando o sexto maior
crescimento de toda a União Europeia.

Quem é mais afetado pela crise de habitação em Portugal? Os jovens são
o grupo mais vulnerável, já que não consegue ter capacidade de compra de habitação própria devido à combinação de salários baixos e preços de habitação elevados.

Em resumo: o que dizem os números

IndicadorPosição de Portugal na UE
Poder de compra6.º mais baixo (de 27)
Aumento nos preços da habitação (2020–2024)2.º maior (+24,1%)
Custo do cabaz de bens essenciais17.º mais barato
Crescimento do PIB per capita (2020–2024)6.º maior (+10% real)
Produtividade laboral19.ª mais baixa

Como se pode ver, os dados da Pordata pintam o retrato de um país em crescimento, mas com profundas assimetrias internas.

Uma economia que avança, mas que ainda não consegue garantir que o custo de vida (especialmente o da habitação) seja compatível com os rendimentos de quem cá vive e trabalha.

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