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Gabriela Caçador
Gabriela Caçador
26 Mar, 2021 - 09:25

Saúde mental: a incerteza é o que mais nos angustia na pandemia

Gabriela Caçador

A psicóloga Alexandra Antunes passa em revista os problemas de saúde mental decorrentes da pandemia. E lembra que há linhas de apoio.

Alexandra Antunes

Com a pandemia por COVID-19 entramos numa nova realidade, onde passamos a viver distanciados fisicamente dos nossos amigos e da família e com uma grande incerteza em relação ao futuro. Houve quem perdesse o seu emprego, a sua estabilidade financeira, quem perdesse os seus entes queridos. E a saúde mental ressente-se.

Com o teletrabalho veio um maior isolamento e se houve quem se conseguisse adaptar bem a esta nova forma de trabalhar, houve quem sentisse maior dificuldade. As atividades sociais e culturais foram substituídas por mais tempo em casa. E o nosso lar passou a desempenhar também as funções de escritório, sala de aula e espaço de lazer e descanso.  

Com todas estas dificuldades e restrições causadas pela pandemia, quais as consequências para a nossa saúde mental? A psicóloga Alexandra Antunes afirma que “embora ainda não existam muitos dados científicos sobre os efeitos da pandemia, já vão surgindo estudos que referem sofrimento psicológico e fadiga pandémica.

Tudo isto que estamos a viver leva a uma sensação de cansaço que se manifesta com sintomas que podem ser mais, ou menos, graves. Muitas vezes as pessoas referem sintomatologia ansiosa, como por exemplo, aperto no peito, sensação de dificuldade em respirar, irritabilidade fácil, momentos de alguma tristeza e conflitos familiares”. 

Avalie a sua saúde mental

covid-19 e a saúde mental

Se, por um lado, nesta fase, não é invulgar sentirmo-nos tristes, irritados, ansiosos, desmotivados, com alterações de sono, ou com uma sensação de que não conseguimos controlar o nosso dia-a-dia, por outro lado, devemos estar atentos para perceber se precisamos, ou não, de ajuda. Segundo a psicóloga, esta sintomatologia só é preocupante “quando ocorre de forma frequente. Ou seja, não é estarmos ansiosos, uma vez por semana, é sentirmo-nos assim quase diariamente. Quando, de repente, começamos a sentir que a nossa felicidade nos escapa, que temos menos momentos de prazer ao longo do dia, ou quando sentimos dificuldade em iniciar a nossa rotina, ou se o fazemos de uma forma automática. Quando isso se torna sistemático, então aí sim, é o momento de pedir ajuda, nem que seja para pedir uma avaliação”.

Adolescentes e idosos mais afetados

Para Alexandra Antunes as faixas etárias que apresentam maior sofrimento emocional são os adolescentes e os idosos. Nos jovens adultos, “a relação com os pares é muitíssimo importante. Todos nós reconhecemos nos adolescentes uma necessidade muito maior de estar com os amigos do que com a família. Faz parte do seu desenvolvimento e a pandemia está a retirar-lhes essa possibilidade”.

Os idosos, por sua vez, apresentam uma maior vulnerabilidade, porque “muitos vivem sós, muitos já perderam o cônjuge e não têm filhos próximos”. De uma forma geral, o sofrimento psicológico é maior para “as pessoas que estão mais isoladas e com os idosos isso acontece com maior frequência”, explica.

Para além das pessoas que vivem sozinhas, “aquelas que perderam o trabalho, que mantinham menos contacto social e personalidades prévias mais vulneráveis” são as mais predispostas a desenvolver sofrimento psicológico e futuramente, se não houver prevenção, perturbação mental. 

É muito importante ter momentos para nós. Seja a fazer exercício físico, seja um momento de relaxamento a ouvir música, a ler um livro, ou uma aula de meditação. O importante é que nos faça sentir bem

Como ajudar quem está em sofrimento

Alexandra Antunes, que desempenha também a função de supervisora da Linha de Atendimento Psicológico do SNS24, considera que a melhor forma de ajudar quem está a passar por um período de maior stress ou ansiedade é “acima de tudo, incentivar a manutenção das relações, mesmo que isso seja de forma virtual. Somos seres sociais e de afeto. Por isso, temos que encontrar estratégias para manter o contacto. É importante ajudar as pessoas mais idosas, que podem ter dificuldade em usar tecnologia e facilitar uma video-chamada, pelo menos, uma vez por semana. Se não for possível fazer videochamadas, é fundamental manter o contacto telefónico”.

Esta é também a altura certa “para nos reinventarmos e criarmos novos desafios. Porque não escrever cartas que é uma coisa que se perdeu, mas é também uma forma de contar vivências e partilhá-las com um amigo que está mais longe, em vez de apenas telefonar”.

“Mantenha o controlo sobre a sua vida”

Segundo Alexandra Antunes, uma das situações que mais nos angustia nesta pandemia “é a incerteza, a nossa falta de controlo, sejamos nós pessoas mais, ou menos, seguras”, porque a única coisa que, atualmente, podemos controlar “é a nossa atitude individual. Ou seja, é o precavermo-nos da infeção e da transmissão. Esse é o nosso dever, mas sabemos que não controlamos o resto. Por isso, é muito importante mantermos o controlo sobre a nossa vida”.

E como podemos fazê-lo? Organizando o nosso dia-a-dia, de forma a manter rotinas.  É fundamental manter o horário de trabalho, acordar e cuidar da nossa higiene pessoal, tirar o pijama e vestir. Para quem se costumava maquilhar, deve continuar a fazê-lo.

Para precaver a saúde mental é também importante manter a hora das refeições, porque nos “perdemos em teletrabalho”, e ter o cuidado de optar por uma alimentação saudável. Por que motivo é tão importante mantermos a nossa rotina? A psicóloga explica que quando “há um descontrolo sobre o nosso dia, isso vai causando mais stress e mais ansiedade. Para além disso, acrescenta ainda que “é muito importante ter também momentos para nós. Seja a fazer exercício físico, seja um momento de relaxamento a ouvir música, a ler um livro, ou uma aula de meditação. O importante é que nos faça sentir bem”.

Sentimentos de culpa

Em relação às pessoas que possam estar a lidar com o sentimento de culpa por acharem que podem ter sido responsáveis por contagiar terceiros, a psicóloga explica que “só devemos sentir-nos culpados quando temos intenção de fazer mal. Muitas vezes as pessoas não sabem como é que foram infetadas. E grande parte das pessoas infetam não sabendo que estavam infetadas. Por isso, pensar que não houve intenção, ajuda a gerir a culpa”.

Aquilo que vamos ouvindo, de uma forma mais ou menos generalizada, é que tem havido um aumento de pedidos de ajuda nos serviços de psicologia, quer a nível privado, quer no SNS

Já para quem perdeu a sua estabilidade financeira, ou sofreu uma redução do seu salário, a profissional de saúde afirma que “é difícil conseguir dormir de forma tranquila e estar feliz, nestas circunstâncias, principalmente para quem tem uma família que depende de si”.

Segundo Alexandra Antunes, “estamos a atravessar uma fase difícil, mas têm surgido recursos para ajudar as pessoas que estão a passar por momentos de maior dificuldade. O meu conselho é que não desistam e recorram a todos os recursos que têm.  Muitas vezes, quando partilhamos com a família e os amigos as nossas dificuldades, eles conseguem ajudar-nos a encontrar uma saída. Isso pode ser uma opção, para além da ajuda especializada e os recursos da comunidade”.

Mais de 67 mil chamadas

Apesar de ainda não haver dados oficiais, Alexandra Antunes afirma que “aquilo que vamos ouvindo é que tem havido um aumento de pedidos de ajuda nos serviços de psicologia, quer a nível privado, quer no SNS. E já há estudos que confirmam a tendência para um agravamento de sintomas de sofrimento psicológico”. Por esse motivo, a Linha de Atendimento Psicológico do SNS24, que Alexandra Antunes supervisiona, assume especial importância.  

A Linha de Atendimento Psicológico, criada em abril de 2020, funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e está disponível para qualquer pessoa que queira falar sobre o que a estiver a perturbar naquele momento. O atendimento é sempre feito por psicólogos com especialidade em psicologia clínica e com formação para intervir em situações de crise.

A supervisora adianta que desde abril, já receberam mais de 67.000 chamadas, das quais 5300 são de profissionais de saúde. Por esse motivo, não tem dúvidas de que “foi um grande ganho para os cidadãos, que aqui conseguem, muitas vezes, encontrar a acalmia de que precisam para a sua saúde mental”.

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