Miguel Pinto
Miguel Pinto
12 Mar, 2026 - 17:00

Conta está a chegar: taxas de juro sobem e prestações aumentam

Miguel Pinto

Para quem paga crédito à habitação não são boas notícias. A guerra no Irão já levou os mercados a anteciparem a subida das taxas de juro.

Taxas de juro a subir

O cenário que parecia improvável há apenas alguns meses tornou-se, subitamente, a principal preocupação de milhares de famílias portuguesas com crédito à habitação, com os mercados financeiros já a anteciparem a subida das taxas de juro.

Até ao final de fevereiro, o panorama parecia relativamente tranquilo. O Banco Central Europeu (BCE) havia estabilizado as taxas de juro nos 2% desde junho de 2025, e a maioria dos economistas não antecipava grandes alterações ao longo do ano. As Euribor oscilavam ligeiramente acima dos 2%, sem dar sinais de alarme.

Tudo mudou com o início dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão, a 28 de fevereiro. O conflito provocou um choque energético global e gerou grande incerteza nos mercados financeiros, que passaram a antecipar novas subidas das taxas diretoras por parte do BCE.

O mecanismo é relativamente simples de perceber. A guerra no Irão ameaça bloquear o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do petróleo e do gás mundiais.

Com os preços da energia a aumentar, cresce o risco de a inflação voltar a escalar na Europa. E é precisamente esse o cenário que pode levar o BCE a intervir, subindo os juros para tentar travar a subida dos preços.

Taxas de juro: quanto estão os mercados a apostar?

A resposta dos mercados foi rápida e contundente. Os mercados já incorporaram totalmente duas subidas de 25 pontos base por parte do BCE em 2026, sendo a primeira dada como certa para julho, de acordo com os swaps de taxas de juro.

Para contextualizar a velocidade desta mudança, na última sexta-feira os contratos apenas apontavam para uma subida. Em 48 horas, o mercado duplicou as suas apostas.

As comparações com 2022 estão inevitavelmente a surgir. Na altura, a invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou um ciclo agressivo de subidas de juros que fez disparar as prestações de crédito habitação em toda a Europa.

O que muda na prestação da casa?

Taxas de juro dos depósitos a prazo

Para quem tem crédito à habitação com taxa variável, a questão mais imediata é simples: quanto vai pagar a mais?

A resposta depende do indexante contratado (Euribor a 3, 6 ou 12 meses) e da data em que o contrato será revisto. Os contratos cujas condições vão ser revistas no próximo mês já vão sentir o impacto do aumento das tensões geopolíticas.

A título de exemplo, para um empréstimo de 200 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor a 12 meses e com um spread típico, a prestação a pagar nos próximos 12 meses poderá chegar perto dos 660 euros, um acréscimo de cerca de 5,5 euros face à prestação do último ano.

Ainda estamos longe da escalada de juros observada entre 2022 e 2024, mas quando se esperava uma estabilização das taxas ao longo deste ano, os mercados apontam agora para duas subidas de 25 pontos base.

Taxa variável, fixa ou mista: o que fazer agora?

Perante este cenário, muitas famílias estão a questionar-se sobre se devem alterar as condições do seu crédito habitação. Não existe uma resposta única, mas há princípios que podem orientar a decisão.

Quem tem taxa variável fica exposto a subidas futuras das Euribor, mas também beneficiaria caso as taxas voltassem a descer, o que dependerá inteiramente da evolução do conflito e da inflação. O risco é real, especialmente se as duas subidas antecipadas pelo mercado se confirmarem.

Quem tem taxa fixa está protegido de quaisquer oscilações até ao fim do período fixo contratado. Este perfil de contrato oferece previsibilidade total, que tem um valor concreto em momentos de incerteza como o atual.

A taxa mista, com um período inicial fixo e subsequente indexação à Euribor, pode ser uma alternativa interessante para quem quer estabilidade no curto prazo sem perder a possibilidade de beneficiar de descidas futuras.

Para quem pondera mudar de taxa variável para fixa, vale a pena simular o impacto com o banco e comparar o custo desta transição com o risco de uma subida das Euribor nos próximos meses.

spread mais baixo
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O impacto direto nas Euribor

As Euribor, calculadas com base nos empréstimos que os bancos fazem entre si e que servem de referência para o cálculo da prestação mensal do crédito habitação em contratos com taxa variável, já avançaram para máximos de praticamente um ano desde o início do conflito.

Os números são reveladores e a Euribor a 12 meses atingiu a cotação diária mais elevada desde março de 2025. Nos prazos a 3 e 6 meses, os aumentos registados foram os maiores desde março de 2023.

A yield alemã a dois anos, a mais sensível às expectativas de política monetária, escalou 33 pontos base desde os primeiros ataques, chegando aos 2,47%, o valor mais elevado desde o verão de 2024.

Para as famílias portuguesas com crédito à habitação, o recado é claro, ou seja, vale a pena acompanhar a evolução do conflito, rever as condições do empréstimo e, se necessário, simular cenários alternativos com o banco.

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