Trabalhar em casa deixou de ser uma tendência passageira. No 2.º trimestre de 2025, a proporção da população empregada em teletrabalho foi de 20,9% (1.095.800 pessoas), segundo o Instituto Nacional de Estatística. O problema é que muitos continuam a trabalhar do sofá, com o portátil a escaldar as pernas e o pescoço numa posição que faria qualquer fisioterapeuta estremecer.
A diferença entre trabalhar em casa e ter um espaço de trabalho funcional está nos equipamentos certos. Não estamos a falar em gastar fortunas em gadgets desnecessários, mas em investir estrategicamente em itens que eliminam desconforto e aumentam a eficiência. Afinal, aquela dor nas costas ao fim do dia não é normal, e a produtividade não precisa de ser sacrificada só porque o escritório é em casa.
A secretária que define o espaço
Uma tábua de engomar ou a mesa da sala não são boas opções de secretária, por muito criativo que seja o improviso. A superfície de trabalho precisa de espaço suficiente para monitor, teclado, rato e ainda deixar margem para documentos ou uma chávena de café sem riscos de desastre.
As secretárias ajustáveis em altura ganharam popularidade, permitindo alternar entre posições sentada e de pé. Um estudo japonês de três meses mostrou que as secretárias ajustáveis reduziram significativamente dores no pescoço e ombros, além de diminuir o tempo sentado no trabalho. Os modelos eléctricos custam entre 300 e 800 euros, enquanto versões manuais começam nos 150 euros.
Para espaços pequenos, as secretárias dobráveis ou de parede são alternativas inteligentes. O importante é garantir profundidade mínima de 60 centímetros e largura de pelo menos 120 centímetros para trabalho confortável.
A cadeira que vale mais que o ordenado de um dia
Sentar oito horas por dia numa cadeira de cozinha é uma declaração de guerra ao corpo. Uma cadeira ergonómica adequada pode custar entre 200 e 600 euros, mas previne problemas de coluna que custam muito mais em consultas e tratamentos.
As características que a cadeira deve ter são apoio lombar ajustável, altura regulável e braços que acompanham os movimentos. O teste é simples: depois de duas horas sentado, se houver dor ou dormência, a cadeira está errada. Marcas como a Herman Miller, Steelcase ou alternativas portuguesas como a Ongoing oferecem soluções certificadas que duram anos.
Monitor externo é um upgrade importante
Trabalhar exclusivamente no ecrã do portátil é comprimir o mundo num postal. Um monitor externo de 24 ou 27 polegadas transforma a experiência, reduzindo a tensão ocular e permitindo trabalhar com múltiplas janelas abertas sem malabarismos.
A posição correta coloca o topo do monitor ao nível dos olhos, a cerca de 50 a 70 centímetros de distância. Isto obriga a usar um suporte para elevar o portátil ou investir num monitor com ajuste de altura. Os preços variam entre 150 euros para modelos básicos Full HD e 400 euros para monitores 4K com tecnologias de redução de fadiga ocular.
A tecnologia IPS garante melhores ângulos de visão e cores mais precisas, essencial para quem trabalha com design ou edição. Para tarefas gerais, um monitor de 24 polegadas Full HD resolve a maioria das necessidades sem gastar demais.
Teclado e rato: pequenos investimentos com grande Impacto
Um teclado externo ergonómico, com teclas macias e layout confortável, previne lesões por esforço repetitivo que afectam milhares de trabalhadores remotos anualmente.
Os teclados mecânicos oferecem resposta táctil superior e duram anos, com preços entre 60 e 150 euros. Alternativas de membrana custam menos mas podem precisar de substituição mais frequente. O essencial é o ângulo de digitação: pulsos devem permanecer rectos, nunca dobrados para cima ou para baixo.
No caso do rato, os modelos ergonómicos verticais reduzem a tensão no pulso ao manter o braço numa posição mais natural. Custam entre 30 e 80 euros e fazem diferença real para quem passa horas em tarefas que exigem precisão. Um rato sem fios elimina cabos e dá liberdade de movimento, mas requer atenção à bateria.
Auscultadores com cancelamento de ruído
O cão do vizinho não sabe que está numa reunião importante. Auscultadores com cancelamento ativo de ruído criam uma bolha de silêncio que aumenta a concentração e melhora a qualidade das chamadas.
Modelos como o Sony WH-1000XM5 ou o Bose QuietComfort Ultra lideram o mercado, custando entre 400 e 500 euros. Alternativas mais acessíveis, como o Anker Soundcore Space Q45, oferecem desempenho sólido por cerca de 160 euros. Para videochamadas, microfones integrados de qualidade são essenciais, um detalhe que separa modelos de consumo de opções pensadas para trabalho.
Os auscultadores over-ear são mais confortáveis para uso prolongado que os in-ear, embora estes últimos sejam mais portáteis. A autonomia mínima recomendada é de 20 horas para evitar carregamentos constantes.
Iluminação que não cansa os olhos
Trabalhar com a luz errada é garantir cansaço visual e dores de cabeça. A iluminação natural é ideal, mas nem sempre está disponível ou é suficiente. Uma combinação de luz ambiente suave e iluminação de tarefa focada resolve o problema.
As lâmpadas LED com temperatura de cor ajustável permitem adaptar a iluminação ao momento do dia. Durante a manhã, tons mais frios (5000K-6500K) aumentam o estado de alerta. À tarde, tons mais quentes (2700K-3000K) reduzem o cansaço. Candeeiros de secretária com braço articulado custam entre 40 e 120 euros e posicionam a luz exatamente onde é necessária.
Evitar reflexos no monitor é crucial, pois, a luz não deve incidir diretamente no ecrã nem vir de trás, criando contraste excessivo. Cortinas ou estores ajudam a controlar a luz natural excessiva durante o dia.
Internet que não falha na hora H
Uma ligação instável transforma reuniões em episódios de comédia involuntária. Investir num router de qualidade e posicionar corretamente os equipamentos garante velocidade e estabilidade.
Para teletrabalho profissional, a velocidade mínima recomendada é 100 Mbps de download e 20 Mbps de upload. Videochamadas em HD consomem cerca de 3 Mbps, mas ter margem evita problemas quando outros dispositivos usam a rede simultaneamente.
Um router dual-band (2.4GHz e 5GHz) distribui melhor o tráfego. A banda de 5GHz oferece velocidades superiores mas menor alcance, ideal para o escritório. Repetidores Wi-Fi ou sistemas mesh resolvem problemas de cobertura em casas maiores, custando entre 100 e 300 euros conforme a área a cobrir.
Cabos Ethernet continuam a ser a opção mais estável para ligação direta ao router, eliminando interferências do Wi-Fi. Para quem participa em reuniões críticas ou trabalha com transferências grandes de dados, vale a pena ter esta opção.
Extras que fazem a diferença
Alguns equipamentos não são essenciais mas elevam o conforto. Por exemplo, um apoio para os pés corrige a postura quando a cadeira não permite ajuste ideal da altura, custando entre 20 e 50 euros. Outro exemplo, são os tapetes ergonómicos para quem usa secretárias ajustáveis que reduzem o cansaço ao trabalhar de pé, com preços entre 40 e 100 euros.
Um segundo monitor pode parecer excessivo, mas profissionais que trabalham com múltiplas aplicações simultaneamente ganham produtividade significativa. As webcams externas oferecem qualidade de imagem superior às integradas nos portáteis, importante para quem faz apresentações ou trabalha em áreas onde a imagem profissional conta.
Invista de forma inteligente
Montar um escritório em casa não exige comprar tudo de uma vez. A prioridade deve ser ergonomia: cadeira e secretária primeiro, periféricos depois, extras quando o orçamento permitir. Muitos equipamentos têm vida útil longa, tornando o investimento inicial mais palatável quando distribuído por anos de uso.
Comparar preços online e aproveitar promoções sazonais pode representar poupanças de 20 a 30%. Plataformas como a Amazon ou lojas especializadas em mobiliário de escritório oferecem frequentemente descontos em períodos como a Black Friday ou início de ano.
Para quem começa agora, um orçamento base de 800 a 1200 euros cobre os essenciais: cadeira ergonómica (300€), secretária ajustável (250€), monitor (200€), teclado e rato (100€), auscultadores (160€) e iluminação (50€). Este investimento compensa rapidamente em produtividade, conforto e saúde.
O teletrabalho veio para ficar, e trabalhar bem em casa exige as ferramentas certas. Para mais dicas sobre como otimizar o trabalho remoto e gerir melhor as finanças pessoais, subscreva a newsletter do Ekonomista e receba semanalmente conteúdos práticos que fazem a diferença no dia a dia. Porque trabalhar em casa não deveria significar trabalhar pior.