Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
17 Fev, 2026 - 19:00

Tempestade SOS: a plataforma que liga quem precisa a quem pode ajudar em Portugal

Cláudia Pereira

Conheça a Tempestade SOS, plataforma criada por voluntários que já resolveu mais de 1000 ocorrências após a Kristin. Saiba como ajudar ou pedir apoio de forma rápida e eficaz.

Quando a depressão Kristin varreu Portugal em janeiro de 2026, deixou atrás de si um rasto de destruição que ainda se faz sentir. A resposta do Estado demorou, mas a solidariedade dos portugueses foi imediata. Em menos de uma hora após a tempestade, nascia a Tempestade SOS, uma plataforma digital que transformou a forma como os cidadãos se ajudam em situações de emergência.

O que é a Tempestade SOS e como nasceu

A Tempestade SOS é uma plataforma gratuita criada por um grupo de voluntários especialistas em inteligência artificial e comunicação de crise. Ricardo Paiágua e Raquel Garcez Pacheco lideraram a iniciativa, motivados pela dimensão dos danos e pela necessidade de uma resposta rápida e organizada. O lema é claro: “um movimento de pessoas por pessoas. Aqui ninguém fica para trás.”

A plataforma foi desenvolvida em tempo recorde, nascendo da urgência de conectar quem precisa de ajuda com quem está disponível para apoiar. Até meados de fevereiro de 2026, a Tempestade SOS já tinha mobilizado mais de 2000 voluntários e resolvido mais de 1000 ocorrências, números que demonstram o alcance de uma ideia simples mas poderosa: usar tecnologia para facilitar a solidariedade.

O sistema funciona através de um match automático entre pedidos e ofertas de ajuda, privilegiando sempre a proximidade geográfica. Isto significa que uma família em Leiria sem telhado tem maior probabilidade de ser ajudada por alguém da mesma zona, tornando a resposta mais rápida. A equipa por trás da plataforma já tinha experiência em movimentos solidários anteriores, como a Cama Solidária durante a pandemia, o Computador Solidário e o Portugal Sem Chamas.

Como funciona na prática

Entrar na plataforma é simples e acessível a qualquer pessoa. Ao aceder a tempestadesos.com, o utilizador encontra duas opções principais: pedir ajuda ou querer ajudar. Todo o processo foi desenhado para ser concluído em cerca de dois minutos, porque em situações de emergência cada segundo conta.

Para quem precisa de ajuda, o primeiro passo é identificar o tipo de necessidade. A plataforma cobre áreas essenciais que surgem após uma catástrofe natural: energia e geradores, telhas e materiais de construção, apoio prático como mão de obra, alimentos e bens básicos, comunicações, apoio a animais domésticos e de quinta, apoio psicológico, saúde e medicina, e até apoio legal e administrativo para questões burocráticas. Depois de selecionar a categoria, basta preencher a localização, o grau de urgência e as notas de segurança, como preferir encontros em locais públicos ou validação prévia do pedido.

Para quem quer ajudar, o processo é igualmente direto. É preciso indicar que tipo de apoio pode oferecer, seja com bens materiais, tempo disponível para trabalho no terreno, transporte ou até algo tão simples como permitir o carregamento de telemóveis. A plataforma pede a zona onde a pessoa está disponível, a sua disponibilidade temporal e as preferências de contacto. O sistema faz então o cruzamento automático com os pedidos compatíveis, dando prioridade a quem está geograficamente mais próximo.

Funcionalidades além do básico

A plataforma evoluiu rapidamente para responder a necessidades que iam surgindo no terreno. Para além do match básico entre pedidos e ofertas, a Tempestade SOS integra agora várias funcionalidades complementares que fazem dela um verdadeiro hub de apoio em situações de crise.

O SOS Booking é uma área dedicada a alojamento temporário. Permite que quem tem espaço disponível ofereça dormida a desalojados ou a voluntários que se deslocam de outras regiões para ajudar. Esta funcionalidade revelou-se essencial quando centenas de famílias ficaram sem condições para permanecer nas suas casas.

Os Pontos de Recolha constituem uma rede nacional de locais onde se podem entregar ou recolher donativos e materiais. Esta centralização evita duplicação de esforços e garante que os recursos chegam onde são mais necessários. A plataforma indica claramente que materiais são prioritários em cada momento, adaptando-se à evolução das necessidades no terreno.

O Estou Aqui é um espaço para mensagens de apoio e incentivo. Pode parecer secundário, mas numa altura em que muitas pessoas se sentem isoladas e desamparadas, uma palavra amiga pode fazer toda a diferença. “Vocês não estão sozinhos” e “Leiria existe e não está esquecida” são algumas das mensagens que preenchem esta secção.

A funcionalidade Boleias organiza transporte solidário, fundamental quando estradas estão cortadas ou quando voluntários de outras zonas do país querem deslocar-se para ajudar mas enfrentam custos proibitivos nas portagens. Ricardo Paiágua chegou a criticar publicamente estes custos, considerando-os um entrave desnecessário à solidariedade em situações de emergência.

A área de Projectos coordena missões específicas no terreno, como operações de limpeza em determinadas localidades ou ações de distribuição de bens em zonas ainda isoladas. Esta organização por projetos evita que dezenas de voluntários apareçam no mesmo local sem coordenação, enquanto outras áreas ficam sem apoio.

O Não Consigo Falar é uma funcionalidade pensada para situações em que as comunicações estão cortadas. Permite que familiares ou amigos reportem necessidades em nome de quem está sem rede móvel ou internet. A Documentação reúne informação e legal essencial, desde como pedir apoios do Estado até questões de seguros e processos burocráticos que surgem após uma catástrofe.

A plataforma integra ainda alertas meteorológicos em tempo real e um mapa com pontos de distribuição de comida e banhos quentes nos vários distritos. Esta informação atualizada permite que quem está em zonas afetadas saiba exatamente onde pode encontrar apoio imediato.

Impacto real no terreno

Os números falam por si. No início de fevereiro, poucos dias após o lançamento, foram registados 506 pedidos de ajuda e 1334 ofertas, demonstrando que a vontade de ajudar supera em muito as necessidades individuais. O problema nunca foi falta de solidariedade, mas sim falta de coordenação. O distrito de Leiria concentrava o maior número tanto de pedidos como de ofertas, refletindo a devastação causada pela Kristin naquela região.

Entre os pedidos mais frequentes destacam-se as lonas para proteção temporária de telhados danificados, seguidas de geradores para suprir a falta de eletricidade e de telhas ou painéis para reparações. A necessidade de mão de obra qualificada também foi expressiva, com muitas famílias sem capacidade técnica ou física para fazer as reparações necessárias.

Como pode ajudar quem foi afetado pelas tempestades

A ajuda às vítimas das tempestades não se limita à plataforma digital, embora esta seja uma ferramenta essencial de coordenação. Existem várias formas de contribuir, cada uma adequada a diferentes disponibilidades e recursos.

Doação de bens essenciais continua a ser necessária semanas após a Kristin. Alimentos não perecíveis como arroz, massa, azeite, óleo e enlatados são sempre úteis. Leite e papas infantis, produtos de higiene pessoal, fraldas de bebé e adulto, artigos de higiene feminina, cobertores e roupa constituem outras prioridades.

Os materiais de construção são importantes para a fase de reconstrução. Telhas, silicones, areia, cimento, telas de impermeabilização, lonas e plásticos para proteção temporária de habitações fazem a diferença entre uma casa habitável e uma ruína exposta aos elementos. Muitas câmaras municipais, como a de Leiria, estabeleceram pontos de recolha específicos para estes materiais nos seus estaleiros municipais.

O voluntariado presencial é especialmente valioso. A primeira fase de emergência passou, mas a fase longa e exigente de reparação, limpeza e reconstrução ainda decorre.

Para quem tem competências técnicas específicas, a ajuda é ainda mais valiosa. Eletricistas, canalizadores, carpinteiros e outros profissionais da construção podem oferecer as suas habilidades para reparações que exigem conhecimento especializado. Muitas famílias não têm meios financeiros para contratar estes serviços, pelo que a mão de obra voluntária qualificada pode fazer a diferença entre recuperar a casa ou perder tudo.

O apoio psicológico não deve ser esquecido. O Instituto de Apoio à Criança disponibiliza a Linha SOS Criança e Jovem através do número 116 111, oferecendo suporte emocional a quem foi traumatizado pelos eventos. Traumas resultantes de catástrofes naturais são reais e duradouros, especialmente em crianças que viram as suas casas destruídas ou que passaram horas sem saber se os pais estavam bem.

Para quem não pode deslocar-se ou doar bens, há ainda a possibilidade de donativos financeiros. Na plataforma GoFundMe existem mais de 500 iniciativas de recolha para apoiar a região de Leiria, incluindo uma campanha dos Bombeiros Voluntários de Leiria para reconstruir o seu quartel, que já ultrapassou os 47.000 euros.

Outras plataformas complementares

A Tempestade SOS não é a única ferramenta disponível. O ecossistema de apoio inclui outras plataformas que desempenham papéis complementares. O SOS Leiria, desenvolvido por Flávio Fusuma, funciona sobretudo como um mapa interativo de ocorrências. Permite visualizar em tempo real onde estão os problemas, que zonas continuam sem rede móvel, água ou energia.

A Câmara Municipal de Leiria criou o Estragos, um repositório fotográfico que permite às entidades competentes obter um retrato completo da situação no terreno. A plataforma conta com apoio da Tekever, fabricante de drones que realizou voos de reconhecimento pelo concelho.

A Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil mantém a sua própria plataforma com informação atualizada sobre o número de ocorrências, zonas de risco e alertas meteorológicos.

Como continuar a ajudar

A recuperação das zonas afetadas vai levar meses, senão anos. A fase de emergência passou, mas a reconstrução está apenas a começar. Muitas famílias continuam a viver em condições precárias, com telhados tapados por lonas que não resistirão ao próximo temporal. Empresas perderam instalações e equipamentos, agricultores viram produções inteiras destruídas, escolas precisam de reparações para funcionar em segurança.

A Tempestade SOS continua ativa e a aceitar voluntários. Quem quer ajudar pode inscrever-se na plataforma indicando disponibilidade a médio e longo prazo. As necessidades vão evoluir, passando gradualmente de bens de emergência para mão de obra qualificada, apoio psicológico continuado e reconstrução de infraestruturas. Manter a mobilização solidária além do momento mediático da catástrofe é o grande desafio.

Para quem não pode ajudar diretamente, partilhar informação sobre a plataforma nas redes sociais e junto de conhecidos também faz a diferença. Quanto mais pessoas souberem que a Tempestade SOS existe, mais eficaz será a coordenação entre quem precisa e quem pode ajudar.

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