Miguel Pinto
Miguel Pinto
23 Mar, 2026 - 12:30

10 medidas urgentes que a AIE recomenda para combater a crise do petróleo (e duas afetam-no diretamente)

Miguel Pinto

Mais teletrabalho e menos velocidade nas estradas são algumas das recomendações da Agência Internacional de Energia.

mulher em teletrabalho

Há poucos anos, o teletrabalho foi apresentado como uma solução de emergência sanitária. Hoje, ressurge com um argumento diferente, mas igualmente urgente.

A escalada dos preços dos combustíveis, alimentada pela instabilidade no Médio Oriente e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, colocou a Agência Internacional de Energia (AIE) a recomendar, de forma expressa, que trabalhadores e empresas regressem ao modelo remoto sempre que possível. Quem não se desloca não consome combustível.

O conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão gerou aquilo que a própria AIE classifica como a maior perturbação do abastecimento na história do mercado global de petróleo. O tráfego pelo Estreito de Ormuz foi reduzido a níveis mínimos e o resultado direto foi a subida do preço do petróleo bruto acima dos 100 dólares por barril.

Teletrabalho: o que recomenda a AIE?

A AIE publicou um relatório de urgência com dez medidas imediatas para reduzir a procura de petróleo. No topo da lista, surgem duas recomendações com impacto direto no mundo do trabalho: trabalhar a partir de casa sempre que possível e reduzir os limites de velocidade nas autoestradas em pelo menos 10 km/h.

O argumento da agência é lógico, já que o teletrabalho “substitui o consumo de petróleo nas deslocações diárias”, enquanto velocidades mais baixas reduzem o consumo de combustível entre 5% e 10% por veículo.

As 10 medidas recomendadas pela AIE

  1. Trabalhar a partir de casa sempre que possível, para reduzir o consumo nas deslocações diárias;
  2. Reduzir os limites de velocidade nas autoestradas em pelo menos 10 km/h;
  3. Incentivar os transportes públicos;
  4. Alternar o acesso de carros nas grandes cidades por sistema de matrículas (pares/ímpares);
  5. Aumentar a partilha de veículos e adotar práticas de condução eficientes;
  6. Otimizar cargas e manutenção em veículos comerciais e de entrega;
  7. Desviar o uso de GPL dos transportes para necessidades essenciais como cozinhar e aquecer água;
  8. Evitar viagens aéreas sempre que existam alternativas ferroviárias;
  9. Promover fogões elétricos e alternativas à dependência do GPL doméstico;
  10. Aproveitar a flexibilidade petroquímica na indústria para libertar GPL e reduzir consumo de petróleo.

O que significa isto para as empresas portuguesas?

penteados para teletrabalho

Para as organizações, o teletrabalho deixou de ser apenas um benefício para os colaboradores ou uma estratégia de atração de talento.

Neste novo contexto, é também um instrumento de gestão energética e de contenção de custos operacionais. As empresas que mantêm ou adotam modelos híbridos estão, objetivamente, a reduzir a sua pegada em combustíveis e a proteger os seus trabalhadores do impacto direto nos bolsos.

Em Portugal, a experiência da pandemia mostrou que uma parte significativa das funções administrativas, financeiras, de tecnologia, marketing, consultoria e serviços pode ser desempenhada remotamente sem perda de produtividade.

O exemplo vem também de outros países. As Filipinas e o Paquistão implementaram semanas de trabalho de quatro dias para funcionários públicos. O Sri Lanka fechou os escritórios públicos às quartas-feiras.

Na Europa, recorde-se, algo semelhante aconteceu durante a crise energética de 2022-2023, quando os governos instaram os trabalhadores a ficar em casa para reduzir a procura de petróleo e gás.

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Poupança de energia e o teletrabalho

Durante anos, o debate sobre o teletrabalho girou em torno da produtividade, da conciliação família-trabalho e da flexibilidade. Agora, surge um novo ângulo, a eficiência energética corporativa.

As empresas que apostam no trabalho remoto consomem menos energia nos seus escritórios, com menos iluminação, menos climatização, menos equipamentos ligados.

Ao mesmo tempo, os colaboradores poupam nas deslocações, que representam um custo crescente com os combustíveis a disparar.

Transporte rodoviário como ponto crítico

A AIE sublinha que o transporte rodoviário representa cerca de 45% da procura global de petróleo, e que nas economias mais avançadas, os automóveis de passageiros são responsáveis por cerca de 60% do consumo de energia nas estradas.

Reduzir o número de deslocações casa-trabalho é, por isso, uma das alavancas mais eficazes e rápidas para diminuir a pressão nos mercados petrolíferos.

O que pode acontecer aos preços dos combustíveis?

O choque atual é maior do que qualquer perturbação energética da história recente, sendo mesmo superior ao da crise petrolífera dos anos 1970 e ao choque do gás natural que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Os analistas admitem que o preço do barril pode atingir os 200 dólares caso a situação no Médio Oriente se agrave.

Para as famílias e as empresas portuguesas, a mensagem é clara. Enquanto o Estreito de Ormuz não for reaberto ao tráfego normal, e a própria AIE admite que, mesmo que isso aconteça em breve, serão necessários “meses e meses” para que a infraestrutura energética se normalize.

Como tal, os preços permanecerão elevados. Adaptar os modelos de trabalho não é apenas uma opção responsável. Pode ser uma necessidade económica.

Teletrabalho e crise energética: perguntas frequentes

Por que razão a AIE recomenda o teletrabalho como medida energética?

Porque as deslocações casa-trabalho representam uma fatia significativa do consumo diário de combustíveis. Quem trabalha a partir de casa não usa
o carro para se deslocar, o que reduz diretamente a procura de petróleo,
aliviando a pressão nos mercados e nos preços.

O teletrabalho pode mesmo fazer diferença na crise energética global?

Sim, em conjunto com outras medidas. A AIE estima que o conjunto
das dez recomendações pode poupar até cerca de 6 milhões de barris por dia, compensando em parte a escassez global de crude. As medidas do lado
da procura não resolvem o problema sozinhas, mas representam um contributo imediato e significativo.

As empresas são obrigadas a adotar o teletrabalho?

Não, as recomendações da AIE são dirigidas a governos, empresas e famílias,
mas não têm caráter obrigatório. Cabe a cada país e organização decidir
se e como as implementa. A agência apela a que os governos liderem
pelo exemplo no setor público e criem incentivos adequados.

Qual é a causa imediata da atual crise do petróleo?

O conflito no Médio Oriente, envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão,
provocou o bloqueio quase total do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz,
por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo. Esta
perturbação fez disparar os preços do crude acima dos 100 dólares por barril.

Que outros países já adotaram medidas de redução de deslocações?

As Filipinas e o Paquistão introduziram semanas de quatro dias de trabalho
para funcionários públicos. O Sri Lanka fechou escritórios públicos
às quartas-feiras. A Tailândia, o Laos e o Vietname promovem ativamente
o trabalho remoto. Na Europa, medidas semelhantes foram adotadas
durante a crise energética de 2022-2023.

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