Share the post "Combustíveis mais caros: abastecer em Espanha ainda faz sentido?"
Com o barril de petróleo a ultrapassar os 118 dólares e combustíveis mais caros, está a desenhada a tempestade perfeita a afetar o bolso dos portugueses.Mas a questão que muitos portugueses voltam a colocar é sempre porque é que o combustível e o gás continuam a ser mais baratos do outro lado da fronteira?
A resposta é estrutural, tem décadas, e o atual contexto geopolítico está a torná-la ainda mais dolorosa. O impacto nos mercados do ataque militar ao Irão foi imediato e brutal. O Brent, referência europeia, que estava nos 72 dólares por barril antes do conflito, atingiu os 108 dólares na semana seguinte e os 118 dólares logo a seguir.
O gás natural também disparou, chegando a superar os 60 euros por megawatt-hora. O Qatar suspendeu a produção de GNL por razões de segurança, e os analistas alertam que o choque nos preços pode não ser passageiro.
Para Portugal e Espanha, países sem produção própria de petróleo e fortemente dependentes das importações, este cenário traduz-se diretamente no preço na bomba.
Combustíveis mais caros em Portugal: subida ímpar
A segunda-feira, 9 de março de 2026, ficará marcada como uma das semanas mais difíceis para os condutores portugueses.
As previsões do setor apontavam para uma subida de mais de 23 cêntimos por litro no gasóleo simples e de cerca de 7,5 cêntimos na gasolina 95, o maior aumento semanal de sempre registado em Portugal.
Face à magnitude da subida, o Governo comprometeu-se com um desconto extraordinário e temporário no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP) caso a subida dos combustíveis superasse os 10 cêntimos por litro.
Como se tornou óbvio que isso ia acontecer, aplicou-se uma redução de 3,55 cêntimos por litro no ISP do gasóleo rodoviário, o único combustível com aumento superior ao limiar definido.
Ainda assim, com o desconto, o gasóleo simples fixou-se à volta dos 1,82 euros por litro, e a gasolina 95 em torno de 1,78 euros. Valores historicamente elevados, que colocam Portugal uma vez mais entre os países com combustíveis mais caros da Europa.
A diferença estrutural entre Portugal e Espanha

Antes de qualquer guerra ou crise geopolítica, já havia uma diferença consistente e significativa entre os preços praticados em Portugal e em Espanha.
Essa diferença não tem nada a ver com o custo da matéria-prima, até porque o petróleo é comprado nos mercados internacionais ao mesmo preço para ambos os países. A explicação é uma só, a carga fiscal.
Em Portugal, os impostos representam entre 50% a 56% do preço final da gasolina simples e cerca de 44% do preço do gasóleo.
Em Espanha, essa percentagem fica nos 49,2% para a gasolina, uma diferença que, traduzida em cêntimos, representa uma vantagem consistente de 10 a 21 cêntimos por litro para o consumidor espanhol, dependendo do combustível e do momento.
No gasóleo, a diferença rondava os 15 cêntimos por litro antes do conflito. Na gasolina, chegava aos 21 cêntimos.
A situação agrava-se agora com um paradoxo político. Portugal tinha em vigor um desconto no ISP desde 2022, criado para atenuar o choque dos preços na sequência da guerra na Ucrânia.
UE pressiona Portugal
A Comissão Europeia pressionou o governo português a eliminar esse desconto gradualmente, o que foi sendo feito a partir de dezembro de 2025.
Ironicamente, Bruxelas não fez o mesmo pedido a Espanha, que sempre praticou taxas de imposto mais baixas sobre os combustíveis, e que por isso nunca precisou de introduzir medidas de alívio transitórias.
O resultado é que Portugal está agora a reverter um desconto que tinha, ao mesmo tempo que enfrenta um choque externo de preços, enquanto Espanha começa este choque com uma base fiscal estruturalmente mais favorável.
Espanha também sobe, mas a base é mais baixa

Seria errado concluir que Espanha sai ilesa desta crise energética. Os preços espanhóis também subiram de forma acentuada. Em Tui, mesmo junto à fronteira com Valença, o gasóleo que estava a cerca de 1,40 euros por litro no início de fevereiro passou para 1,619 euros na primeira semana de março.
O Governo espanhol admitiu a possibilidade de intervir com descontos semelhantes aos aplicados em 2022, caso a escalada continue. Mas, mesmo com esta subida, os preços espanhóis continuam abaixo dos portugueses. E é isso que mantém o fluxo de portugueses em direção à fronteira.
Combustíveis mais caros: romaria na fronteira
Em qualquer posto de combustível das cidades fronteiriças espanholas, as matrículas portuguesas são sempre maioria. Esta é uma realidade com décadas, mas que se intensifica em cada crise de preços. E nos últimos dias, voltou a ganhar uma expressão particularmente visível.
Em Tui, à entrada da ponte que liga a cidade galega a Valença, os postos enchem-se de portugueses que chegam do Minho para abastecer. “Habitualmente a subida dos combustíveis era de um ou dois cêntimos, mas desde domingo subiram 20 cêntimos”, afirmou um funcionário de um desses postos citado peloo Jornal de Notícias.
A subida dos preços espanhóis não afasta os portugueses, apenas os torna mais apressados. Junto à fronteira de Vila Verde da Raia, em Chaves, o padrão é o mesmo. Portugueses de Chaves, de Boticas, de Vila Pouca de Aguiar e até de Vila Real fazem a viagem regular para encher o depósito e levar botijas de gás.
“Vou poupar no gás 20 euros porque trago duas botijas. É muito dinheiro”, conta um dos clientes habituais à Rádio Renascença. “Não se percebe esta diferença até porque a marca é a mesma”, lamenta outro.
Duas botijas pelo preço de uma

No Algarve, a ponte internacional sobre o Guadiana que liga Vila Real de Santo António a Ayamonte é uma das mais movimentadas do país nos dias de abastecimento.
“Com o dinheiro de uma botija cá, compro aqui duas”, explicou um residente em Vila Real de Santo António, à Agência Lusa. A viagem de 10 minutos em cada sentido compensa largamente.
O fenómeno é tão enraizado que, em muitas localidades fronteiriças, os postos espanhóis têm funcionários que falam português fluente e cartazes afixados nas secções do gás escritos para o público português.
Os combustíveis mais caros são a razão principal da deslocação, mas o gás em botija tornou-se quase um produto de culto nas compras transfronteiriças. A diferença de preço é, em alguns casos, a mais chocante de todas.
Em Portugal, uma botija de gás butano de 12,5 quilogramas custa em média entre 27 e 32 euros, podendo atingir os 33 euros dependendo da marca e localidade.
Em Espanha, a mesma botija pode ser adquirida por 15 a 19 euros, uma poupança que ronda, regra geral, os 10 a 15 euros por unidade. Quem leva duas botijas numa única viagem recupera facilmente o custo da deslocação e ainda sai em vantagem.
Regras diferentes
Esta diferença também tem raízes fiscais e regulatórias. O mercado do gás engarrafado em Portugal está sujeito a regras diferentes das espanholas, com a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) a fixar preços máximos.
No mercado espanhol não existe qualquer intervenção regulatória equivalente. Há, contudo, um aspeto legal que os consumidores devem conhecer. A composição do gás butano pode variar entre os dois países, tornando as garrafas e os redutores de pressão incompatíveis.
Quem compra gás em Espanha para usar em Portugal precisa de adquirir também os adaptadores adequados. Além disso, o transporte de produtos perigosos está sujeito a regras específicas.
O Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) esclarece que o transporte de líquidos inflamáveis em recipientes recarregáveis não pode exceder os 60 litros por recipiente e os 240 litros por unidade de transporte. Dentro destes limites, a prática é legal.
É legal abastecer combustível em Espanha e regressar a Portugal? Sim.
Dentro do espaço Schengen, não existem restrições ao abastecimento de combustível num país membro para uso pessoal. O combustível que vai
no depósito do veículo está isento de qualquer declaração aduaneira.
Posso transportar botijas de gás de Espanha para Portugal? Sim, desde
que o transporte respeite as regras de segurança do IMT: máximo de 60
litros por recipiente e 240 litros por unidade de transporte. É importante
adquirir os adaptadores corretos, pois as botijas espanholas usam válvulas
diferentes das portuguesas.
Quando se refletem as subidas nos preços dos combustíveis em Portugal?
As alterações de preço em Portugal ocorrem habitualmente às
segundas-feiras, com base nos custos de produção e comercialização
da semana anterior. As empresas petrolíferas atualizam os preços
comunicados aos seus revendedores nesse dia.
O Governo vai tomar mais medidas? O primeiro-ministro Luís Montenegro comprometeu-se a acompanhar a evolução dos preços nas semanas
seguintes ao início do conflito, sem excluir medidas adicionais. A Anarec
(Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis) considerou
o desconto de 3,55 cêntimos insuficiente e pediu ao Governo
que fosse mais longe.
Combustíveis mais caros: o que esperar a seguir
Os analistas são unânimes e enquanto o Estreito de Ormuz permanecer bloqueado ou instável, os preços vão continuar a subir. Alguns modelos de analistas apontam para a possibilidade de o barril de Brent atingir os 147 dólares.
Para os consumidores ibéricos, isso significa continuar a sentir subidas semanais. O Governo português prometeu acompanhar a evolução dos preços nas próximas semanas, sem excluir mais medidas a nível nacional e até ibérico.
Para os portugueses das regiões fronteiriças, a equação é simples e enquanto houver diferença de preços de um lado e do outro da fronteira, a “romaria” vai continuar.