Miguel Pinto
Miguel Pinto
19 Jan, 2026 - 15:30

Açude da Ribeira: refúgio discreto entre a serra e o vale

Miguel Pinto

Um passeio até ao Açude da Ribeira, em Ervedal da Beira. Conheça os trilhos para caminhadas e toda uma paisagem que o vai encantar.

vale do açude da ribeira

O Açude da Ribeira, em Ervedal da Beira, existe porque sempre existiu. Foi construído para servir a terra, regular a água, apoiar a vida agrícola local.

O facto de hoje ser também um refúgio natural procurado por quem gosta de caminhar, mergulhar ou simplesmente estar é quase um efeito colateral feliz.

Situado numa das encostas mais tranquilas do concelho de Oliveira do Hospital, este açude integra uma paisagem que mistura ribeiras limpas, caminhos rurais antigos, campos cultivados e a presença constante da serra no horizonte.

Não há espetáculo artificial. Há continuidade. E isso sente-se logo à chegada.

Por isso, impõe-se uma visita sem pressa nem rigidez. Porque este não é um sítio que se consuma. É um sítio que se percorre.

Açude da Ribeira: paredes meias com a aldeia

O Açude da Ribeira localiza-se a curta distância da aldeia de Ervedal da Beira, numa zona onde a ribeira serpenteia entre terrenos agrícolas e manchas de vegetação espontânea.

A proximidade à Serra da Estrela, sobretudo nas suas encostas mais suaves, influencia o clima, a qualidade da água e o tipo de paisagem que se encontra ao longo do percurso.

O acesso faz-se a partir da aldeia, seguindo caminhos de terra batida e trilhos usados diariamente por moradores locais. Não existem parques de estacionamento formais nem sinalética turística estruturada.

Esse detalhe, longe de ser um problema, contribui para a sensação de descoberta e para a preservação do lugar. Chega-se devagar, quase sempre a pé, e isso prepara o ritmo do que vem a seguir.

Trilhos disponíveis e possibilidades

Os trilhos que conduzem ao Açude da Ribeira não fazem parte de uma rede oficial com marcas padronizadas, mas estão bem definidos no terreno. São percursos moldados pelo uso contínuo, não pelo desenho em gabinete. E isso nota-se.

O trilho ribeirinho, o mais utilizado, acompanha o curso da ribeira a partir da zona baixa de Ervedal da Beira.

É um percurso curto, relativamente plano, com sombra natural em vários troços e pontos onde o som da água domina completamente o ambiente. É adequado para caminhadas tranquilas, sem exigência técnica, e permite vários acessos diretos ao leito da ribeira.

Existe também um percurso circular mais alargado, que combina caminhos agrícolas antigos, muros de pedra solta e pequenas subidas até zonas mais abertas, com vistas sobre o vale.

Este trilho liga o açude a áreas menos frequentadas, onde a paisagem se torna mais ampla e o silêncio mais denso. Não exige preparação especial, mas pede atenção em épocas chuvosas, quando o piso pode tornar-se irregular.

Além destes percursos mais óbvios, há desvios, atalhos e caminhos secundários que não aparecem em mapas digitais. São usados por quem conhece o território. Segui-los implica aceitar algum grau de improviso. Faz parte.

O Açude da Ribeira: água, sombra e pausa

açude da ribeira em oliveira do hospital

O açude em si é discreto. Forma uma zona de água calma, com profundidade variável, criada pela pequena estrutura de retenção que atravessa a ribeira.

Nos meses mais quentes, transforma-se num local procurado para banhos, sobretudo por quem conhece a zona e regressa ano após ano.

A água é fria, vinda das zonas mais altas da serra, mesmo em pleno verão. O primeiro contacto é intenso. Depois, estranhamente reconfortante. As margens permitem sentar, descansar, estender uma toalha ou simplesmente observar o movimento lento da água.

Não existem infraestruturas de apoio. Tudo o que se leva, leva-se de volta. E isso mantém o equilíbrio.

O espaço convida à permanência sem pressa. Não há muito para fazer. E isso, aqui, é exatamente o objetivo.

O que ver e fazer nas redondezas

A visita ao Açude da Ribeira ganha outra dimensão quando integrada no território envolvente. Ervedal da Beira é uma aldeia que merece ser percorrida a pé, sem destino definido.

As casas de pedra, as ruas estreitas, as fontes antigas e os pequenos campos cultivados ajudam a compreender a relação íntima entre a população local e a paisagem.

A poucos quilómetros encontra-se Oliveira do Hospital, que funciona como ponto de apoio natural para quem quer prolongar o passeio.

A cidade oferece restauração, comércio local e acesso a outros trilhos e praias fluviais do concelho, permitindo construir um dia inteiro ou até um fim de semana de descoberta tranquila.

Mais acima, já em direção à serra, surgem aldeias serranas, miradouros naturais e percursos pedestres mais exigentes, ideais para quem quer aprofundar a relação com a paisagem do Centro de Portugal.

Tudo está relativamente perto, mas suficientemente disperso para evitar a sensação de circuito turístico fechado.

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Melhor altura para visitar e cuidados a ter

A melhor época para visitar o Açude da Ribeira estende-se da primavera ao início do outono.

No verão, o açude torna-se particularmente apelativo, mas raramente atinge níveis de afluência elevados. Na primavera, a vegetação está no auge e os trilhos tornam-se especialmente agradáveis.

Convém levar calçado confortável, água suficiente e alguma cautela ao caminhar junto à ribeira, sobretudo após períodos de chuva.

Não perca este destino para um passeio ou uma escapadinha de fim de semana. O Açude da Ribeira é um lugar para caminhar, parar, ouvir. E depois regressar, sabendo que nem todos os sítios precisam de ser transformados para valerem a pena.

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