A versão final do Amália, o modelo de linguagem de inteligência artificial desenvolvido em Portugal, chega em junho de 2026. Gratuito, em código aberto e multimodal, representa um passo histórico para a soberania digital nacional.
Trata-se do primeiro modelo de inteligência artificial criado de raiz para compreender, interpretar e comunicar em português europeu, respeitando não só a variante linguística, mas também o contexto cultural e social de Portugal.
Tecnicamente, trata-se de um Large Language Model (LLM), ou modelo de linguagem de larga escala. Ao contrário de serviços como o ChatGPT ou o Gemini, o Amália não está pensado, numa primeira fase, como um chatbot diretamente acessível ao público. O objetivo principal é integrar inteligência artificial em serviços digitais da Administração Pública.
Amália: quando chega a versão final?
A versão multimodal do Amália, a única disponível para uso público, será anunciada no final do segundo trimestre de 2026. O Ministério da Reforma do Estado confirmou que o desenvolvimento “prossegue conforme as estimativas iniciais“.
O projeto passou por três fases distintas. Numa primeira fase foi lançada a versão beta, depois, a versão base, atualmente em uso, seguindo-se a multimodal.
O Amália será inteiramente gratuito. A versão final será disponibilizada em formato open source e gratuito no final do projeto, previsto para o final do primeiro semestre de 2026.
Capacidades: o que pode fazer o Amália?
O Amália não se limita ao processamento de texto. Com foco inicial na educação, ciência e cultura, o Amália foi treinado em dados da língua portuguesa e distingue-se por integrar múltiplas modalidades: texto, fala, imagem e vídeo.
Entre as suas funcionalidades estão a capacidade de responder a perguntas, gerar código, explicar conceitos, resumir textos e interpretar informação, tendo como base o conhecimento do contexto cultural português.
O modelo foi treinado com grandes volumes de dados digitalizados, com conhecimento estruturado até cerca de 2023, e continua a ser ajustado para melhorar a capacidade de responder a instruções e compreender pedidos humanos.
Quem o desenvolveu?
O desenvolvimento do Amália envolve cerca de 60 investigadores de várias instituições académicas portuguesas, entre elas a NOVA FCT e o Instituto Superior Técnico, em colaboração com as universidades de Coimbra, Minho, Porto, Beira Interior e Évora. O projeto integra ainda alunos de mestrado e doutoramento, reforçando a ligação entre investigação científica e inovação prática.
Quanto custou e quem financiou?
O desenvolvimento do Amália custa 5,5 milhões de euros, valor totalmente coberto pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Para além deste valor, o Governo prevê investir 20 milhões de euros na adoção de inteligência artificial no Estado em 2026, no âmbito de três projetos que incluem o lançamento do Amália na sua versão multimodal.
Para que fins será utilizado?

O principal vetor de aplicação do Amália é a Administração Pública.
Estão já previstas aplicações em serviços da Administração Pública, através do portal gov.pt e na área da ciência, através da plataforma IAedu da Fundação para a Ciência e Tecnologia, potenciando aplicações open source, análise de dados científicos e iniciativas pedagógicas inovadoras.
Ainda assim, por se tratar de um modelo em código aberto, pretende-se a disponibilização do modelo em open source para que possa ser utilizado para o desenvolvimento de aplicações pela sociedade civil, como empresas e centros de investigação.
Soberania digital e estratégia nacional
Um dos principais objetivos do projeto é garantir maior soberania digital para Portugal num setor dominado por grandes empresas tecnológicas internacionais.
Ao criar um modelo treinado especificamente para o português europeu e para a realidade cultural do país, os responsáveis pretendem evitar dependência tecnológica e melhorar a qualidade das respostas em contextos locais.
A criação do Amália está inserida na Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA), no âmbito da qual o Governo prevê investir mais de 400 milhões de euros entre 2026 e 2030.
O Governo admite ainda que a IA poderá contribuir para um acréscimo entre os 18 e os 22 mil milhões de euros do PIB na próxima década.
A origem do nome
Para terminar, o porquê deste nome. É uma homenagem a Amália Rodrigues, considerada uma das maiores figuras culturais de Portugal e frequentemente chamada de “voz de Portugal”. O acrónimo significa Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial.