Miguel Pinto
Miguel Pinto
11 Fev, 2026 - 16:00

Caminho da Geira no Gerês: siga os passos dos antigos romanos

Miguel Pinto

Remonta ao tempo dos romanos e entra direto no coração do fantástico Gerês. O Caminho da Geira é uma jornada a não perder.

caminho da geira no gerês

Há trilhos que se fazem. E há trilhos que nos atravessam. O Caminho da Geira, no Gerês, pertence claramente à segunda categoria.

Entre o granito duro e o som constante do rio, desenha-se uma das mais impressionantes heranças do período romano em Portugal. Não é um museu ao ar livre. É uma estrada antiga, real, ainda legível, ainda pisável. E isso muda tudo.

O Caminho da Geira segue o traçado da antiga Via XVIII romana, construída no século I d.C. para ligar Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga).

A estrada fazia parte de um sistema viário estratégico do Império Romano na Península Ibérica.

Hoje, parte significativa desse traçado atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês, especialmente na zona do vale do Rio Homem.

O percurso está sinalizado como pequena rota pedestre, conhecida como PR 9 – Geira Romana. Mas chamar-lhe apenas “trilho” é curto. Trata-se de uma infraestrutura com quase dois mil anos que continua ali. Firme. À vista de todos.

Caminho da Geira: uma história romana

Os romanos não construíam estradas por capricho. Construíam para dominar território, facilitar comércio, transportar tropas e integrar províncias. A Geira cumpria essas funções todas.

Ao longo do trajeto encontram-se dezenas de miliários, marcos de pedra cilíndricos que indicavam distâncias e homenageavam imperadores.

Este troço do Gerês concentra um dos conjuntos mais relevantes de miliários da Península Ibérica. Alguns mantêm inscrições parcialmente legíveis. Outros resistem apenas na forma.

Especialistas em património romano sublinham frequentemente que a Geira no Gerês é um caso raro de conservação em ambiente de montanha.

Não foi soterrada por urbanização. Não foi absorvida por infra-estruturas modernas. Permaneceu. À margem do ruído. E talvez isso explique o impacto que tem quando se caminha sobre ela.

Como é o percurso deste trilho?

O piso alterna entre lajes antigas, troços empedrados e caminhos de terra compacta. O traçado acompanha curvas naturais do terreno, evitando declives extremos. Os romanos sabiam o que faziam.

Não é um percurso técnico. Mas não é plano. Há subidas constantes, descidas moderadas e zonas onde o granito exige atenção redobrada, sobretudo após chuva.

O ambiente é dominado por carvalhais, mato atlântico e encostas graníticas que parecem guardar silêncio há séculos. No inverno, o frio é intenso. No verão, a altitude e a proximidade da água oferecem algum alívio.

O que pode ver ao longo do Caminho da Geira?

gado no gerês

O acesso a este caminho faz-se sobretudo pela zona de Campo do Gerês e Vila do Gerês, no concelho de Terras de Bouro. E há muito para ver ao longo da caminhada.

Miliários romanos

São o elemento mais marcante. Surgem isolados, agrupados ou integrados em pequenos núcleos interpretativos. Não são réplicas. São peças originais.

Ao aproximar-se de um miliário, percebe-se que aquela pedra já assistiu a muito mais do que imaginamos. Foram tropas, comerciantes, pastores e, claro, caminhantes modernos.

Estrutura viária antiga

Em certos pontos é possível observar encaixes de drenagem, taludes e alinhamentos cuidadosamente talhados na rocha. Estes detalhes mostram que a Geira não era um simples caminho de terra. Era uma obra de engenharia.

Vale do Rio Homem

O rio acompanha grande parte do percurso. A água corre clara e fria. As margens oferecem zonas de descanso e pequenos poços naturais. A paisagem é aberta, ampla, sem construções invasivas.

Em dias de nevoeiro, o cenário transforma-se completamente. E pronto, a sensação é outra. Mais fechada. Mais antiga.

Património rural serrano

Ao longo do caminho surgem vestígios de ocupação rural tradicional, como muros de granito, espigueiros e pequenos aglomerados habitacionais. A continuidade histórica entre o mundo romano e o rural é evidente.

Caminho da Geira: perguntas frequentes

O Caminho da Geira é difícil?
Não. É acessível a caminhantes com condição física básica, mas inclui
desníveis moderados.

Quanto tempo demora o percurso?
Depende do troço escolhido. Algumas secções fazem-se em duas
a três horas. Outras ocupam um dia inteiro.

Pode ser feito com crianças?
Sim, em troços mais curtos e acompanhados.

É possível visitar todo o ano?
Sim. A primavera e o outono oferecem melhores condições climáticas.

O que são miliários romanos?
Marcos de pedra que indicavam distâncias nas vias romanas e frequentemente homenageavam imperadores.

É preciso guia?
Não é obrigatório. A sinalização é suficiente, mas um guia
enriquece a experiência histórica.

Que atividades pode fazer no Caminho da Geira?

cavalos selvagens no gerês

A atividade principal é caminhar. Pode optar por percursos curtos ou ligar troços mais extensos. Não há necessidade de cumprir todo o traçado de uma vez.

Segundo dados recentes do ICNF, o Parque Nacional da Peneda-Gerês ultrapassa um milhão de visitantes anuais, com crescente procura por trilhos de menor massificação. A Geira integra esse perfil.

Fotografia de paisagem e património

O contraste entre granito, vegetação e estruturas romanas cria enquadramentos naturais fortes. A luz da manhã ou do final da tarde oferece melhores condições para fotografia.

Observação de natureza

A zona alberga aves de rapina, anfíbios e flora típica de montanha atlântica. A primavera é especialmente rica em diversidade biológica. No outono, as cores alteram a perceção do espaço.

Interpretação histórica

Para quem se interessa por história antiga, o Caminho da Geira funciona como aula prática. A leitura do território permite compreender como os romanos selecionavam traçados e como a paisagem condicionava decisões estratégicas.

A não esquecer

parte do caminho da geira

O percurso não exige inscrição nem pagamento. Está inserido em área protegida, pelo que deve respeitar as normas do Parque Nacional. Use calçado adequado. Leve água. Consulte a previsão meteorológica antes de iniciar a caminhada. Não remova pedras nem elementos históricos. A rede móvel pode falhar em alguns pontos. Convém ter mapa offline ou GPS.

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