Share the post "Carro danificado por inundação: reparar ou declarar perda total?"
Depois do “comboio de tempestades” que varreu Portugal nas últimas semanas, muitos condutores encontraram os seus carros submersos em água, lama e detritos. A pergunta que se impõe é tão simples quanto angustiante: vale a pena reparar ou é melhor aceitar a perda total? A resposta depende de vários fatores que vão muito além do aspeto exterior do veículo.
O que a água faz a um carro
A gravidade dos danos num carro inundado depende sobretudo de dois fatores: até que ponto a água subiu e se o motor estava em funcionamento no momento da submersão.
Motor é o órgão mais vulnerável
Quando a água entra pela admissão do motor com o veículo ligado, o cenário é quase sempre grave. Como a água não é compressível, a sua entrada nos cilindros pode deformar as bielas e provocar a rutura completa do bloco.
A substituição integral do motor custa a partir de 3.000 euros em viaturas com cerca de 15 anos e pode atingir valores entre 10.000 e 15.000 euros em modelos recentes de gama média. Se o carro esteve estacionado e desligado, há maior probabilidade de o motor ter escapado ao pior, mas não elimina o risco.
Eletrónica pode ser um problema silencioso
Os veículos modernos integram entre 25 e 30 unidades eletrónicas de controlo. Água, lama e detritos podem danificar estes componentes de forma nem sempre visível nos primeiros dias. Os módulos mais simples custam acima de 300 euros, enquanto os mais sofisticados podem chegar aos 5.000 euros por unidade. Multiplicar esses valores por vários módulos afetados transforma rapidamente uma reparação possível numa conta incomportável.
Travões, suspensão e escape
Nesta área, as notícias são menos sombrias. Uma limpeza profunda e secagem adequada resolvem grande parte dos problemas nos travões e na suspensão. No sistema de escape, a remoção completa da água é essencial para evitar corrosão interna. Os custos tendem a ser mais baixos do que no motor ou na eletrónica, mas não devem ser ignorados, sobretudo se a manutenção não for feita rapidamente.
Interior é recuperável, mas trabalhoso
Bancos, tablier e revestimentos podem, na maioria dos casos, ser restaurados. O custo mínimo ronda os 250 euros, mas sobe consoante a extensão dos danos e o tipo de materiais. O verdadeiro inimigo aqui é a humidade residual: se a secagem não for rigorosa, os problemas de mofo e mau cheiro podem tornar-se crónicos.
E os carros elétricos?
Nos veículos elétricos, as baterias estão concebidas para resistir à submersão. O problema, mais uma vez, é a eletrónica associada. Quando um carro elétrico fica submerso, os danos podem atingir níveis que tornam a reparação economicamente inviável.
Quando é declarada a perda total
A lei portuguesa define uma fórmula clara para determinar a perda total de um veículo. De acordo com a DECO Proteste, o cálculo funciona assim: se a soma do custo de reparação mais o valor do salvado igualar ou ultrapassar o valor venal do veículo antes do sinistro, estamos perante perda total. Para veículos com mais de dois anos, esse limiar sobe para 120% do valor venal.
O que isto significa na prática
Imagine um carro com valor de mercado de 8.000 euros. Se a peritagem estimar uma reparação de 6.500 euros e o salvado for avaliado em 2.000 euros, a soma (8.500 euros) ultrapassa o valor venal. Resultado: perda total. A seguradora não vai pagar a reparação e vai indemnizar.
O proprietário fica então com duas opções. Pode entregar o salvado à seguradora e receber o valor venal completo do veículo. Ou pode ficar com o carro danificado, recebendo a diferença entre o valor venal e o valor do salvado, e reparar por sua conta e risco.
Contestar a decisão
Nem todos os condutores concordam com a avaliação da seguradora, e a lei permite contestar. Quem considerar o valor atribuído injusto pode pedir uma peritagem independente, apresentar reclamação formal com documentação de suporte, ou recorrer ao Centro de Informação, Mediação e Arbitragem de Seguros (CIMPAS). Em alguns casos, é possível negociar com a seguradora para ficar com o veículo e reparar por conta própria, deduzido o valor do salvado.
O Seguro cobre danos por inundação?
Aqui está a realidade que muitos proprietários só descobrem quando já é tarde: o seguro automóvel obrigatório cobre exclusivamente danos causados a terceiros. Se o veículo for afetado por cheias, chuvas intensas ou acumulação de água, os prejuízos só são reembolsados se a apólice incluir a cobertura de fenómenos da natureza.
Esta proteção adicional, presente em apólices mais completas, abrange tempestades, inundações, aluimentos de terra e queda de granizo. Sem ela, os custos ficam integralmente a cargo do proprietário.
Atenção à negligência
Mas atenção à cláusula de negligência, mesmo com cobertura contratada, a seguradora pode investigar se houve negligência. Por exemplo, conduzir por uma via já interdita ou visivelmente inundada pode invalidar a cobertura. Em casos de menor mediatismo, a seguradora pode ainda solicitar um documento do IPMA que comprove que as condições meteorológicas atingiram os mínimos exigidos na apólice, que custa cerca de 85 euros.
Reparar ou não reparar: como decidir
A decisão não se resume a uma questão de custos imediatos. Há vários fatores que pesam na balança.
A reparação tende a compensar quando o veículo tem valor comercial elevado, os danos se limitaram ao interior e a componentes recuperáveis (travões, suspensão, escape), o motor não foi afetado e a eletrónica passou numa avaliação técnica detalhada. Se o carro esteve estacionado e desligado, com a água abaixo do nível do motor, as probabilidades jogam a favor.
Quando a perda total é o caminho mais sensato
Se a água entrou no motor em funcionamento, se múltiplas unidades eletrónicas estão comprometidas ou se o valor de reparação se aproxima do valor de mercado do veículo, reparar pode ser uma aposta de risco. Problemas em carros inundados têm o hábito desagradável de aparecer semanas ou meses depois: corrosão interna, falhas eletrónicas intermitentes, cheiros persistentes.
O que fazer nos primeiros dias após a inundação
Os passos imediatos podem fazer a diferença entre uma reparação viável e uma perda total evitável. Esta é a checklist essencial:
Procurar avaliação técnica independente — antes de aceitar a decisão da seguradora, uma segunda opinião pode revelar danos ocultos ou, pelo contrário, mostrar que o quadro é menos grave do que parecia.
Documentar tudo — fotografias e vídeos do veículo no local, com a água ainda presente se possível. Estes registos servem tanto para a seguradora como para eventual contestação futura.
Não ligar o motor — por mais tentador que seja verificar se o carro “pega”, ligar a ignição com água no sistema pode causar danos irreversíveis que ainda não existiam. O veículo deve ser rebocado, não conduzido.
Contactar a seguradora rapidamente — a abertura do sinistro deve ser feita o mais cedo possível. A avaliação por peritos deve acontecer antes de qualquer reparação. Guardar todas as faturas de intervenções urgentes, como reboque.
Um país que precisa repensar a proteção automóvel
As tempestades de janeiro e fevereiro de 2026 expuseram uma fragilidade que já era conhecida mas pouco discutida: a maioria dos portugueses não tem cobertura contra fenómenos naturais no seguro automóvel. Muitos descartaram esta proteção nos últimos anos por considerá-la cara ou desnecessária. As cheias que afetaram 68 concelhos mostraram que essa economia pode sair muito mais cara.
Para quem neste momento olha para um carro coberto de lama e se pergunta o que fazer, a resposta passa por não ter pressa, reunir toda a informação disponível e, acima de tudo, não tomar decisões sem uma avaliação técnica séria.