Miguel Pinto
Miguel Pinto
18 Fev, 2026 - 12:30

Carros que andam sozinhos: o futuro já chegou à estrada

Miguel Pinto

Entrar num carro que “anda sozinho” já é a realidade. A condução autónoma está aí em força e traz novos desafios para a sociedade.

carros de condução autónoma

Os carros de condução autónoma deixaram de ser ficção científica. Com legislação a avançar na Europa e empresas como a Waymo e a Tesla a preparar operações comerciais, a condução sem condutor é uma realidade cada vez mais próxima.

Um carro autónomo, também conhecido como veículo de condução autónoma ou self-driving car, é um automóvel capaz de perceber o ambiente à sua volta e deslocar-se sem intervenção humana direta, recorrendo a uma combinação de sensores, câmaras, radares, tecnologia LiDAR e inteligência artificial.

Contudo, a “autonomia” não é um conceito binário. A tecnologia está dividida em cinco níveis, estabelecidos pela Society of Automotive Engineers (SAE).

  • Nível 1. Assistência básica ao condutor, como o controlo de cruzeiro adaptativo e a assistência de manutenção de faixa. O condutor mantém o controlo total.
  • Nível 2. Os chamados Sistemas Avançados de Assistência ao Condutor (ADAS) permitem ao veículo controlar a velocidade e a direção em simultâneo, mas exigem que o condutor esteja sempre atento e pronto a intervir. O Autopilot da Tesla é um exemplo desta categoria, embora a empresa tenha enfrentado problemas legais por o ter descrito como “condução autónoma total”.
  • Nível 3. O veículo pode tomar decisões autónomas, como mudar de faixa para ultrapassar, mas o condutor deve estar disponível para retomar o controlo a qualquer momento.
  • Nível 4. O pico da tecnologia autónoma atualmente disponível no mercado comercial. O veículo conduz-se de forma independente em zonas pré-mapeadas, com intervenção humana apenas em situações excecionais. É aqui que se encontram os serviços de robotáxi da Waymo.
  • Nível 5. O objetivo final é condução completamente autónoma, sem qualquer necessidade de intervenção humana, capaz de tomar decisões éticas nas situações mais complexas. Ainda não existe em estado comercial.

Como funcionam os carros de condução autónoma?

O cérebro de um veículo autónomo é uma combinação complexa de hardware e software. E há abordagens díspares.

Inteligência artificial de ponta a ponta (end-to-end AI)

Utilizada pela Tesla no seu sistema Full Self-Driving (FSD), esta abordagem processa um fluxo contínuo de imagens de câmara através de um único modelo de machine learning, treinado para reagir como um condutor experiente.

É uma solução mais económica por unidade, dado que necessita de menos sensores físicos.

No entanto, tem uma desvantagem significativa, já que quando o sistema erra, é muito difícil perceber retrospetivamente o que correu mal, comprometendo a responsabilização e a aprendizagem com os erros.

Inteligência artificial composta (composite AI)

Adotada por empresas como a Waymo e a Oxa, esta abordagem é mais transparente.

Combina múltiplas fontes de informação (câmaras, LiDAR, GPS e radares) com uma memória do ambiente esperado e do ambiente detetado em tempo real.

O sistema funciona como um condutor de rali com um co-piloto excecional, que recebe sugestões de várias fontes e as pondera antes de agir. Este método é mais robusto e auditável, o que o torna preferível do ponto de vista da segurança e da regulação.

Qual é o estado atual da legislação?

táxi de condução autónoma

O futuro da condução autónoma será marcado por uma expansão gradual, mas não isenta de obstáculos. E a legislação aplicável vai-se ajustando.

No Reino Unido

O Automated Vehicles Act 2024 estabeleceu o enquadramento legal para a operação de veículos autónomos nas estradas britânicas.

A lei define o conceito de “entidade autorizada de condução autónoma” (ASDE), que é a empresa responsável pelo veículo e pela sua operação, incluindo a responsabilidade em caso de acidente.

Estão planeados pilotos de táxis e autocarros autónomos a partir da primavera de 2026, com empresas como a Waymo e a Uber a anunciarem planos para entrar no mercado de Londres.

Na Europa

Os países europeus encontram-se em diferentes fases de desenvolvimento legislativo. A Alemanha foi pioneira ao permitir a circulação de veículos de Nível 4 em condições específicas desde 2022.

A União Europeia trabalha num quadro regulatório harmonizado, mas a implementação plena ainda está a decorrer.

Os principais desafios da condução autónoma

A tecnologia continuará a evoluir rapidamente, mas a regulação terá de acompanhar esse ritmo em áreas absolutamente fundamentais.

Segurança e responsabilidade

Apesar dos avanços, os sistemas autónomos não são infalíveis. A Waymo foi investigada pela Administração Nacional de Segurança Rodoviária dos EUA (NHTSA) após relatos de veículos que não respeitaram as regras de trânsito junto a autocarros escolares.

Os robotáxis da Tesla também registaram comportamentos erráticos captados em vídeo, incluindo travagens abruptas e invasão da faixa contrária. Estes incidentes mostram que, mesmo as empresas mais avançadas, ainda têm muito caminho a percorrer.

Custo

Os veículos autónomos são atualmente muito caros. A frota de Jaguar I-Pace da Waymo tem um custo estimado superior a 114.000 euros por unidade.

Esse custo repercute-se nas tarifas pagas pelos passageiros, que podem ser entre 20 a 40% mais elevadas do que as de um táxi convencional.

Com o aumento da escala de produção e a concorrência entre operadores, espera-se que os preços desçam progressivamente.

Infra-estrutura rodoviária

A eficácia de um veículo autónomo depende em grande medida da qualidade da estrada.

Marcações apagadas, sinalização deteriorada, estradas rurais sem linhas brancas ou cruzamentos complexos representam desafios reais para os sistemas de navegação autónoma.

Privacidade e cibersegurança

A adoção de veículos autónomos implica a recolha e partilha de dados de localização e movimento dos utilizadores com empresas privadas.

Além disso, a possibilidade de pirataria informática (hacking) dos sistemas de controlo do veículo é um risco que a indústria e os reguladores ainda estão a trabalhar para mitigar.

Complacência do condutor

Estudos revelam que os condutores de veículos altamente automatizados demoram, em média, seis vezes mais a responder a situações de travagem de emergência do que os condutores de carros convencionais.

O excesso de confiança na tecnologia pode tornar os utilizadores menos atentos e menos preparados para intervir quando necessário.

Quais são as vantagens dos carros autónomos?

self driving

Apesar dos desafios, o potencial dos veículos autónomos é considerável.

Maior segurança rodoviária. Segundo estimativas citadas pelo Governo britânico, 88% dos acidentes rodoviários são causados por erro humano. Sistemas autónomos, quando suficientemente maduros, podem eliminar uma grande parte dessas ocorrências.

Mobilidade para todos. Um estudo da Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT) concluiu que seis em cada dez pessoas com mobilidade reduzida beneficiariam de um carro autónomo.

Quase metade afirmou que poderia voltar a praticar hobbies fora de casa, e 39% disse que teria melhor acesso a cuidados de saúde.

Eficiência logística. Em ambientes controlados como aeroportos e portos, os veículos autónomos podem operar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem necessidade de pausas ou rotação de turnos.

É neste segmento, logística e transporte industrial, que a tecnologia apresenta atualmente o maior retorno sobre o investimento.

Criação de emprego e crescimento económico. O Governo britânico estima que o setor da mobilidade autónoma possa criar 38.000 empregos e movimentar até 42 mil milhões de libras até 2035.

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Seguro, a carta de condução e manutenção

Como é óbvio, a condução autónoma vai impactar um vasto número de fatores. A forma como nos movemos na estrada muda consideravelmente, assim como os gastos associados.

Seguro

O modelo tradicional de seguro automóvel terá de se adaptar. Em veículos de Nível 4 ou superior, a responsabilidade em caso de sinistro recai sobre o operador do serviço, não sobre o ocupante.

Algumas seguradoras já desenvolvem apólices específicas para cobrir riscos como falhas de software ou ataques informáticos.

Carta de condução

Para veículos altamente automatizados, a legislação deverá exigir que o condutor esteja preparado para retomar o controlo.

Para veículos totalmente autónomos, a questão permanece em aberto: será necessária carta de condução? Que formação deverá ser exigida?

Uma comissão da Câmara dos Lordes britânica recomendou a criação de um exame específico para condutores de veículos autónomos.

Manutenção e inspeção técnica

As revisões periódicas dos veículos terão de incluir a verificação dos sistemas de condução autónoma, um domínio ainda não coberto pelos regulamentos de inspeção técnica (como a IPO em Portugal).

Veículos híbridos que tanto circulam em modo manual como autónomo colocam questões regulatórias complexas que ainda estão por resolver.

Onde estão a ser usados hoje em dia?

Os casos de uso mais consolidados da condução autónoma são, atualmente, em ambientes controlados.

  • Portos e aeroportos. Veículos industriais autónomos operam sem condutor em recintos fechados, geridos remotamente por operadores humanos que intervêm apenas quando necessário.
  • Robotáxis urbanos. A Waymo opera um serviço comercial de robotáxis em cidades como San Francisco e Phoenix, nos EUA, com planos de expansão para Londres.
  • Autocarros autónomos. Empresas como a Oxa realizaram transporte de mais de 10.000 passageiros em mini-autocarros Ford Transit modificados e sem condutor.

Carros de condução autónoma: perguntas frequentes

Os carros autónomos já são legais em Portugal? Ainda não existem
regulamentos específicos em Portugal para a circulação comercial de veículos autónomos nas estradas públicas. O quadro europeu está a ser
desenvolvido, mas a implementação plena ainda está em curso.

Qual é o carro autónomo mais avançado do mercado? A Waymo, empresa pertencente ao grupo Alphabet (Google), opera atualmente os serviços
de robotáxi mais avançados disponíveis comercialmente, classificados
como Nível 4. A Tesla desenvolve o sistema FSD, mas este ainda não
recebeu aprovação regulatória para uso público sem supervisão humana.

Os carros autónomos são mais seguros do que os conduzidos por humanos?
Têm o potencial de ser significativamente mais seguros a longo prazo, dado
que eliminam o erro humano — responsável pela grande maioria dos acidentes.
No entanto, na fase atual de desenvolvimento, ainda registam falhas e situações imprevistas que exigem cautela.

Quando é que os carros autónomos vão estar disponíveis para compra
ao público em geral? Os analistas estimam que os veículos de Nível 4
possam estar disponíveis de forma mais alargada entre 2030 e 2035.
A chegada do Nível 5 ao mercado de consumo
não tem ainda uma data previsível.

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