Quando a água invade a habitação, as primeiras 48 horas são absolutamente críticas. O que se faz neste período pode determinar não só a segurança da família, mas também a extensão dos danos materiais e o valor da indemnização do seguro.
A diferença entre uma recuperação rápida e meses de pesadelo passa por decisões tomadas nos primeiros minutos após a água baixar. Este artigo apresenta um roteiro claro, baseado em recomendações da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e de especialistas em gestão de emergências, para enfrentar as horas mais decisivas depois de uma inundação.
Avalie os riscos antes de entrar
Mesmo que a água já tenha baixado, entrar em casa pode ser perigoso. A ANEPC recomenda aguardar autorização oficial em evacuações obrigatórias.
Verifique riscos de colapso estrutural: fissuras nas paredes, inclinação de estruturas ou portas com dificuldade em abrir/fechar. Nestes casos, chame um engenheiro civil.
Instalações elétricas molhadas provocam eletrocussão. O quadro elétrico deve ser desligado por eletricista qualificado. Se inacassível, contacte a distribuidora de energia.
A água de inundações contém esgotos, químicos e bactérias. A Direção-Geral da Saúde alerta que o contacto direto provoca infeções graves como gastroenterites ou leptospirose. Botas de borracha até ao joelho, luvas impermeáveis e máscara são obrigatórias.
Documente tudo
Antes de limpar, documente meticulosamente todos os danos. Embora frustrante, é essencial para a indemnização da seguradora.
Fotografe e filme cada divisão de vários ângulos: nível da água nas paredes, objetos danificados, móveis e eletrodomésticos afetados. Quanto mais detalhado o registo, mais fácil provar prejuízos. Fotografe também o exterior da habitação e rua para contextualizar a extensão.
Crie uma lista detalhada incluindo marca, modelo e data de compra. Seque e preserve recibos, faturas e garantias sobreviventes. A Autoridade de Supervisão de Seguros confirma que muitas seguradoras aceitam documentação por email ou aplicação móvel, acelerando o processo.
Contacte a seguradora nas primeiras horas. Quanto mais cedo abrir o sinistro, mais rápido obtém apoio. Algumas disponibilizam equipas de emergência para avaliação inicial e secagem.
Remova a água e inicie a secagem
Após garantir segurança e documentar danos, remova a água estagnada. Cada hora que a água permanece aumenta exponencialmente os danos, criando condições para bolores que tornam a habitação insalubre em dias.
Para pequenas quantidades use baldes e aspiradores de líquidos. Em situações graves, bombas de água elétricas ou empresas especializadas com equipamento industrial são necessárias, embora possam estar sobrecarregadas após eventos que afetam muitas habitações.
Abra todas as janelas e portas para criar correntes de ar. Use desumidificadores para reduzir a humidade para níveis inferiores a 50% o mais rapidamente possível.
Carpetes e alcatifas encharcadas devem ser removidas nas primeiras 24 a 48 horas. Recuperá-las é impossível e mantê-las agrava humidade e bolor. O mesmo aplica-se a mobiliário estofado danificado. Madeiras derivadas como contraplacado ou aglomerado incham e raramente recuperam.
Salve o que é possível salvar
Nem tudo está perdido após uma inundação. O que esteve em contacto com água contaminada precisa de desinfeção rigorosa, mas pode ser salvo se tratado rapidamente.
Eletrodomésticos submersos não devem ser ligados. A humidade interior provoca curto-circuitos ou incêndios. Um técnico qualificado precisa de avaliá-los primeiro.
Documentos e livros podem ser secos com papel absorvente ao ar. Livros podem ser congelados temporariamente para impedir fungos até haver tempo para secagem adequada.
Roupas e têxteis devem ser lavados com água quente e detergente, seguidos de desinfeção. Com suspeita de contaminação por esgotos, adicionar lixívia. Secar completamente antes de guardar para evitar bolor.
Mobílias de madeira maciça recuperam bem se secas lentamente ao natural. Evitar aquecedores ou secadores que provocam empenos e fissuras, mesmo que demore semanas.
Descontamine e desinfete todas as superfícies
A água de inundações carrega contaminação microbiológica séria. Bactérias, vírus, parasitas e fungos proliferam rapidamente em ambientes húmidos. A desinfeção completa de todas as superfícies que estiveram em contacto com a água não é opcional, é obrigatória para garantir a salubridade da habitação.
Uma solução de lixívia diluída funciona bem para superfícies não porosas na proporção de uma chávena de lixívia para cada quatro litros de água. Aplique generosamente, deixe atuar pelo menos dez minutos e depois enxague. Use sempre em ambiente bem ventilado e com equipamento de proteção.
Paredes e tetos precisam de atenção especial. Se o reboco ficou muito molhado ou existem sinais de infiltração profunda, pode ser necessário removê-lo até à estrutura. Pintura sobre superfícies húmidas causa descasques, manchas e bolores futuros.
O sistema de esgoto pode ter ficado comprometido. Despeje água com lixívia pelos ralos, sanitas e sifões para desinfetar. Se suspeitar de danos nas canalizações, chame canalizador antes de usar o sistema.
Lide com seguros e apoios financeiros
Saber como acionar o seguro multirriscos habitação e que apoios existem faz diferença no impacto financeiro da catástrofe. Alguns seguros excluem inundações por águas subterrâneas ou marés, cobrindo apenas rupturas de canalizações. Esta distinção pode significar a diferença entre receber indemnização ou não.
O prazo para participar o sinistro é geralmente oito dias, mas quanto mais cedo melhor. Mantenha documentação organizada: fotografias, vídeos, listas de bens, orçamentos e recibos.
Em catástrofes declaradas, o Instituto da Segurança Social disponibiliza apoios para realojamento e reparações urgentes. Câmaras municipais abrem linhas de apoio específicas com procedimentos simplificados.
Guarde todos os recibos: bombas, desumidificadores, materiais de limpeza, alojamento ou refeições podem ser dedutíveis em IRS ou reembolsáveis pela seguradora.
Previna problemas de saúde pós-inundação
As consequências para a saúde manifestam-se dias ou semanas após a inundação. Estar atento a sintomas protege a família de complicações sérias.
A Direção-Geral da Saúde alerta: náuseas, vómitos, diarreia e febre exigem avaliação médica imediata. Crianças, idosos e imunodeprimidos têm risco acrescido. Se alguém bebeu água contaminada ou teve feridas expostas, procure aconselhamento médico preventivo.
O bolor é o inimigo invisível. Os esporos multiplicam-se em ambientes húmidos, provocando alergias, asma e problemas respiratórios crónicos. Manchas escuras, cheiro a mofo ou sintomas alérgicos agravados indicam bolores. Em casos graves, necessita limpeza profissional ou remoção de materiais.
Stress pós-traumático não é exclusivo de guerras. Perder casa ou bens desencadeia ansiedade, insónia ou depressão. Não minimize estes sentimentos. Apoio psicológico, seja público ou de organizações especializadas, faz diferença significativa na recuperação emocional.
Quando deve chamar profissionais
Saber quando pedir ajuda especializada evita erros caros e perigosos nas primeiras 48 horas após a inundação.
Estruturas danificadas exigem engenheiro civil. Fissuras, desníveis no chão ou portas que não fecham não devem ser improvisados. Um relatório técnico garante segurança e é frequentemente exigido pelas seguradoras.
Instalações elétricas molhadas são trabalho para eletricista certificado. A ANEPC reforça que religar corrente sem inspeção pode resultar em choque elétrico fatal ou incêndio.
Empresas especializadas em recuperação pós-catástrofe têm equipamento que faz diferença real. Desumidificadores industriais, sistemas de secagem por injeção de ar e equipas de desinfeção profunda aceleram em semanas um processo que levaria meses. O investimento compensa quando a seguradora comparticipar custos.
Canalizadores devem verificar todo o sistema de águas e esgotos. Inundações podem deslocar tubagens, partir juntas ou entupir canalizações. Usar o sistema sem inspeção agrava danos ou provoca contaminação adicional.
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