Share the post "Gás natural: preços disparam e os portugueses vão sentir na carteira"
O gás natural já disparou mais de 33% em poucos dias e as consequências para os consumidores portugueses poderão ser sentidas nas faturas da luz, do aquecimento e nos combustíveis.
A “culpa” é do ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, com as grandes empresas de transporte marítimo a suspenderam as passagens pelo Estreito de Ormuz e os mercados a reagirem em conformidade.
O Estreito de Ormuz é o corredor marítimo mais crítico do mundo para o abastecimento energético global. Por ali passam cerca de 20% do petróleo comercializado a nível mundial e volumes massivos de gás natural liquefeito (GNL), sobretudo proveniente do Qatar, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.
O Qatar, um dos maiores exportadores de GNL do planeta, chegou mesmo a suspender a sua produção de gás por razões de segurança, um dado que pesou diretamente na escalada de preços.
Quanto subiu o preço do gás natural?
Os números falam por si. Em poucos dias, o preço do gás natural na Europa registou subidas históricas.
- Segunda-feira, 2 de março: o gás disparou mais de 20%, atingindo 53,6 euros por megawatt-hora (MWh).
- Terça-feira, 3 de março: nova escalada, com o gás a subir 33,2% para 57,596 euros/MWh, chegando a tocar os 59,165 euros durante a manhã, um aumento de quase 37% face ao fecho do dia anterior.
- Em acumulado desde o início do conflito, o gás natural registou uma subida superior a 73% nos mercados internacionais.
Refira-se que, antes do conflito, o gás estava a negociar perto dos 43 euros/MWh. Num só dia de negociação, o valor quase tocou os 60 euros. Esta velocidade de escalada não acontecia desde a crise energética de 2022, na sequência da invasão russa da Ucrânia.
Gás natural afeta a eletricidade e o aquecimento?

O gás natural não é apenas combustível para fogões e caldeiras. Em Portugal e na Europa, o gás é uma das principais fontes de produção de eletricidade.
Quando o preço do gás sobe, o custo de produzir eletricidade nas centrais a gás aumenta também, e esse acréscimo acaba por ser refletido nos preços do mercado elétrico, o que se traduz em faturas mais elevadas para os consumidores.
Este mecanismo, conhecido no setor como “efeito de arrasto”, significa que mesmo os consumidores que não utilizam gás diretamente (por exemplo, quem aquece a casa com eletricidade ou ar condicionado) acabam por pagar mais. O impacto não é imediato, mas se o conflito se prolongar, é praticamente inevitável.
Para quem já tem contratos a preços variáveis, a pressão pode chegar mais depressa. Para os consumidores em mercado regulado, os ajustes chegam tipicamente nas revisões tarifárias seguintes.
Impacto nos combustíveis
Além do gás e da eletricidade, a subida do petróleo pressiona diretamente os preços dos combustíveis nas bombas portuguesas.
O Brent chegou a subir quase 7% para 83 dólares por barril nos primeiros dias do conflito, com analistas a preverem que poderá ultrapassar os 100 dólares se a paralisia do Estreito de Ormuz persistir.
A vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), Mafalda Trigo, foi direta nas estimativas. Se esta semana terminar com os valores de 3 de março, as previsões apontam para aumentos de cerca de 13 cêntimos por litro nos combustíveis na próxima semana.
Choque energético: Portugal está preparado?
Portugal tem uma relação comercial direta com o Irão praticamente nula e as exportações portuguesas para o país têm um peso residual. O nosso país não importa petróleo ou gás iraniano de forma direta.
No entanto, como os preços são fixados em mercados internacionais, a origem do produto é secundária e o que acontece no estreito de Ormuz chega sempre à fatura de energia de qualquer família portuguesa.
Existe, porém, um fator diferenciador favorável. É que Portugal tem uma capacidade instalada de energias renováveis significativa, com a produção eólica e solar a representar uma fatia relevante da eletricidade consumida no país.
O que devem fazer os consumidores?
Face à incerteza, há algumas medidas práticas que os consumidores e as empresas podem considerar.
- Quem está em mercado liberalizado com contrato variável deve avaliar a possibilidade de mudar para um contrato indexado a preço fixo, se disponível.
- As empresas com forte dependência energética devem monitorizar os mercados de futuros e avaliar coberturas de risco.
- As famílias podem antecipar a revisão de comportamentos de consumo energético, aproveitando a ocasião para investir em eficiência energética.
A duração do conflito é, como sublinharam vários economistas ouvidos pela imprensa portuguesa, “a incógnita mais importante”. Uma perturbação de poucas semanas tem repercussões completamente diferentes de um conflito que se arraste por meses.
A guerra no Irão vai afetar diretamente os preços do gás em Portugal?
Sim. Mesmo sem relação comercial direta com o Irão, Portugal está
exposto aos preços internacionais do gás e da eletricidade. A perturbação
no Estreito de Ormuz reduz a oferta global de GNL, pressionando os preços para cima nos mercados europeus.
Quando se vão sentir os aumentos nas faturas? Os combustíveis são
os mais rápidos a reagir e os efeitos podem surgir na semana seguinte
a cada subida do petróleo. Para o gás e a eletricidade, os contratos
existentes têm alguma inércia, mas se o conflito se prolongar, os aumentos
chegarão nas próximas revisões tarifárias.
Portugal está mais protegido do que outros países europeus? Parcialmente.
A elevada penetração de energias renováveis protege a eletricidade de
parte da volatilidade, mas a dependência de gás natural importado para aquecimento e para produção elétrica de base mantém Portugal exposto aos choques externos.
O que é o Estreito de Ormuz e porque é tão importante? É um canal
marítimo com apenas 33 km no ponto mais estreito, que liga o Golfo Pérsico
ao Oceano Índico. Por ali passa cerca de 20% do petróleo e grandes
volumes de GNL consumidos a nível mundial. Qualquer perturbação
neste corredor tem impacto imediato nos preços globais da energia.